Bolso


“As palavras são enganosas... Palavras são bolsos vazios. À medida que a gente vai vivendo, vai pondo as coisas dentro do bolso. O bolso que tem o nome de “Deus” fica cheio de quinquilharias que catamos pela vida.
Assim quando falamos sobre Deus, não falamos sobre Deus. Falamos é sobre as coisas que guardamos dentro desse bolso. Seu eu respondesse “acredito em Deus” a outra pessoa se enganaria pensando que dentro do meu bolso eu guardo as mesmas coisas que ela guarda no dela. E concluiria mais que sou uma boa pessoa. Mas, se tivesse dito que não acredito em deus, ela concluiria que não sou uma boa pessoa....

“Acreditar no sentido comum que as religiões dão a essa palavra, refere-se a entidades que ninguém jamais viu, tais como anjos, pecados, santos milagres castigos divinos, inferno, céu, purgatório... No meu bolso sagrado, “ acreditar” é palavra que não entra.
Ele está cheio é com palavras que têm a ver com amor, mesmo que o objeto do meu amor não exista. Lembro-me das palavras de Valéry: “ Que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?. Muitas coisas que não existem têm poder...

Eu amo a beleza da natureza, da música, de um poema. Amo a beleza das palavras de amor que os apaixonados trocam. Uma criança adormecida é, para mim, uma revelação, uma ocasião de espanto. Acho que Bachelard adoraria nos mesmos altares que eu: “ A inquietação que temos pela criança” ele escreveu, “ sustenta uma coragem invencível”. Uma criança é um pequeno deus.

Para mim, a beleza é sagrada porque ao experimentá-la, eu me sinto possuído pelo Grande Mistério que nos cerca.

... De Deus só temos a suspeita. A beleza é a sombra de Deus no mundo. Sobre ele- ou ela- deve-se calar – muito embora as religiões sejam por demais tagarelas a seu respeito, havendo mesmo algumas que se acreditam possuidoras do monopólio das palavras certas -a que dão o nome de dogmas.
Estou de acordo com Alberto Caieiro: “ Pensar em Deus é desobedecer à Deus, porque Deus não quis que o conhecêssemos...”
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,sem dúvida que viria falar comigo e entraria pela porta dizendo-me” Aqui estou”!

Eu já nem tenho mais o bolso com nome de ‘Deus”. Esse nome se presta a muitas confusões. Muitos bolsos com estes nomes estão cheios de escorpiões e vinganças.
Amo a sombra de Deus. Mas ele mesmo eu nunca vi. Sou um ser humano limitado. Só sou capaz de amar as coisas que vejo, ouço, abraço, beijo...
Tenho, isso sim, um bolso com o nome “O Grande Mistério”. Mas não sei o que está dentro dele. Por vezes suspeito que é o meu coração.... ".


Livro: Desfiz 75 anos
Autor: Rubem Alves
Editora Papirus

1 comentários:

  • Adelia Ester Maame Zimeo | 24 de janeiro de 2010 16:54

    Lindo texto de meu tão admirado Rubem Alves! O belo de cada um é tudo aquilo que toca e produz uma vibração muito gostosa que nos acaricia internamente. Faz o coração pulsar, emociona e inspira acordes lindíssimos internos que são sentidos por todo o ser. Beijo. Meu Afeto.