Treinar a Mudança
























Bailarinas coreanas

“ É importante sublinhar o fato de que o treinamento para se obter a excelência em qualquer domínio requer uma dose considerável de prática. As abordagens ocidentais não incluem esse esforço persistente e a longo prazo para se fazer mudanças duradouras nos estados ou traços emocionais.
A idéia de treinar a mente não figura entre as preocupações que pressionam o homem moderno, como o trabalho, as atividades culturais, os exercícios físicos e o lazer”.

“ O ensino dos valores humanos é em geral considerado uma incumbência da religião ou da família. A espiritualidade e a vida contemplativa são reduzidas, assim, a meros complementos vitamínicos da alma. Os conhecimentos filosóficos que adquirimos são quase sempre distantes da nossa prática, e cabe ao indivíduo escolher suas próprias regras de vida.



Mas em nossa época, a pseudoliberdade de fazer tudo o que passa pela cabeça e a falta de referências deixa o indivíduo infeliz e desamparado. As considerações abstratas em geral incompreensíveis da filosofia contemporânea, somadas ao ritmo febril da vida cotidiana e a supremacia da diversão e do entretenimento, deixam pouco lugar para a busca de uma fonte de inspiração autêntica quanto à direção que podemos da à nossa vida.



O Dalai Lama enfatiza: “ Gostaríamos que a espiritualidade fosse fácil, rápida e barata”. Ou seja, inexistente.
É o que Chögyam Trungpa denominou de “materialismo espiritual”. Pierre Hadot, especialista em filosofia antiga, sublinha que “ a filosofia não é senão um exercício preparatório para a sabedoria”, e que uma verdadeira escola filosófica corresponde antes de tudo a determinada escolha de vida.

É necessário reconhecer que oferecemos uma resistência fenomenal à mudança. Não falamos apenas da alegria e do vigor com que nossa sociedade adota como tendência as novidades superficiais, mas de uma inércia profunda no que tange a qualquer transformação genuína do nosso modo de ser. A maior parte do tempo não queremos nem ouvir falar da possibilidade de mudar e preferimos tratar com escárnio aqueles que buscam soluções alternativas


Então, porque mudar? Seja você mesmo! Divirta-se bastante, compre um carro novo, mude de ares, consiga uma nova amante, tenha tudo, farte-se de tudo o que é estúpido e supérfluo, mas, acima de tudo, jamais toque no essencial, porque isso exige um trabalho duro, um esforço verdadeiro. Uma atitude como essa seria justificada se estivéssemos satisfeitos com o nosso destino. Mas estamos mesmo? Citando Alain mais uma vez: “ os insanos são mestres no proselitismo e, principalmente , relutam em curar-se”.

Como o ego é recalcitrante e revolta-se cada vez que a sua hegemonia é ameaçada, preferimos proteger esse parasita que nos é tão caro e nos perguntamos que seria da nossa vida sem ele- não ousamos nem pensar! Eis uma lógica do tormento bastante curiosa.

E, no entanto, uma vez que iniciamos o nosso trabalho de introspecção, descobrimos que a transformação não é nem de longe tão dolorosa quanto havíamos imaginado. Ao contrario, tão logo decidimos empreender essa metamorfose interior, mesmo que tenhamos que passar por algumas dificuldades, percebemos neste trabalho uma alegria que faz de cada passo uma nova satisfação.
O sentimento de insegurança dá lugar a uma confiança repleta de alegria de viver, e o egoísmo crônico, a um altruísmo amistoso”.






Do livro: Felicidade



Matthieu Ricard



Palas Athena Editora

2 comentários:

  • Adelia Ester Maame Zimeo | 18 de outubro de 2009 11:56

    Tereza Querida, esta é uma realidade vivenciada pela maioria de nós: a dificuldade de abandonar o conhecido e abraçar o desconhecido. O ego entra fortemente com suas interpretações que nos aprisiona. Mas se nos esforçarmos, apesar de todo medo,darmos o primeiro passo gradativamente fazendo disto um exercício diário, o efeito do ego cede e nos libertamos. Belo post! Ótimo domingo!Beijo. P.S. Grata por atender ao meu pedido. Manda mais!

  • Adelia Ester Maame Zimeo | 18 de outubro de 2009 11:57

    Estas imagens estão lindíssimas! Admiro demais a filosofia oriental de Vida! Beijinhos.