Sabedoria 2








“Em suas memórias póstumas, este pensamento se completa. Também ali ele narra o que dizia em sua carta sobre chefe dos índios pueblos, Ochwían Biano, que acreditava ajudar o Sol a levantar-se todas as manhãs. E Jung procurava encontrar para o homem moderno um mito tão transcendental ou vital como aquele. Isso se revela em sua vida, no seu trabalho de anos: Iluminar a escuridão do Criador.
Dar consciência no sentido junguiano não significa racionalizar, mas sim projetar-se com “essa luz que é seu tesouro” e que emana daquela mesma “central” misteriosa da pessoa, do indivíduo, para dirigir-se ao reino das trevas e ir incorporando-o num processo sem fim.

Jung vê nos olhos dos animais o sofrimento da noite da criação, o medo de uma região em que não existe ainda a luz. E acredita descobrir que eles necessitam de nós, esperam que lhes revelemos o mundo e o mistério de suas existências dolorosas, para que os contemplemos e os reflitamos, projetando-os na luz. Em uma palavra: para que cheguemos a ser o espelho da criação, do animal, da árvore, do rio, da pedra e talvez, de Deus mesmo.

Somos enfim, a consciência do mundo, o espelho da flor; a natureza nos formou através das idades, para que a revelemos, para que a contemplemos me sua efemeridade, em sua evanescência. E aí estão, pois, os seres, os objetos sacramentais, esperando-nos. Nós passamos e não sabemos. Passamos, sem ver, sem
olhar.

Passamos sem saber que a flor grita porque a admiramos, que a frigideira espera nosso bom dia matinal, que o Sol necessita que o ajudemos a manter-se no alto, que a Terra deseja ser auxiliada no seu movimento de rotação.
E quando chegarmos a
olhar a flor, ela sabe disso, sente e nos devolverá esse olhar com alguma forma de amor, talvez quando estivermos nos dissolvendo no seio da terra”.


Do Livro: Círculo Hermético : de Herman Hesse para Carl G Jung
Miguel Serrano
Editora Brasiliense,1973,

Sabedoria


Jung cortando gravetos, 1958.

“ Guardo minha luz e meu tesouro, convencido de que ninguém lucraria – e eu mesmo seria ferido sem esperança – se a perdesse. Ela é o que há de mais alto e precioso, não somente para mim como também, sobretudo, para as trevas do Criador, que necessita do homem para iluminar sua Criação. Se Deus houvesse previsto inteiramente seu mundo,este seria uma mera máquina sem sentido e a existência do homem um inútil capricho.
O Intelecto pode vislumbrar a última necessidade, mas a totalidade do meu ser diz “ Não” a isso...
Sinceramente seu",
(*)CG Jung, 14 setembro 1960.

“ Quando Lao-Tse diz: “ Todos os seres são claros, eu sou um turvo”, exprime o que sinto em minha idade avançada. Lao-Tse é o exemplo do homem de sabedoria superior que viu e fez a experiência do valor e do não-valor, e que no fim da vida deseja voltar a seu próprio ser, no sentido eterno e incognoscível. O arquétipo do homem idoso que contemplou suficientemente a vida é eternamente verdadeiro; em todos os níveis da inteligência, esse tipo aparece e é idêntico, quer se trate de um velho camponês ou de um grande filósofo como Lao-Tse.

Assim, a idade avançada é... uma limitação, um estreitamento. E no entanto, acrescentou em mim tantas coisas: as plantas, os animais, as nuvens, o dia e a noite e o eterno no homem.
Quanto mais se acentuou a incerteza em relação a mim mesmo, mais aumentou o sentimento de parentesco com as coisas. Sim, é como se essa estranheza que há tento tempo me separava do mundo tivesse agora se interiorizado, revelando-me uma dimensão desconhecida e inesperada de mim mesmo”.
(**)Carl Gustav Jung


(*)Carta de Jung para Miguel Serrano
Do livro : O círculo Hermético: Hermann Hesse a C.G. Jung
Autor: Miguel Serrano
Editora Brasiliense, 1973

(*)Do livro: Memórias, Sonho e Reflexões
Editora Nova Fronteira, 1975.




Desacorrentadas

Marc Chagall, La branche


Martha Medeiros

"O amor liberta? De certa forma, sim. Amar faz você desprender-se da razão, incorporar novos hábitos, expandir seus sentimentos, invadir recantos da sua alma nunca antes explorados. De fato, é bem poético e libertador amar.
Mas tem seus contratempos, lógico. A convivência entre duas pessoas nem sempre é um mar de calmaria, muitas concessões necessitam ser feitas, ou seja, alma gêmea não existe, é conversa pra boi dormir. Ainda assim, é melhor estar amando do que não estar amando. Ao menos até uma determinada idade.

Circulam por aí reportagens que enaltecem o amor aos 70, 80 anos, dizendo que nunca devemos encerrar as buscas, que o amor merece ser encontrado em qualquer etapa da vida. Merece, mas tenho ressalvas a fazer.Se você alcançou uma certa longevidade e tem um parceiro bacana, mantenha-o, claro. Mas se você está sozinha da silva, já teve vários bons romances na vida e está em paz com a sua solidão, vai procurar sarna pra se coçar a troco de quê?

Há duas mulheres famosas na faixa dos 60 anos que, depois de amarem muito, já manifestaram publicamente a sua desistência de seguir procurando companhia (ainda que eu intua que esse desprendimento ainda vai lhes proporcionar novas surpresas amorosas).
Mas, enfim, são mulheres inteligentes e bem resolvidas, e essa postura de “largar de mão” me inspirou: pretendo seguir a mesma cartilha. Não que eu colecione desilusões, pelo contrário. Não tenho do que me queixar. Já vivi o lado zen e o lado tsunâmico do amor, e o saldo é de puro prazer e gratidão. Sou totalmente pró-amor, nem penso em aposentadoria agora.

Mas o agora vai se transformar em depois, e depois é outra história.Estou sem a menor pressa de que o tempo passe, mas vai passar e quando eu chegar nos meus 60 e tantos, bem saudável, independente e mantendo o espírito da juventude (estão rindo do quê?), pretendo curtir a vida mais do que já curto hoje. E não haverá problema em estar sozinha, caso estiver.

Quem tem amigos, não se aperta. Ainda mais quando são amigos de diversas áreas, diversas idades, gente com a cabeça aberta, o humor tinindo, bem informados - existe turma melhor? Depois de uma noitada regada a ótimas conversas, você pega sua bolsa e volta pra casa, pega seu livro, se esparrama na cama e dorme até a hora que quiser, se for final de semana - e se não for, também.
Além de amigos, ter algum dinheiro é importante, lamento tocar nesse assunto desagradável. É ele que possibilitará que você viaje, vá a shows, receba gente querida em casa, se presenteie com pequenos mimos.
Sim, você pode fazer tudo isso com um parceiro ao lado, mas não na hora que você bem entender e sem dar satisfações. Tudo terá que ser negociado. E será preciso abrir espaço na agenda para os amigos dele, a família dele, as carências dele, as doenças dele, as galinhagens dele.

Será que, maduríssima da silva, terei tempo e paciência para me dedicar tanto assim à manutenção de uma relação nova? Sem falar em continuar tendo que se preocupar com o próprio corpo, com as artimanhas da sedução, com o sexo. Aí, o sexo... Sentirei saudades.

Poético e libertador é pensar que nunca estarei sem ninguém, porque chega uma hora em que a gente decide que é alguém, e basta".





Nova Consciência


Silence, by Herman Smorenburg
" O caminho da preservação da vida, é hoje, sobretudo um problema de consciência. E como consciência é um fenômeno que se processa no interior do homem, é justamente em seu interior que devemos trabalhar – com afinco e urgência – para extrair as soluções.
A percepção cada vez mais clara desse urgente estado de coisas invadiu, nas últimas décadas, todas as áreas do conhecimento humano ocidental, as ciências, as artes, as religiões e as filosofias. O ciclo do paradigma racionalista, fragmentador e separador – a cujos excessos deve ser debitada boa parte dos problemas que hoje vivemos – parece estar chegando ao fim.

Uma nova concepção de vida e do mundo surgiu, e está sendo estruturada, assumindo a cada dia contornos mais definidos.
Assistimos ao nascimento de um novo paradigma, e um dos seus nomes de batismo é "holismo” ( do grego holos, totalidade) .
Trata-se de uma concepção sistêmica da vida e de mundo, baseada na consciência do estado de inter-relação e interdependência essencial de todos os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais, culturais e espirituais.

É preciso, contudo, por questão de justiça, lembrar que essa concepção holística ou sistêmica só e nova no âmbito do chamado conhecimento oficial do Ocidente.
Ela já era conhecida e desenvolvida, de forma velada ou explícita, pelas grandes escolas da tradição ocultista ocidental, tais como a alquimia, a cabala e a astrologia.

Quanto às civilizações orientais, pode-se afirmar que elas estão completamente estruturadas dentro da concepção sistêmica. Basta dizer que, na sua quase totalidade, as grandes filosofias que essas civilizações desenvolveram, como o hinduísmo, o taoísmo chinês, o budismo e o zen-budismo, propõem como axioma de base a idéia de que tudo é “vivo”, desde a menor partícula do átomo até Deus.
E que a essência “vital” de todas as formas criadas é exatamente a mesma.
As doutrinas arcaicas de Índia chegam mesmo a admitir a existência de um intercambio perpétuo entre os seres: “ A matéria evolui em direção ao espírito através dos reinos da natureza e das raças humanas”.


Texto de Luis Pellegrini
Prefácio do livro “ A Psicologia Transpessoal, de Márcia Tabone
Editora Cultrix.

Divindades (2) e Astrologia


Por Tereza Kawall

Para Jung, os arquétipos são princípios universais, idéias estruturantes inatas ou herdadas, a soma de todas as potencialidades latentes na psique humana, que pertencem ao Inconsciente Coletivo.
Este é, portanto, o riquíssimo substrato psíquico, a memória de todas as imagens arcaicas do homem. Os arquétipos são como protótipos de conjuntos simbólicos, modelos pré-formados, ordenados e ordenadores, dotados de extraordinário dinamismo psíquico.

Os símbolos astrológicos, sejam eles histórias de deuses, heróis ou sobre a origem das constelações, são projeções de imagens internas do homem, criados pelo coração do homem para serem lançados ao céu a fim de povoá-lo de figuras, visões e significados. Essa percepção nada mais é que a experiência especular humana, a busca de uma ordem e significado para sua existência.

Diz Sicuteri sobre os símbolos:

"Julgamos que a vida não poderia ser vivida e expressa na sua mais íntima profundidade – mesmo inconsciente – se os símbolos não viessem em nossa ajuda. E é com a ajuda deles que podemos traduzir em linguagem aquilo que sentimos dentro de nós. Portanto, o símbolo é a imagem que criamos a respeito de um conteúdo interior que transcende a consciência. No caso da astrologia, o símbolo encerrado no Zodíaco e nos planetas é o ponto de encontro, a soldagem dominante entre o mundo psicológico e espiritual do homem (microcosmo) e o universo dos astros no céu (macrocosmo)".

A astrologia contém uma estrutura mitológica e arquetípica se compreendermos que a essência dessas imagens e padrões pré-ordenados está na base de toda a criação humana. Cada signo pressupõe uma jornada mítica e todas as imagens simbólicas que lhe são inerentes.

Um signo não descreve só um tipo de comportamento ou personalidade; ele contém um padrão de desenvolvimento, uma história dinâmica a ser vivida. Um tema mitológico é também astrológico, uma vez que seus símbolos estão intimamente entrelaçados no Inconsciente Coletivo.


Do livro “Astrologia e Mito”
Roberto Sicuteri
Editora Pensamento

Divindades


Mandala tibetana século 14
"Ao contemplar uma mandala você está interiormente harmonizado ; os símbolos religiosos são poderes harmonizadores. Eles ajuam. Esse é todo o sentido da mitologia: ajudá-lo a harmonizar a sua vida indiviual
com a vida da sociedade.
A idéia básica da filosofia é que as divindades são personificações simbólicas das próprias imagens que são você mesmo. E as energias que vêm de você próprio são as energias do universo. E, assim, deus está lá fora e também aqui dentro. Sim, o reino dos céus está dentro de você, mas também em todo lugar.

Falando em divindades em termos adequados a essas tradições mitologicamente fundamentadas, digo que a divindade é a personificação da energia. É a personificação de uma energia que dá forma à vida. Toda a vida. A sua vida. A vida no mundo. E a natureza da personificação será determinada elas circunstancias históricas. A personificação é folclórica; a energia é humana. E assim as divindades provém das energias. E elas são mensageiros e veículos, por assim dizer, das energias.

A fonte dos deuses está no seu coração. Siga as pegadas até o centro e saiba que é de você que os deuses provém.

Sonho, visão, deus. Os deuses do céu e do inferno são o que poderíamos chamar aspecto cósmico do sonho. E o sonho é o aspecto pessoal do mito. Sonho e mito pertencem a mesma ordem. E você e seu deus são uma só coisa. Isso é você e o seu deus sonhando. E o seu deus não é o meu. Portanto, não tente impingi-lo a mim. Cada um tem a sua própria deidade e consciência".
Joseph Campbell – Vida e Obra
A jornada do herói
Editora Agora, São Paulo.


Sol Dourado



Como não poderia deixar de ser, para o leonino, o impulso para a afirmação ou para a realização pessoal é o tema central em sua vida. Ele deseja ser reconhecido como um ser criativo e especial, e ele sempre lutará para não ter um destino comum.
Esse pressuposto do signo de Leão está relacionado ao Sol, que em termos astrológicos é a “divindade” que o preside. Todos os símbolos do Sol traduzem idéias ou imagens de grandeza, poder, paixão e vitalidade.

No leonino, a energia vital do fogo flui espontaneamente, dando a ele uma natureza ardente, expressiva e calorosa. Na anatomia zodiacal, o órgão correspondente a este signo é o coração, e isso já diz da importância das emoções e do amor em sua vida.
Como o próprio Sol, considera-se um ser especial, a vida para ele é bela a grandiosa, e, por essa razão, não suporta a mediocridade!

Vemos dois tipos de leoninos: o “ hercúleo”, cuja natureza é dominadora, voluntariosa e instintiva. Sua moral é a da força do combate, pois personifica o “ eu heróico” que precisa vencer as batalhas da vida, garantir seu lugar no mundo; é auto-centrado, exuberante e dramático; gosta de celebrar a vida.

O outro tipo é o “ apolíneo”, cuja energia solar é mais interiorizada, sua ação é mais racional e disciplinada. Idealista e magnânimo, suas metas estão voltadas para a conquista da consciência ética, da honra e da nobreza, É movido pelo desejo de criar a si mesmo, rompendo as amarras da ignorância e da falta de visão que causam o sofrimento e a dúvida. Sua energia psíquica está aliada a uma visão de futuro e sues propósitos estão voltados para a conquista do “ Eu espiritual”.
Tereza Kawall
Astrologia, - Doze portais mágicos
Editora Talento, SP. 2001.

O erro de Descartes
















Antonio Damásio nasceu em Portugal, é um renomado neurologista e neurocientista, chefe do departamento de neurologia da Universidade de Iowa, membro da National Academy of Sciences e da American Academy of Arts and Sciences, professor do Instituto Salk de Estudos Biológicos, na Califórnia.

“ Penso , logo existo”. Esta afirmação, talvez a mais famosa da história da filosofia, ilustra exatamente o oposto do que o autor deste livro propõe e desenvolve em suas páginas. A frase de Descartes sugere que pensar e ter consciência de pensar definem o ser humano; o filósofo francês concebia o ato de pensar como uma atividade separada do corpo estabelecendo um abismo entre mente e corpo.

Na visão inovadora de Damásio, sentimentos e emoções são uma percepção direta de nossos estados corporais e constituem um elo essencial entre o corpo e a consciência. O autor afirma que o ponto de partida da ciência e da filosofia deve ser anticartesiano: existo, e sinto, logo penso.

Alguns trechos:


“ Os sentimentos, juntamente com as emoções que os originam, não são um luxo. Servem de guias internos e ajudam-nos a comunicar aos outros sinais de que também os podem guiar. E os sentimentos não são nem intangíveis e nem ilusórios. Ao contrário da opinião cientifica tradicional, são precisamente tão cognitivos como qualquer outra percepção. São o resultado de uma curiosa organização fisiológica que transformou o cérebro no público cativo das atividades teatrais do corpo.

Os sentimentos permitem-nos entrever o organismo em plena agitação biológica, vislumbrar alguns mecanismos da própria vida no desempenho das suas tarefas. Se não fosse a possibilidade de sentir os estados do corpo, que estão inerentemente destinados a ser dolorosos ou aprazíveis, não haveria sofrimento ou felicidade, desejo ou misericórdia, tragédia ou glória na condição humana”.

“ Descobrir que um certo sentimento depende da atividade num determinado número de sistemas cerebrais específicos em interação com uma serie de órgãos corporais não diminui o estatuto desse sentimento enquanto fenômeno humano.

Tampouco a angústia ou sublimidade que o amor ou a arte podem proporcionar são desvalorizadas pela compreensão de alguns dos diversos processos biológicos que fazem destes sentimentos o que eles são. Passa-se precisamente o inverso: o nosso maravilhamento aumenta perante os intrincados mecanismos que tornam tal magia possível. A emoção e os sentimentos constituem a base daquilo que os seres humanos têm descrito há milênios como alma ou espírito humano”.

António R. Damásio
Livro: O erro de Descartes – emoção, razão e cérebro humano.
Companhia das Letras, 1996, SP.