SÃO FRANCISCO DE ASSIS






Basílica ( inferior) de São Francisco de Assis, Itália.


Por Tereza Kawall


Dante Alighieri disse que São Francisco foi “ uma luz que brilhou sobre o mundo”


Com suas vestes puídas e um cajado na mão, esse homem franzino e delicado passou parte de sua vida pregando pelas cidades italianas. De suas palavras emanava uma força extraordinária, que a todos encantava, fossem os mais miseráveis ou a mais alta nobreza de da Europa medieval.

Amou e reverenciou e exaltou o Criador e toda sua criação, pregando a simplicidade e a beleza, deixando um legado extraordinário de virtudes como a humildade e bondade que fizeram dele um ser extraordinário e inesquecível. Considerado um santo já em vida, São Francisco foi canonizado pela Igreja Católica menos de dois anos após a sua morte.



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Giovanni di Pietro di Bernardone, mais conhecido como Francisco, nasceu em Assis no ano de 1182, numa família da alta burguesia italiana, que gozava de boa situação financeira.

Filho de um próspero comerciante de tecidos, o jovem Francisco gozava de boa vida, era muito popular entre seus amigos, gostava de festas,bebidas e boas roupas. Viveu neste ambiente festivo e extravagante despreocupadamente e muito jovem, já mostrava sinais de amor pelos pobres; aproveitava-se da ausência de seu pai e trazia-os para sua casa para se banquetearem.

Em 1202 alistou-se como soldado numa guerra entre Assis e Peruggia, mas acabou sendo capturado e lá ficou preso por um ano. Em 1205 engajou-se novamente na carreira das armas, e nesta época tens visões que foram os primeiros chamados para a sua grande aventura mística





Nos séculos 12 e 13, havia na Europa da Idade Média o chamado movimento pauperista, que tomou todo o sul da França, sul da Alemanha e toda a Itália – era constituído por homens leigos que levavam o Evangelho para todos, em linguagem popular.



É importante lembrar que o poder cultural e social da Igreja nesta época era absoluto, os mosteiros eram centros de cultura erudita, com suas maravilhosas bibliotecas.As ordens religiosas eram muito ricas, recebiam muitas doações do povo e da nobreza, e possuíam tesouros e grandes extensões de terra.

É neste contexto histórico que vamos encontrar o jovem Francisco, que surpreendeu a todos quando deixou para trás a herança paterna, e saiu em busca de seu próprio caminho.


Ruptura

Aos poucos foi se retraindo, já não encontrava prazer com as festas e farras, e a eles dizia-se enamorado da “ Dama Pobreza”- e por ela renunciou drasticamente às riquezas e prazeres do mundo e aos inconformados amigos.


Vai para os arredores da cidade e entra na Ordem dos Penitentes, uma dentre outras da época; veste-se apenas com um manto rústico, leva um cajado, faz orações e penitências intermináveis. Embora pertencesse a uma família abastada, Francisco era semi-analfabeto.


Mas a grande ruptura se deu quando um dia encontrou e abraçou um leproso, e ao olhar para ele em seus braços viu Jesus Cristo em seu lugar.

Daí vai morar com os leprosos ; cuida deles e come com eles, para escândalo de muitos. É importante lembrar que a lepra naquela época era símbolo do pecado, vale dizer que os leprosos, mais que doentes eram pecadores públicos, radicalmente excluídos do contato social.


Fazia sua pregação de forma itinerante dentro ou fora dos centros urbanos e nunca esteve vinculado a nenhum núcleo religioso, pois suas convicções pessoais pregavam o distanciamento das instituições, fossem elas políticas ou religiosas.Renunciou á família, renunciou `a segurança da diocese dos mosteiros enclausurados , deixando claro que a sua espiritualidade estava nos caminhos, entre os homens. Dizia: “Onde eles estão, na poeira dos caminhos, aí estaremos nós”.

Aos poucos, foram se juntando a São Francisco outros homens, que se tornaram seus discípulos e entre eles, Clara de Assis, que foi sua fiel confidente e companheira até a sua morte.
Nesta época havia uma bula papal que proibia os leigos de pregarem e Francisco era um deles, que jamais pertenceu a uma ordem religiosa, e por isso era ameaçado. Assim, pediu ao papa uma ordem de diácono que lhe permitiria pregar o Evangelho, mas não aceitava benefícios nem títulos.


Amor pelos animais
Francisco amava os passarinhos e deliciava-se com o seu canto; em especial protegia sempre as ovelhas e as árvores.
Há um episódio marcante em sua vida, que deixou muito evidente sua relação especial com os animais. Contam que São Francisco ao passar por uma cidade chamada Gubbio, soube de histórias terríveis de um lobo feroz que atacava e devorava pessoas nas estradas rurais, causando pânico e desespero entre os moradores que não saíam mais de casa.


São Francisco apiedou-se do animal, e foi desarmado em direção ao lobo; alguns malevalentes o seguiram a distancia, pela floresta. São Francisco ao aproximar-se da fera, faz o sinal da cruz e diz: “ Vem cá irmão Lobo, ordeno-te da parte de Cristo que não faças mal nem a mim, nem a ninguém”. Dizem que o animal estendeu-se aos pés de Francisco, que continuou a conversar com ele, explicando que não mais poderia continuar matando as outras criaturas de Deus; e fez a ele a promessa de que se seguisse a sua orientação ele convenceria os homens de Gubbio a alimentarem-no diariamente, pois entendia que ele atacava inocentes por estar faminto. São Francisco estendeu-lhe a mão, e o lobo,estendeu-lhe a pata dianteira, para assombro maior dos poucos que por ali ainda estavam!


Juntos, caminharam até a cidade, que já estava alertada e maravilhada com a novidade.Na praça central, São Francisco fez então uma vigorosa intermediação entre os animal e os homens da cidade, afirmando que eles também cometiam atos de violência e crueldade. E assim ficou selado um acordo entre as duas partes: o animal não atacaria ninguém e a população se comprometeria em prover o alimento para ele viver. Desta forma, ele passa a ser um cidadão com livre transito na cidade. Contam que o lobo morreu depois de dois anos e foi sepultado dentro da igreja local em homenagem ao santo.

A respeito do santo tratar todas as criaturas com afeto e respeitosa delicadeza, diz Maria Sticco:

“Acontecia-lhe por isso o que não acontece a ninguém: sentindo-se amadas, as coisas o amavam".

Não se sabe se era Francisco quem abria a inteligência dos animais ou se seriam estes que o entendiam e a ele somente, adivinhando-lhe por atração instintiva o amor e boa disposição do espírito para com eles.
Amavam-no, dando-se a ele como visivelmente o haviam feito a lebre, o faisão, o lobo, o falcão, os pássaros e como invisivelmente faziam as flores, as ervas, a água e o sol.”


Francisco viveu com sua comunidade, e suas premissas espirituais e morais o impediam de ter ou acumular bens, dinheiro, roupas; desapegado ao extremo, em várias situações tirou o seu próprio manto para alguém que estivesse com frio.

Amava profundamente a natureza em toda a sua extensão e complexidade, fosse uma abelha, uma minhoca, um pássaro, o fogo, a nuvem e a chuva; para São Francisco todos eram irmãos, filhos de um só e mesmo Pai.

A idéia de totalidade ou visão “ holística” da natureza e da criação estar intimamente inter-relacionada e integrada, a qual todos temos fácil acesso hoje, para São Francisco foi concebida numa íntima e apaixonada comunhão com natureza que para ele era a expressão onipresente da divindade.

Cito Leonardo Boff ao analisar essa “ filiação divina”:

“ Somos da casa de Deus, somos da sua família, somos filhos de Deus. A mística da filiação nos leva a viver uma dignidade fantástica.

Os filhos juntos são irmãos e irmãs. Essa é a novidade espiritual de Francisco. Francisco não deduz isso racionalmente. Ele vive a filiação como experiência, como uma comoção do coração. Vive a experiência do irmão e universaliza essa experiência. Se todos vêm de Deus e todos são filhos, todos são irmãos, o sol, a lua , as árvores, as rochas”.

Salvaguardando o contexto histórico, podemos pensar que São Francisco foi uma espécie de hyppie da Idade Média. Era um ser livre, carismático, valores humanitários sempre voltados para os pobres e excluídos.

Renunciou à riqueza da família, pregou e viveu na mais absoluta simplicidade em comunidades com aqueles que o seguiam e partilhavam de sua forma de pensar. Profundamente inspirado pelas palavras de Jesus, seu amado mestre, praticou e ensinou até o final de seus dias a máxima cristã do amor ao próximo, fosse este de natureza humana, mineral , animal ou vegetal.


Ao final de sua vida já tinha mais de dois mil seguidores, e tinha dificuldades para aceitar que precisaria haver uma instituição em seu nome; mesmo assim, foi criada a Ordem Terceira dos Franciscanos.

Morreu em 1226 com 44 anos, estava cego e tinha dores terríveis no corpo. Pressentindo a chegada da “ Irmã Morte” pediu para ficar nu sobre a terra, e antes de morrer, em profundo êxtase, cantou o Cântico das Criaturas ( abaixo), ou para muitos, o Cântico do Irmão Sol.


Atualidade e legado de São Francisco

A figura de São Francisco vive em nós em sua dimensão simbólica ou arquetípica, e a comovente história de sua vida, e sua profunda identificação com as palavras de Jesus Cristo mantém vivo até os dias de hoje, o verdadeiro espírito cristão.

É um símbolo do homem cordial, que nos inspira a prática da tolerância e da compaixão por todas as formas de vida. Tudo e todos foram tocados pela força de seu carisma e pela delicadeza de suas palavras.

São Francisco é reverenciado como o patrono da Itália e em 1987 foi proclamado por João Paulo II como o patrono da Ecologia e do Meio Ambiente, anualmente festejado no dia 4 de outubro.

Construiu com suas próprias mãos a minúscula capela da Porciúncula, que está dentro de uma grande catedral chamada Santa Maria dos Anjos em Assis; o contraponto entre a simplicidade de uma e a riqueza de outra traduzem a grandeza de sua alma e de seu espíritoA ética e a mística franciscana são sinônimos de bondade, simplicidade, gentileza e fraternidade. Não por acaso a importância de seu legado espiritual vem crescendo, uma vez que vem ao encontro das demandas do homem contemporâneo, cada vez mais distanciado da natureza, em busca de uma felicidade equivocada, onde o “ ter” é mais importante do que “ ser”. Se estivesse vivo certamente poderia afirmar aos quatro cantos do planeta que “menos é mais”!


Bilbiografia:

Terapeutas do deserto

De Filon de Alexandria e Francisco de Assis e Graf Dürckheim

Jean-Yves Leloup e Leonardo Boff

Editora Vozes


São Francisco de Assis

Maria Sticco

Editora Vozes



Artigo editado por Luis Pellegrini, em sua revista virtual, OÁSIS, confiram.


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