A força ctônica de Plutão










No dia 24 de agosto de 2006 a comunidade dos astrólogos foi surpreendida com a notícia de que a XXVI Assembléia Geral de IAU, International Astronomical Union em seu congresso anual em Praga havia promovido o” rebaixamento” astronômico do planeta Plutão, que a partir daí seria considerado um planeta- anão.Essa desclassificação foi tomada em função de uma série de novos critérios científicos relativos ao peso, medida e órbita dos demais planetas. Questionamentos, dúvidas, ceticismo e até revolta foram as reações mais evidentes; outros deram de ombros, mas não tão indiferentes assim.

O rebaixamento astronômico foi polêmico até entre os próprios cientistas astrônomos. Em março deste ano, 2007, houve um novo consenso estabelecido por uma lei do Estado norte-americano do Novo México que se rebelou contra a determinação da IAU. Não satisfeitos, os astrônomos instituíram o dia 13 de março como sendo o Dia de Plutão em sua legislatura.

Um foco de luz e curiosidade se abriu sobre a validade dos postulados astrológicos , tanto por parte da grande mídia, quanto daqueles que algum uso fazem deles, seja em consultas periódicas, livros, ou auto conhecimento. Enfim, o quê mudou para o astrólogo e para o seu ofício? Nada. Em termos astrológicos a questão é irrelevante, pois o planeta “ desclassificado”, por assim dizer, não o faz ou fez perder nenhuma característica simbólica à ele atribuído. A Astrologia não trabalha com relações de causa e efeito, um critério científico e racionalista, e não considera o tamanho do corpo celeste relevante em sua eficácia simbólica.

A Astrologia em sua essência é uma linguagem simbólica, e como tal diz respeito ao que chamamos de arquétipos, princípios ou idéias estruturantes, inatas ou herdadas na psique humana coletiva. Os símbolos planetários representam diferentes motivações, necessidades e impulsos da natureza humana.

Plutão é o planeta sempre associado aos processos de desconstrução, regeneração, e transformação da vida , para que haja uma nova consciência. Morte e vida lhe dizem respeito assim como o potencial criador e curativo do inconsciente.
Plutão ou Hades na mitologia greco romana era o senhor absoluto dos mundos subterrâneos e inivsíveis. Hades não tinha altares para ser cultuado, e também não poderia ser visto pelos mortais, pois usava um elmo que o tornava invisível. Seu nome quer dizer “ riqueza”, pois ele tem o poder revelar tesouros e talentos ocultos que ficam disponíveis em momentos de dor e devastação da alma humana.

Como dizia Nietzsche: “ Aquilo que não me destrói me fortalece”.

Este livro contém informações preciosas sobre a natureza transpessoal dos planetas que estão além das órbitas de Saturno, que como bem define Dane Rudhyar são os “embaixadores da galáxia”, pois de um lado nos colocam em contato com dimensões mais vastas e profundas da psique, e por outro promovem um nível mais alto de consciência. Urano, Netuno e Plutão são catalisadores de mudanças, que dissolvem padrões mentais e emocionais arraigados que bloqueiam a visão e o desenvolvimento de um individuo.
É necessário dizer também que por outro lado, Plutão e destino andam de mãos dadas e muitas vezes atadas. No plano psicológico, não é raro observarmos como seus trânsitos ou progressões podem desencadear a erupção de complexos ou síndromes plutonianas em que a vontade individual, a escolha e o por fim o arbítrio não tem nenhuma eficácia; há um verdadeira humilhação ou rendição do ego, que leva ou não a uma mudança.James Hillman, analista junguiano escreve a respeito do caráter e destino:

“ Parte daquilo que quero dizer com “ força do caráter” é a persistência das anomalias incorrigíveis, esses traços que não conseguimos consertar, não conseguimos esconder e não conseguimos aceitar. Resoluções, terapia, conversão, o arrependimento do coração na velhice – nada prevalece contra eles, nem mesmo a oração. Resta-nos entender que o caráter é realmente uma força que não pode sucumbir à força de vontade nem pode ser alcançada pela graça. A força de sua s fraquezas zomba de todos os livros de virtudes, cujos esforços para esclarecer são velas acesas ao vento”.

Gosto muito de admirar árvores, em especial as de grande porte. Vejo-as como um símbolo perfeito de força plutônica, unindo céu e a terra, o alto e o baixo, a luz e a escuridão ctônica. Se nos sentássemos embaixo de uma dessas árvores-mães, e pegássemos uma única semente por ela jogada ao chão, poderíamos nos indagar, numa breve reflexão:

De onde vem a seiva que faz brotar e crescer esta bela árvore, cuja generosidade nos dá proteção, sombra, memórias, moradia para inúmeros seres da natureza, além dos frutos e das flores que colorem a paisagem?

De onde vem a água das nascentes que jorram delicadamente para perpetuar a vida?

De onde vem a lava dos furiosos vulcões vomitando e jorrando labaredas de fogo?

De onde vem o petróleo, e outros incontáveis recursos energéticos igualmente invisíveis porque subterrâneos?

Como vamos nos reconciliar com a abundância de Gaia, cuja infinita paciência parece ter se esgotado, porque estamos destruindo-a diária e impunemente? Continuaremos vivos?

Com a palavra, vossa excelência, Plutão.


Tereza Kawall, prefácio do livro Síndromes de Plutão, de Ciça Bueno e Márcia Mattos, ed. Ágora.





1 comentários:

  • Sr do Vale | 15 de abril de 2008 12:51

    Quando os cientistas desclassificaram Plutão da categoria de planeta, eu disse:
    E agora, como ficam os astrólogos e seus mapas?
    Mas vejo através de seu texto, o quanto da simbologia humana, herdada de nossos ancestrais, está cravada em nós. Independente das novas regras que se estabelecem nas "pranchetas" dos astrônomos.

    Parabéns

    Abraços.