Tornar-se amigo do sonho



James Hillman

O sonho é um símbolo em si mesmo, isto é, ele reúne o consciente e o inconsciente, juntando incomensuráveis e opostos.
De um lado está a natureza : conteúdos e processos psíquicos naturais, espontâneos, e objetivos que independem da vontade. De outro lado, a mente:palavras, imagens, sentimentos , padrões e estruturas. Trata-se de uma ordem sem sentido ou de uma desordem estruturada.

Todas as noites o lado inconsciente da psique lança uma ponte.


Todas as manhãs, quando por um momento ainda estamos no sonho, vivemos o símbolo e ficamos imersos nele, unidos em uma realidade existencial, como se tudo estivesse realmente acontecendo naquele momento.



Esse estado, contudo, é difícil de ser mantido. A pressão do dia impulsiona o ego.
O pólo consciente da psique solta o seu lado da ponte. Tropeçamos em nossos sonhos, e com bastante freqüência o fazemos para chutá-los para um canto.

A atitude junguiana em relação ao sonho é muito bem expressa por um termo que eu tomaria emprestado à análise existencial ( os existencialistas tem um jeito todo especial com as palavras e freqüentemente conseguem atingir com simplicidade o que os analistas vêm fazendo há décadas com floreios e curvaturas que podem sugerir emoção de uma grande descoberta).

A expressão é: “tornar-se amigo do sonho”, ou seja, participar dele, entrar em suas imagens e ânimo, querer conhecê-lo melhor, entende-lo, brincar com ele, vivê-lo, carregá-lo, familiarizar-se com ele, enfim, tudo o que se faz com um amigo.
Familiarizando-me com meus sonhos, conheço melhor o meu mundo interior.

Quem vive em mim?

Porque de repente, me afasto assim das coisas?

O que é recorrente e, portanto, vive voltando para permanecer?

São animais, pessoas e lugares, preocupações que me pedem atenção, querendo tornar-me seu conhecido e amigo. Pedem-me para cuidar deles e dar-lhes importância.
Essa familiaridade, depois de algum tempo, produz a sensação de estar à vontade e em casa com uma família interior, o que nada mais é que a vida em comum e a comunidade comigo mesmo, um nível profundo do que também pode ser chamado de “ espírito consangüíneo”.

Em resumo, a conexão interior com o inconsciente conduz novamente a um a senso de alma, a uma experiência de interioridade, um local para onde os significados retornam. `A medida que essas partes e pedaços que antes viviam separados se reúnem, aprofundam e ampliam, aquele lugar habitável e de grande movimentação para a experiência religiosa que começa a formar-se.

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