OS ANIMAIS E A PSIQUE HUMANA


Cecil, the Lion

Por Tereza Kawall

Na ultima semana, os meios de comunicação chocaram milhares de pessoas no mundo todo, com a trágica notícia da morte cruel e premeditada do leão Cecil.

Cecil era o leão símbolo da reserva ambiental de Hwange, no Zimbábue, ao sul da África. Esse felino chamava a atenção por sua beleza e imponência, por sua bela juba escura. Era muito querido e assediado por visitantes e fotógrafos encantados com sua majestosa presença. Todos sabem que ao longo dos séculos milhares de animais selvagens foram abatidos de forma estúpida, inútil e chocante. Por que essa morte teria causado uma reação tão forte nos quatro cantos do planeta?

Nas redes sociais, com o devido espaço para as críticas de toda ordem, os comentários eram variadíssimos. Exceto a indignação e revolta com o fato em si, que nem é uma novidade, muitos faziam outros questionamentos igualmente relevantes: Porque tanta preocupação com a morte de um leão, quando milhares de crianças e mulheres morrem diariamente em guerras e genocídios? E os jovens assassinados precocemente nas guerrilhas do tráfico das grandes cidades? Ou seja, humanos são menos importantes que esses animais? E por quê?

O assunto é espinhoso e ao mexer com nossas emoções ajuda também a promover bons debates e reflexões. É importante lembrar que os animais são para nós representações internas, e neles nós projetamos diferentes aspectos da nossa psique, ou seja, da nossa alma. Sejam eles a nossa feiúra ou beleza, arrogância ou humildade, nossa sombra ou altivez, nossa coragem ou covardia, nossos temores e desejos mais íntimos.

Não é por acaso que nas antigas tradições de inúmeras culturas ( China, India, Grécia) estão sempre presentes as imagens de animais. No Zodíaco ( zoo=animais) encontramos essas imagens arquetípicas, primordiais, vale dizer, comuns a toda a humanidade. O zodíaco era considerado pelos antigos como sendo a “ alma da natureza”, e lá já estavam todos eles: o touro, o carneiro, o escorpião, o leão, o caranguejo, os peixes.

O Xamanismo, por sua vez, é uma concepção religiosa que confere ao xamã entrar em contato com o mundo espiritual. A ele são atribuídos os poderes de magia, cura e profecia. Os animais têm grande relevância no xamanismo, pois o indivíduo deve descobrir seu animal guardião e protetor. Este é e seu animal de poder, que poderá ser o lobo, o urso, o leão o golfinho, o tigre, o lagarto, a cobra, a coruja, entre outros.

No Tarot, temos a carta “ A Força”, em que vemos um leão e uma donzela. Nesse contexto, o leão é o símbolo das paixões, dos instintos, da uma força brutal e voraz, representando também a força vital psíquica, a fertilidade e a renovação da vida. Nas narrativas mitológicas o grande feito heróico será dominar o fogo da passionalidade.

Em nossa vida cotidiana, somos afetados pela imagem ou sensação que um animal provoca em nós, seja ele uma ave, um réptil rastejante, um mamífero, um inseto. Quem não se impressiona com a majestade de um grande e imponente felino? Com a maravilha multicolorida das penas de um pavão? Com os olhos e garras afiadas de uma águia em pleno vôo na busca por sua presa? Ou com o balé aquático dos golfinhos, em sua simpatia e inteligência irresistíveis? Fotos e documentários sobre a vida animal são hoje uma atividade econômica em forte expansão pelo planeta afora. Nossas redes sociais estão cheias de fotos de periquitos, gatos e cachorros que divertem nossos olhares e corações.

Os movimentos de preservação da vida animal e da qualidade ambiental crescem como nunca. No microcosmo, nosso instinto de sobrevivência é posto a prova diariamente, com a violência das grandes cidades; o predador pode estar na próxima esquina. No macrocosmo também somos ameaçados. Somos feridos e aviltados quando florestas, sagrados santuários que abrigam inúmeras espécies de vida, tombam ao chão. Somos feridos quando rios antes sinuosos e belos se transformam em desérticos bancos de areia. Quando nossos oceanos não mais podem respirar em função do lixo nele jogado impunemente.

Somos agredidos e atingidos em nossa dignidade quando chegam as notícias que expressam a um só tempo: arrogância, mentira, ganância sem fim, corrupção e o apego doentio ao poder. Ficamos impotentes, temerosos em relação ao futuro. Sim, nossa indignação é ampla e generalizada.

No entanto, é importante ressaltar que ela é também decorrente de uma CONSCIENCIA cada vez mais profunda e irreversível em relação ao mundo em que vivemos, pois existe uma percepção muito mais clara de que tudo está interligado.Esse movimento interno e externo está “constelado” na psique coletiva, no Inconsciente coletivo, e exatamente por isso, exprime tão intensamente aquilo que vive e pulsa em todos nós.

A Psicologia Analítica nos permite contemplar esse rico simbolismo do mundo animal a partir de um olhar de inclusão e de totalidade. Somos a somatória de sombra e luz, de instinto e reflexão.

(*)“ Deste modo, a relação do homem com o mundo animal é um reflexo da relação entre sua consciência e seus instintos..

“ A passagem de uma atitude predatória para uma visão conservacionista coincide com a pergunta: qual o lugar dos animais na vida humana e planetária? A figura do caçador, antes valorizada, hoje vem sendo condenada. Deixou de ser sinal de poder e prestígio ter troféus de caça e roupas de pele. Essa mudança pode estar levando a uma harmonização entre os mundo animal e humano, oposta à necessidade anterior de destruir o animal como forma de repressão ao instinto. Uma postura de humildade e respeito diante dos animais passou a ser essencial para a própria sobrevivência do nosso planeta”.

O outro, diferente de mim, porque animal, é igual a mim. Como eu, ele necessita de alimento, segurança, amor, para então crescer e procriar.

Cecil não era só um leão, era o símbolo vivo daquela reserva natural que por sua vez tão bem representa a força selvagem e a beleza do continente africano. Sim, somos feridos em nossa dignidade e arbítrio quando um símbolo tão significativo se vai de forma tão vergonhosa e covarde.

Cecil, o nosso “ Rei das selvas”, o “Lion King” tão bem documentado pelos estúdios de Walt Disney, tinha sua família e o dever de zelar por ela. Nós, como Cecil também queremos viver uma vida justa e plena. E porque não?

Os animais vivem em nossos “files” mais arcaicos, são e carregam as nossas memórias afetivas, convivem e conviverão conosco até o final dos tempos. Não existe meio ambiente, mas sim ambiente inteiro, disse Leonardo Boff.

Já passou muito da hora de aprendermos a conviver mais pacificamente com nossos irmãos do ar, do céu, do fogo e da água. Flores, árvores, abelhas, gatos, borboletas, conchas minhocas, répteis, cristais, pedras, pássaros.... todos vivem e são como nós. Mundo e indivíduo são uma coisa só.

Todas as espécies aqui viventes fazem parte de uma tessitura sagrada, interdependente e interligada. As premissas ecológicas ou ambientais abraçam os mesmos princípios.

Tudo está em profunda e indissolúvel comunhão e conexão.

Cecil, nos dê o seu perdão.



(*) Texto do livro: Os animais e a psique

Autoras: Denise G. Ramos, M. do Carmo De Biase, M. Helena M. Balthazar, M Luiza Piva Rodrigues, Neusa M Lopes Sauaia, Roseli R. Sayegh, Stella M. T Cerquinho Malta.


Summus Editorial, SP.