Quem é dono do Ar ?

Texto de Roberto Gambini





"Jung foi uma inspiração, um punhado de sementes espargidas por um forte vento sobre a vastidão do pensamento racional.



Jung foi antes de mais nada uma atitude. Jung colocou a faceta que faltava no prisma da consciência. Seu legado, o conjunto de suas propostas e formulações, não é uma teoria timbrada com as insígnias da marca registrada. Pelo contrário: suas hipóteses de trabalho e suas descobertas foram uma dádiva para a cultura, foram sua resposta pessoal aos paradoxos da realidade, às incertezas do conhecimento e à dor e beleza da vida.



Para sintetizar, eu diria, numa frase, que a quintessência de sua contribuição foi a propositura de um modo de ser e de pensar: aquilo que costuma ser chamado de "eu", " mundo exterior" ou "realidade" vai muito além do que percebe o olho.



O convite foi feito para quem quisesse aceitá-lo:tentar pôr em prática uma observação cuidadosa, constante e progressiva das manifestações do inconsciente em todos os níveisda experiência, em cada ato de apreensão do sentido da existência.


"Inconsciente", para ele, não é apenas aquela parte de minha biografia ou da sua que conhecemos mal, mas aquela parcela da realidade que não é levada em conta simplesmente porque não pode ser diretamente observada, mensurada, descrita ou conceituada.



Jung sabia que o desconhecido existe e a tarefa de sua vida consistiu em inventar ou descobrir modos e ferramentas para abordar o inabordável, cunhar termos para referir-se ao transcendente e abrir espaço para o não-manifesto no terreno da experiência - no seu caso, as áreas menos iluminadas da psique.


Inspiração é ar.


E como sabe qualquer nativo das Américas desde tempos imemoriais, ninguém é dono do ar, ninguém é dono do vento, ninguém é dono da luz do sol.Esses bens estão fora do comércio humano, não se pode vendê-los nem comprá-los.


Uma idéia doada à coletividade não é propriedade privada de ninguém. Até mesmo os copyrights um dia expiram.


A fina camada de pigmento que recobre o teto da Capela Sistina pode ser propriedade do Vaticano, mas não nossa emoção ao contemplar as estupendas imagens criadas pelas têmpera.


Observar o inconsciente é uma atitude, uma inclinação, um gosto pessoal, uma escolha, um ofício,uma vocação: é gratuito, como observar o vôo dos pássaros ou a dança das estrelas.


O olhar junguiano busca o outro lado da lua. Procura não tanto a face por detrás da máscara,mas o que se oculta atrás da própria face.


Jung quis chegar ao limite possível de nosso conhecimento acerca do mistério da morte e da origem da vida; ele acompanhou palmo a palmo o fio de seda que une o físico e o psíquico e procurou perceber a unidade subjacente à diversidade e à dualidade.


Jung sempre tentou atingir o útero, a matriz de onde se originou a consciência; ele quis conhecer o molde primário das formas-pensamento, a ligação entre imagem e ação, e elo sutil entre a cultura e a alma".


Extraído do livro: A Voz e o Tempo- reflexões para jovens terapeutas

Ateliê Editorial, SP.







































" A nossa vida é desperdiçada em detalhes.... Simplifique, simplifique", escreveu o pensador americando David Henry Thoreau.

Renuncia envolve simplificar os nossos atos, a nossa fala e nossos pensamentos para livrar-se do supérf Simplificar as nossas atividades não significa mergulhar na preguiça, mas adquirir uma liberdade cada vez maior e combater o aspecto mais sútil da inércia - o impulso que nos leva a, mesmo sabendo o que realmente conta na vida, preferir nos envolver em mil atividades secundárias e triviais, uma após a outra

Simplificar a fala significa diminuir o fluxo de palavras inúteis que saem de nossa boca. É acima de tudo, abster-se de dirigir aos outros observações negativas ou danosas, de lançar flechas que atingem o coração alheio.

As conversações comuns, lamentava o eremita Patrul Rinpoche, são " ecos dos ecos".


Não se trata de isolar-se em um silêncio arredio e desdenhoso, mas de tomar consciência do que é uma fala adequada e o que representa o valor do tempo.



A fala adequada evita as mentiras egoístas, as palavras cruéis e as fofocas, cujo único efeito é nos distrair e semear a discórdia.

É sempre adaptada às circunstancias, suave ou firme conforme a necessidade, e provém de uma mente controlada e altruísta.


Ter uma mente simples não é o mesmo que ser simplório. Ao contrário, a simplicidade mental é acompanhada pela lucidez e pela clareza do pensamento. Como a água limpa e transparente, que nos permite ver até o fundo do lago, a simplicidade permite ver a natureza da mente por trás do véu dos pensamentos errantes.



André Comte-Sponville encontrou um modo inspirador de descreve-la:

" A pessoa simples vice da mesma maneira que respira, sem grandes esforços ou glórias, sem grandes afetações e sem vergonha.... A simplicidade não é uma virtude que se deve adicionar à existência. É a existência em si, desque nada lhe seja adicionado....Sem outra riqueza que tudo. Sem outro tesouro que nada.


A simplicidade é liberdade, leveza, alegria, transparência.



Tão simples quanto o o ar, tão leve como o ar....

A pessoa simples não se leva demasiadamente a sério, nem faz de qualquer coisa uma tragédia. ela segue o seu caminho sde bom humor, com o coração leve, a alma em paz, sem um objetivo, sem nostalgia, sem impaciência.

O mundo é o seu reino, e isso lhe basta.

O presente é a sua eternidade, e a pessoa se delicia com ela.
Não precisa provar nada, já que não precisa manter as aparencias, e não busca nada, já que tudo está diante de si.


Há algo mais simples do que a simplicidade?Mais leve?

A simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos".(*)


(*) Pequeno tratado das grandes virtudes.

Editora Martins Fontes


Extraído do livro

Felicidade, a prática do bem estar.

Autor: Mathhieu Ricard

Editora Palas Athena, SP

Tornar-se amigo do sonho



James Hillman

O sonho é um símbolo em si mesmo, isto é, ele reúne o consciente e o inconsciente, juntando incomensuráveis e opostos.
De um lado está a natureza : conteúdos e processos psíquicos naturais, espontâneos, e objetivos que independem da vontade. De outro lado, a mente:palavras, imagens, sentimentos , padrões e estruturas. Trata-se de uma ordem sem sentido ou de uma desordem estruturada.

Todas as noites o lado inconsciente da psique lança uma ponte.


Todas as manhãs, quando por um momento ainda estamos no sonho, vivemos o símbolo e ficamos imersos nele, unidos em uma realidade existencial, como se tudo estivesse realmente acontecendo naquele momento.



Esse estado, contudo, é difícil de ser mantido. A pressão do dia impulsiona o ego.
O pólo consciente da psique solta o seu lado da ponte. Tropeçamos em nossos sonhos, e com bastante freqüência o fazemos para chutá-los para um canto.

A atitude junguiana em relação ao sonho é muito bem expressa por um termo que eu tomaria emprestado à análise existencial ( os existencialistas tem um jeito todo especial com as palavras e freqüentemente conseguem atingir com simplicidade o que os analistas vêm fazendo há décadas com floreios e curvaturas que podem sugerir emoção de uma grande descoberta).

A expressão é: “tornar-se amigo do sonho”, ou seja, participar dele, entrar em suas imagens e ânimo, querer conhecê-lo melhor, entende-lo, brincar com ele, vivê-lo, carregá-lo, familiarizar-se com ele, enfim, tudo o que se faz com um amigo.
Familiarizando-me com meus sonhos, conheço melhor o meu mundo interior.

Quem vive em mim?

Porque de repente, me afasto assim das coisas?

O que é recorrente e, portanto, vive voltando para permanecer?

São animais, pessoas e lugares, preocupações que me pedem atenção, querendo tornar-me seu conhecido e amigo. Pedem-me para cuidar deles e dar-lhes importância.
Essa familiaridade, depois de algum tempo, produz a sensação de estar à vontade e em casa com uma família interior, o que nada mais é que a vida em comum e a comunidade comigo mesmo, um nível profundo do que também pode ser chamado de “ espírito consangüíneo”.

Em resumo, a conexão interior com o inconsciente conduz novamente a um a senso de alma, a uma experiência de interioridade, um local para onde os significados retornam. `A medida que essas partes e pedaços que antes viviam separados se reúnem, aprofundam e ampliam, aquele lugar habitável e de grande movimentação para a experiência religiosa que começa a formar-se.
Roda do Dharma Budista em Lhasa, capital do Tibet.















Por Sogyal Rinpoche



"A qualidade de vida no reino dos deuses pode parecer superior à nossa, mas os mestres nos dizem que a vida humana é infinitamente mais valiosa. Por quê? Devido ao preciso fato de que dispomos de consciência e inteligência, que são a matéria-prima da iluminação, e, porque o real sofrimento que permeia este reino humano é em si a espora da transformação espiritual.

Dor, aflição, perda incessante frustração de todo o tipo acontecem com um propósito real e dramático: despertar-nos, tornar-nos capazes e quase forçar-nos a romper o ciclo do samsara e assim libertar nosso esplendor aprisionado.

Todas as tradições espirituais enfatizaram que esta vida humana é única, e tem um potencial que geralmente não conseguimos nem mesmo começar a imaginar. Se perdermos a oportunidade que esta vida oferece de nos transformarmos, dizem os mestres, pode muito bem ser que passe um longo tempo antes que tenhamos outra.

Imagine uma tartaruga cega vagando nas profundezas de um oceano do tamanho do universo. Na superfície bóia uma argola de madeira, levada para lá e para cá ao sabor das ondas. A cada cem anos a tartaruga emerge uma vez na superfície.

Nascer como um ser humano, dizem os budistas, é mais difícil do que esta tartaruga vir à tona e ao acaso enfiar o seu pescoço na argola de madeira.
E mesmo dentre aqueles que têm um nascimento humano, segundo se diz, os que têm a felicidade de se ligarem aos ensinamentos são raros; e os que de fato levam os ensinamentos ao coração e os incorporam em suas ações são ainda mais raros.

Tão raros na verdade, como “ estrelas em plena luz do dia”.



Extraído do livro: O livro tibetano do viver e do morrer


Editora Talento