Feliz Ano Novo

Texto de Reinaldo Azevedo


Tinha como certo que não escreveria nada neste dia 31 além daqueles três textos da madrugada. Mas vocês são mesmo incríveis e me mobilizam. E o que começou como um trabalho - e, bem, é um trabalho - se tornou também um prazer ao qual é difícil, freqüentemente impossível, renunciar.

Caras e caros, estou aqui a lhes desejar um feliz “Feliz Ano Novo”. Acrescento outro adjetivo àquilo que já é uma fórmula, um clichê, uma expressão desgastada, na tentativa de fazer com que a estranheza inicial nos remeta ao sentido original da expressão, recuperando, assim, a sua vitalidade.

Estamos entrando em nosso quarto ano juntos. É só o começo de uma longa trajetória. Como vocês estão cientes, não sei profetizar. Quase nunca conjugo verbos no futuro ou aceno com amanhãs gloriosos. Mesmo quando trato do mistério, o Deus que prodigalizo é aquele que nos fala do milagre da Razão.
Assim, não tenho promessas a fazer, não tenho auroras a vender, não disponho de uma maleta de utilidades de onde tirar futuros sorridentes.

Estou atento à vida, ao ofício do dia-a-dia, a todas as pequenas maravilhas com que nos defrontamos, mas também às mesquinharias. No começo desta madrugada, estava mergulhado no meu Santo Agostinho e suas considerações sobre como podemos nos entristecer do bem divino, e, de repente, ouço um alarido, alguns gritos que misturavam riso e pânico. Eram as filhas. Com o coração na garganta, corri em seu socorro. Uma barata havia decidido participar da festa de encerramento do ano.

Nos segundos em que a persegui, vi correr aquele desengonçado e triste poema de Deus, tão precisa, mas tão inadequada em suas perninhas articuladas, repetindo eternamente a sua milenar escansão. Se eu disser que a vida é feita de asco e delicadezas, não estarei dizendo nada. Porque somos nós a colar esse contraste às coisas; somos nós a ornar com antíteses e outros brocados a realidade na tentativa desesperada de emprestar um sentido à existência.

E é precisamente esta a nossa felicidade e a nossa grande dor (de novo, o contraste): somos carentes de sentido. E isso nos torna a todos dignos de pena, mas também de amor. A barata me driblou, ganhou o jardim e sumiu vegetação adentro, mato adentro, eternidade afora, lá onde outras reiteram uma barata ideal, uma barata ancestral.

Somos tão distintos daquele bicho? As ciências naturais não teriam grande dificuldade em demonstrar que, estruturalmente, há mais semelhanças do que diferenças. Mas só nós carregamos a cruz da consciência. E isso nos torna tão únicos e tão sós.
E, por isso, precisamos tanto do outro, do ombro solidário, do abraço amigo.

Feliz “Feliz Ano Novo”¸ meus queridos!
Leia mais:

2 comentários: