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GERAÇÃO CANGURU




Por Tereza Kawall (*)

Nosso artigo tem como objetivo analisar e compreender o fenômeno da chamada “geração canguru”, que vem aumentando gradativamente no Brasil, notadamente na região sudeste , nas famílias de alta renda e na Europa desenvolvida ( MEC).
 Em 2013, foi publicado pelo IBGE estudo e apontando para essa tendência de comportamento em que jovens na faixa etária entre 25 a 34 anos relutam em sair da casa de seus pais. A combinação de vários fatores marca esta tendência do adiamento da saída de casa por parte dos jovens e de seus pais que “ carregam” seus filhos por mais tempo, graças ao aumento de renda e novos padrões familiares. Em 2000, 20% dos jovens viviam com seus pais, e em 2012 esse percentual subiu para 24%, sendo que 60% deles são homens. 

Diz Wasmalia Bivar, presidente do IBGE: “ A geração canguru é um fenômeno mundial, não necessariamente por falta de condição dos filhos saírem de casa, mas por escolha. Preferem fazer graduação, mestrado ou doutorado na casa dos pais, retardam a formação de uma nova família e também buscam mais comodidade. 

Aquilo que seria o movimento natural do jovem, ou seja alçar seu vôo, rumo a auto realização para conquistar seu espaço e autonomia vem perdendo força e postergado “ ad infinitum”. Parte destes jovens já estão formados, têm seu próprio negócio. Outros já estão empregados, alguns esperam o momento oportuno ou a pessoa certa para o casamento, e assim ter a sua própria casa. Outros se encontram sem perspectiva favoráveis de trabalho. 
As combinações desse xadrez de possibilidades são inúmeras. Mas há em todos os casos um fator comum: a resistência em perder a proteção e a segurança do “ lar doce lar”. Embalados por facilidades, conforto, proteção financeira ou emocional, esta geração parece não estar disposta a enfrentar e assumir riscos e responsabilidades da vida adulta. 

Como sabemos, na vida real não há um “ script” ou roteiro plano e linear, sem desvios ou irretocável. Cada individuo fará a sua rota de forma particular, de acordo com a sua natureza, recursos internos e externos, com suas motivações pessoais ou a falta delas. Mas é inegável que existem fases e ciclos que são mais adequados ou indicados para certas atividades ou funções a serem exercidas, sejam elas a procriação, intelectuais,sentimentais, criativas, profissionais, ou espirituais.
 Não por acaso, nossa existência é toda marcada por ciclos. Queiramos ou não, tudo o que nasce, cresce, se desenvolve, decai e terá o seu fim. Afinal, o que esta síndrome está sinalizando em nosso contemporâneo e caótico?

 Desenvolvimento e emancipação

 Desde a mais tenra idade, o bebê já nasce em busca de um seio, pois o instinto de sobrevivência ali está, intacto e pulsante. A criança, em seus primeiros anos de vida, tem pela frente uma crucial tarefa rumo a sua independência, que será gerenciada, com mais ou menos sucesso, pela mãe ou pela família. Neste processo todo, ela lentamente aprenderá a movimentar-se, utilizar os cinco sentidos, sentar, falar, andar, pensar, sentir, abandonar a sua amada chupeta, assim como as suas fraldas. 
Cito D. Winnicott, psicanalista e pediatra britânico, que se destacou por analisar profundamente a relação entre as mães e seus bebês. 
Baseando-se me suas observações, ele estabeleceu algumas premissas básicas a respeito do primeiro ano de vida do bebe, e quais as implicações destas para a sua saúde mental e física. A pedra angular de sua teoria afirma que o desenvolvimento da conquista da autonomia é central nesta fase, pois o bebe gradualmente deve sair da fase de dependência absoluta para a fase de dependência relativa.
 Ressalta que eles nascem com um potencial da força vital e que esta é a base da criatividade que irá acompanhá-lo ou não no transcorrer da vida. Winnicott cunhou a conhecida expressão da “ mãe suficientemente boa” para aquela que consegue suprir, de forma adequada, as necessidades básicas de seu filho. 
Para cada etapa vencida, uma nova se prenuncia em seu horizonte vivencial. E assim, acontece a caminhada de cada ser, o reconhecimento e a interação com os pais, irmãos, vizinhos, com a escola, os amigos, os dramas da adolescência, a magia do primeiro amor.... quem não se lembra? Estas experiências são de um lado individuais, dada a sua natureza idiossincrática e particular de cada um, ao mesmo tempo, são universais, pois pertencem a toda espécie humana, sendo, portanto, arquetípicas.

 Rituais de passagem 

Desde tempos remotos, a mitologia de inúmeras culturas nos fala dos heróis e suas jornadas exuberantes de confronto e superação rumo ao encontro deles mesmos. Eles sempre nos fazem lembrar os dragões, feiticeiras e florestas que estão em nosso caminho. Simbolizam nossos sofrimentos, alegrias, crises, perdas e ganhos do contínuo subir e descer, morrer e renascer da existência. Este belo e contraditório processo só termina no final da vida, final este temido e evitado pela maioria de todos nós. 

Ao longo da vida vamos encontrar fases de transição de um estágio para outro, situações essas chamadas de rituais de passagem.
 De forma bastante simplificada dizemos que o nascimento em si, já faz parte deste processo. Ao ser retirado do ventre da mãe, o bebe perde o conforto, o silencio e a proteção materna; sentirá a dor física, o calor, o frio e a fome que antes não existiam. 

Assim, deixar a casa dos pais também é um ritual de passagem, a separação da origem, da matriz psíquica, daquilo que é familiar e conhecido. Período fundamental para que se possa avaliar as próprias idéias, valores, necessidades e os potenciais ainda latentes. Essa experiência, como muitas outras, poderá ser tanto dolorosa quanto gratificante, mas sem dúvida, a dor da partida torna-se maior quando os pais não encorajam essa transição. Para eles, já em fase madura da vida, poderá ser um momento de avaliação de suas próprias histórias, pois êxitos e sucessos também podem estar sendo contabilizados . 

Assim, a postergação desta saída, pode correr o risco de fixar as duas gerações numa espécie de adolescência eterna, o que não é psicologicamente recomendável.
 Para os pais, esse momento é conhecido como a “ síndrome do ninho vazio”. 

Diz a psicanalista Marcia Neder sobre este a “ mãe desnecessária” que deverá substituir a mãe protetora: 
“ Ser desnecessária” é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos, como uma droga, a ponto de eles não conseguirem ser autônomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar seu rumo, fazer suas escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros também. A cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o cordão umbilical. A cada nova fase, uma nova perda é um novo ganho, para os dois lados, mãe e filho. Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida. Até o dia em que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o ciclo. O que eles precisam é ter certeza que estamos lá firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso com o peito aberto para o aconchego, para o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis....” 

Fatores de proteção e dependência 

Há muitos fatores que contribuem para que esse “ninho” permaneça sempre cheio. É preciso lançar um olhar que inclua as dimensões sociais, econômicas e psicológicas deste fenômeno. Do ponto de vista cultural, famílias de diferentes países do mundo têm a sua forma especifica de interação, e essa influencia é sempre marcante no destino de seus filhos. Do ponto de vista do jovem, inegavelmente, as facilidades financeiras são um bom motivo para essa situação. Eles se beneficiam de maior poder de consumo, pois sobrará dinheiro em suas mãos para gastar com baladas, viagens, carros, celulares, etc. A tentação de consumo fácil e a proteção familiar são praticamente imbatíveis. 
Por outro lado, esta geração parece encontrar um mercado de trabalho mais volátil e competitivo, onde a rotatividade é vista com bons olhos. No entanto, é preciso ter muita garra, autonomia e criatividade para avançar na carreira. 
Estaria ela sem condições de enfrentamento? Ou as circunstancias familiares se encarregam de embotar justamente a força e a ousadia típicas desta fase da vida? O mundo virtual exerce um fascínio sobre o jovem facilitando a interação social, mobilidade, rapidez, o prazer da informação instantânea. Essa aceleração do ritmo externo das coisas pode ter conseqüências no mundo interno, subjetivo. 
O imediatismo e a incapacidade de lidar com a frustração aumentam, na mesma proporção, a ansiedade e compulsões variadas. Há uma crise existencial evidente nesta geração.
As questões econômicas em todo o planeta se sobrepõem às questões ambientais , e portanto a sobrevivência da espécie humana. 
Há um vácuo de lideranças, crise de credibilidade no mundo político sem precedentes. Acreditar em quem? Votar para quê? Muito mais fácil focar só no presente e no prazer imediato que a alienação e os cinco sentidos podem proporcionar.

 E quanto aos pais, quais os motivos para manterem essa situação? Alguns de valem de sua própria história, ao afirmar: “ Eu tive que dar a cara para bater muito cedo, e não quero que meu filho passe por isso”. Ou “ hoje a vida está mais difícil, é melhor que ele se prepare mais, etc”. 
Estar mais próximo do convívio dos filhos estaria garantindo aos pais a sensação de juventude e beleza que eles já perderam em função da passagem do tempo? Na nossa cultura narcisista, os limites impostos pelo tempo não são bem-vindos; daí essa preocupação com aparência e vaidade excessiva que não aceitam as rugas, as doenças, gerando depressão, consumo excessivo, excesso de álcool, como formas de compensar esses vazios da alma? Assim, observamos que de ambos os lados, entre pais e filhos, há uma aliança bilateral, e possivelmente perversa, que a um primeiro olhar parece amor, mas que no limite, e por excessos, pode causar desmotivação, procrastinação e paralisia. 

É uma proteção que desprotege, um freio invisível que não prepara psicologicamente o individuo para o enfrentamento e a superação de conflitos, privações e perdas inevitáveis da vida. 

(*) Publicado na revista VORTEX MUNDI, sob direção de Lus Pellegrini.