O ser o que somos, um passo a mais

Caminho de Santiago de Compostela
Por Jean-Yves Leloup




“Ele só se tornará Jonas se for na direção de si mesmo, ousando dirigir-se para Nínve, ou seja, em direção ao outro. Porque é na relação com o outro que nós nos tornamos quem somos.
É o fato de ter uma tarefa a cumprir que torna cada um de nós insubstituível, dando um sentido `nossa existência Essa não é uma tarefa reservada apenas os grandes sábios e profetas., mas é o que cada ser humano pode realizar em sua existência. Só nos tornamos realmente quem somos se formos na direção do outro.
Não fugir do próprio desenvolvimento e não cair no conformismo patológico- o que chamamos de normose- é o resultado de um processo, de uma escolha cotidiana. O fato de ir além de si mesmo, ir além das próprias possibilidades, não é para se perder, mas para se encontrar.

Abraham Maslow fala do complexo de Jonas como sendo o medo que temos da nossa própria grandeza- o medo do Self. Se conseguirmos atravessar esse medo, se confiarmos nessa energia qe revela em nós o desejo de realização e de plenitude, então nossa missão se cumprirá.
Resta ainda, uma pequena dificuldade a ser vencida: Qual é a imagem que postulamos do Self? Que imagem temos do Absoluto que nos habita?

Normose significa estar estagnado, retido, seja numa imagem, seja num sintoma. A tarefa, então consiste em dar um passo a mais. Recordo a minha definição de espiritualidade, que é a mesma do peregrino de Compostela: dar um passo a mais.
A vida espiritual nem sempre consiste em ter grandes idéias e maravilhosos projetos, e sim, em dar um passo a mais a partir do ponto que nos encontramos. Não temos que nos comparar com ninguém. Para atingir o alvo, cada um precisa percorrer um caminho longo e único. O importante é dar um passo a mais. O ponto em que paramos é o começo do caminho que segue.É esse passo a mais que resgata a vontade da vida, que vem vindo ao nosso encontro.
Temos que escolher entre uma vida perdida e uma vida escolhida e doada. Através do dom de nós mesmos, descobrimos aquilo que nunca vai morrer em nós. Pois a única coisa que nada nem ninguém pode nos tirar é aquilo que já doamos”.

“ A normose pode ser definida como o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir que são aprovados por consenso ou pela maioria em uma determinada sociedade, e que provocam sofrimento, doença e morte. Em outras palavras, é algo patogênico e letal, executado sem que os seus autores e atores tenham consciência de sua natureza patológica. Toda normose é uma forma de alienação”.
Pierre Weil

Do livro: Normose, a patologia da normalidade
Editora Verus




Foto de Alberto e Sílvia Sena, do site Caminhos de Santiago de Compostela

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