OS SÍMBOLOS NÃO MORREM



" Nossa psique está profundamente conturbada pela perda dos valores morais e espirituais. Sofre de desorientação, confusão e medo, porque pées forces" dominantes e que até agora mantiveram em rdem nossa vida. Nossa consciencia já não é capaz de integrar o afluxo natural dos epifenomenos instintivos que sustentam nossa atividade psíquica consciente. Isto já não é possível como antigamente, porque a própria consciencia se privou dos orgãos pelos quais poderiam ser integradas as contribuições auxiliares dos instintos e do inconsciente. Esses orgãos eram os símbolos luminosos, considerados sagrados pelo consenso comum, isto é, pela fé.

Um conceito como matéria física, despido de sua conotação numinosa de " Grande Mãe" já não expressa o forte sentido emocional de " Mãe Terra". É um simples termo intelectual, seco qual pó e totalmente inumano. Da mesma forma, o espírito  identificado com o intelecto cessa de ser o Pai de tudo e degenera para a compreensão limitada das pessoas. E a poderosa quantidade de energia emocional expressa na imagem de "nosso Pai" desaparece nas areias de um deserto intelectual.

Por causa de mentalidade científica, nosso mundo se desumanizou. O homem está isolado no cosmos. Já não está envolvido na natureza e perdeu sua participação emocional nos acontecimentos naturais que até então tinham um sentido simbólico para ele. O trovão já não é a voz de Deus nem o raio seu projétil vingador. Nenhum rio contém qualquer espírito, nenhuma árvore significa uma vida humana, nenhuma cobra incorpora a sabedoria e nenhuma montanha é ainda habitada por um grande demonio. Também as coisas já não falam conosco, nem nós com elas, como as pedras, fontes, plantas e animais. Já não temos uma alma da selva que nos identifica com algum animal selvagem. Nossa comunicação direta com a natureza desapareceu no inconsciente, junto com a fantástica energia emocional a ela ligada.



Esta perda enorme é compensada pelos símbolos de nossos sonhos. Eles trazem novamente à tona nossa natureza primitiva com seus instintos e modos próprios de pensar. Infelizmente, poderíamos dizer, expressam seus conteudos na linguagem da natureza que nos parece estranha e incompreensível. Isto nos coloca a tarefa incomum de traduzir seu vocabulário para os conceitos e categorias racionais e compreensíveis de nossa linguagem atual que conseguiu libertar-se de sua escória primitiva, isto é, de sua participação mística com as coisas. Falar de espíritos e de outas figuras numinosas já não significa invocá-los. Já não acreditamos em fórmulas mágicas. Já não restaram muitos tabus e restrições semelhantes. Nosso mundo parece ter sido desinfetado de todos esses numes " supersticiosos" como " bruxas, feiticeiros e duendes" para não falar de lobisomens, vampiros, almas da floresta e de outras entidades estranhas e bizarras que povoam as matas virgens".


OC, 18/1 cap 67 paragrafos 583 a 586

do livro:Espiritualidade e Transcendência

Carl Gustav Jung

Seleção e edição de Brigitte Dorst