Vocação e individuação



À nossa volta, na natureza, a vida se revela conforme desígnios internos. Um botão de rosa se abre numa rosa, uma semente de carvalho cresce num carvalho e de uma lagarta em seu casulo emerge uma borboleta. É sem propósito pretender que os seres humanos partilhem essa qualidade com o resto da criação – que nós, também, nos revelamos de acordo com planos interiores.


O conceito de que cada um de nós tem uma ordem primordial de potencialidades ansiando por realização é muito antigo. Santo Agostinho escreveu que “ há alguém dentro de mim que é mais do que eu mesmo”.

Aristóteles usou a palavra intelecto para se referir à evolução e ao completo desabrochar de algo originalmente em estado potencial. Junto com intelecto, Aristóteles também falou de essência como qualidade que não se pode desperdiçar sem deixar de ser si-mesmo.

Da mesma maneira, a filosofia oriental aplica o termo dharma para designar a identidade intrínseca e a latente forma de vida presente em nós todos desde o nascimento. É dharma da mosca zumbir, do leão rugir e de um artista criar. Cada uma destas formas tem sua própria espécie de verdade e de dignidade.

A moderna psicologia atribui diversos nomes à eterna questão de “ ser aquilo que se é realmente” – o processo de individuação, a auto-realização, auto-atualização, autodesenvolvimento, etc. Seja qual for o rótulo que receba, o sentido oculto está claro: todos nós possuímos certos potenciais e capacidades intrínsecas. O que há a mais, em algum lugar dentro de nós, é um conhecimento primordial ou uma percepção pré- consciente de nossa verdadeira natureza, de nosso destino, de nossas habilidades e de nossa assim chamada vida. Não é só aquilo que temos de passar na vida, mas, num nível instintivo, aquilo que sabemos que a vida é.

Nossa realização, felicidade e bem estar dependem de descobrirmos este modelo e de cooperarmos com a sua realização. O filosofo dinamarquês Kiekegaard observou que a forma mais comum de desespero é aquela de não sermos aquilo que realmente somos, acrescentando que uma forma mais profunda de desespero aparece quando se escolhe ser outro que não nós mesmo.s

O psicólogo Rollo May escreveu: “ Quando a pessoa nega suas potencialidades e falha em realizá-las, sua condição é de culpa”.

Teólogos interpretaram o quarto pecado capital, a preguiça ou accidia, como “o pecado de falhar ao fazer de nossa vida aquilo que sabemos que poderíamos fazer dela”.

Mas, como podemos nos ligar com a parte de nós mesmos que sabe o que poderíamos fazer? Como podemos encontrar novamente a senda, quando já perdemos o caminho? Existe algum mapa capaz de nos guiar de volta a nós mesmos?

A Carta astrológica é este mapa. A fotografia do céu, como este se achava no lugar e na hora do nascimento, retrata simbolicamente a nossa única realidade, o nosso modelo inato e nosso desígnio interior. O conhecimento dessa carta nos habilita a perceber aquilo que deveríamos estar fazendo naturalmente, se não tivéssemos sido frustrados pela família, pela sociedade e talvez mais crucialmente, pela ambivalência de nossa própria natureza.
Nossa existência não só é dada a nós, mas cobra de nós, e cabe a nós fazer de nós mesmos aquilo para que fomos destinados.Enfim, só nós mesmos somos responsáveis por quilo que fazemos com a nossa vida, pelo grau com que aceitamos ou rejeitamos nossa verdadeira natureza, seu propósito e sua identidade. A carta natal é o melhor guia que temos para nos levar de volta a nos mesmos. Cada posicionamento da carta revela a maneira mais natural e apropriada para desvendar quem e o que somos.

Por que não ouvir a indicação que a carta tem a nos oferecer?”



Howard Sasportas em “As Doze Casas”


Editora Pensamento, SP




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