O MAL NA NATUREZA HUMANA



"Se entendemos então que o mal habita a natureza humana independentemente de nossa vontade e que ele não pode ser evitado, o mal entra na cena psicológica como o lado oposto e inevitável do bem.
Essa compreensão nos leva de imediato ao dualismo que, de maneira inconsciente, se encontra prefigurado na cisão política do mundo e na dissociação do homem moderno. O dualismo não advém da compreensão. Nós é que nos encontramos diante de um estado dissociado. Todavia, seria extremamente difícil pensar que teríamos que assumir pessoalmente esta culpa.
 Assim, preferimos localizar o mal em alguns criminosos isolados ou em um grupo, lavando as próprias mãos, e ignorando a propensão geral para o mal. A inocência, porém, a longo prazo não será capaz de se manter porque, como nos mostra a experiência, a origem do mal está no próprio homem e não constitui um princípio metafísico como supõe a visão cristã. Esta visão possui a vantagem de retirar esta dura responsabilidade da consciência moral humana, descolando-a para o diabo a partir do justo entendimento que o homem é bem mais uma vítima da sua constituição psíquica do que o seu voluntário criador. 
Considerando que o mal em nossa época lança tudo que já atormentou a humanidade num mar de sombras, torna-se, de fato, necessário levantar a questão de sua origem e seu modo de ser na medida em que, mesmo nos progressos mais benéficos feitos pela aplicação do poder legal, da medicina e da técnica, os homens se valem de instrumentos de destruição impressionantes, capazes de culminar de uma hora para outra na sua destruição total."
Carl Jung, Presente e Futuro, pp.573, pág. 45. Editora Vozes, Petrópolis - RJ, 1988.

Oráculo de Apolo e a pitonisa



Templo de Apolo em Delfos, Grécia

O modo pelo qual funcionava o oráculo de Apolo e de onde vinham os conselhos que dava, é um assunto fascinante. Infelizmente pouco se sabe a respeito. O santuário era secreto; os que o dirigiam e davam conselhos guardavam segredos sobre seus métodos. Platão conta que a pitonisa, porta-voz de Apolo no templo, era possuída por uma “ loucura profética”.
Dessa ‘“loucura” emergia alguma “ inspiração criativa”, segundo Platão, que representava níveis de consciência mais profundos do que os normais. “ À sua loucura” escreve no Fedro, “ devemos os muitos serviços que a pitonisa de Delfos e as sacerdotisas de Dodona prestaram à pessoas e aos Estados da Grécia, pois quando estavam completamente conscientes pouco ou nada faziam”. É a interpretação de um dos aspectos da controvérsia sobre a inspiração – até que ponto a criatividade vem da loucura?

Apolo falava na primeira pessoa, através da pitonisa. A voz desta alterava-se, tornava-se áspera, gutural e trêmula como a dos médiuns modernos. Diziam que o deus entrava no corpo da pitonisa no momento do ataquem ou do entusiasmo, como sugere literalmente a origem da palavra, em-theo (“ em deus”).

 ....O que realmente nos interessa é a função do santuário como um símbolo comunal, que tinha o poder de trazer à tona o pré-consciente e o inconsciente coletivo. O aspecto comunal, coletivo de Delfos tinha bases sólidas: o templo foi, a principio, dedicado às deusas da terra, e só mais tarde a Apolo. É coletivo também no sentido de que Dionísio, o oposto de Apolo, tinha grande influência em Delfos.
.. Qualquer símbolo genuíno, acompanhado do respectivo rito cerimonial, torna-se o reflexo das inspirações, das novas possibilidades, da nova sabedoria e de outros fenômenos psicológicos e espirituais, que não nos atrevemos a experimentar por nós mesmos..

De que modo eram interpretados os conselhos das sacerdotisas? É o mesmo que indagar de que modo se interpreta um símbolo. As previsões da pítia eram sempre expressas em linguagem poética, “ com exclamações arrebatadas e onomatopaicas, misturadas à linguagem comum, e essa matéria prima tinha de ser interpretada e organizada”. Como as informações mediúnicas de todos os tempos, eram suficientemente enigmáticas não só para permitir, como para necessitar interpretação. E sempre eram suscetíveis de duas ou mais interpretações diferentes...

                                                                                 A orientação de Delfos não era conselho no sentido rigoroso da palavra, e sim um estímulo para que o indivíduo e o grupo se analisassem, consultando a sua própria intuição e sabedoria. Os oráculos colocavam o problema sob um novo ponto de vista, num novo contexto onde possibilidades ainda não imaginadas se tornavam evidentes. É um erro pensar que esses oráculos, bem como a psicologia moderna, façam com que o indivíduo se torne mais passivo. Isso significaria erro terapêutico e interpretação falsa dos objetivos do oráculo. Fazem exatamente o contrário; levam o individuo a reconhecer as suas possibilidades, trazendo à luz novos aspectos de si mesmos e do seu relacionamento com os outros. Esse processo abre as portas da criatividade. Faz com que o indivíduo  se volte para os seus mananciais criativos”.

Rollo May em: A coragem de criar – Editora Nova Fronteira.

ATUALIDADE DE CARL G. JUNG


Por Jung no ano de 1916, ainda tão atual
"..Nada mais apropriado do que os processos psicológicos que acompanham a guerra atual — notadamente a anarquização inacreditável dos critérios em geral, as difamações recíprocas, os surtos imprevisíveis de vandalismo e destruição, a maré indizível de mentiras e a incapacidade do homem de deter o demônio sanguinário para obrigar o homem que pensa a encarar o problema do inconsciente caótico e agitado, debaixo do mundo ordenado da consciência.
 Esta Guerra Mundial mostra implacavelmente que o homem civilizado ainda é um bárbaro.
Ao mesmo tempo, prova que um açoite de ferro está à espera, caso ainda se tenha a veleidade de responsabilizar o vizinho pelos seus próprios defeitos. A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá.
Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo. Em tempo algum, meditar sobre si mesmo foi uma necessidade tão imperiosa e a única coisa certa, como nesta catastrófica época contemporânea.
Mas quem se questiona a si mesmo depara invariavelmente com as barreiras do inconsciente, que contém justamente aquilo que mais importa conhecer."
Carl Gustav Jung, durante a Primeira Guerra Mundial.
Küsnacht—Zurich, dezembro de 1916, 


BERT HELLINGER: A VIDA

                                                                        
“A vida” por Bert Hellinger

“A vida decepciona-o para você parar de viver com ilusões e ver a realidade.
A vida destrói todo o supérfluo até que reste somente o importante.
A vida não te deixa em paz, para que deixe de culpar-se e aceite tudo como “É”.

A vida vai retirar o que você tem, até você parar de reclamar e começar a agradecer.
A vida envia pessoas conflitantes para te curar, pra você deixar de olhar para fora e começar a refletir o que você é por dentro.
A vida permite que você caia de novo e de novo até que você decida aprender a lição.

O caminho  lhe apresenta encruzilhadas, até que você pare de querer controlar tudo e flua como um rio.
A vida coloca seus inimigos na estrada, até que você pare de “reagir”.
A vida te assusta e assustará quantas vezes for necessário, até que você perca o medo e recupere sua fé.
A vida tira o seu amor verdadeiro, ele não concede ou permite, até que você pare de tentar comprá-lo.
A vida lhe distancia das pessoas que você ama, até entender que não somos esse corpo, mas a alma que ele contém.
A vida ri de você muitas e muitas vezes, até você parar de levar tudo tão a sério e rir de si mesmo.
A vida quebra você em tantas partes quantas forem necessárias para a luz penetrar em ti.
A vida confronta você com rebeldes, até que você pare de tentar controlar.
A vida repete a mesma mensagem, se for preciso com gritos e tapas, até você finalmente ouvir.
A vida envia raios e tempestades, para acordá-lo.


A vida o humilha e por vezes o derrota de novo e de novo até que você decida deixar seu ego morrer.
A vida lhe nega bens e grandeza até que pare de querer bens e grandeza e comece a servir.
A vida corta suas asas e poda suas raízes, até que não precise de asas nem raízes, mas apenas desapareça nas formas e seu ser voe.
A vida lhe nega milagres, até que entenda que tudo é um milagre.
A vida encurta seu tempo, para você se apressar em aprender a viver.
A vida te ridiculariza até você se tornar nada, ninguém, para então tornar-se tudo.


A vida não te dá o que você quer, mas o que você precisa para evoluir.
A vida te machuca e te atormenta até que você solte seus caprichos e birras e aprecie a respiração.
A vida te esconde tesouros até que você aprenda a sair para a vida e buscá-los.
A vida te nega Deus, até você vê-lo em todos e em tudo.
A vida te acorda, te poda, te quebra, te desaponta… 

Mas creia, isso é para que seu melhor se manifeste… até que só o AMOR permaneça em ti.”
                                                                               

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IMAGINAÇÃO ATIVA



    "Jung jamais pensou em manter para si as suas descobertas a fim de aumentar o próprio prestígio. Em vez disso, ensinou essa maneira de lidar com o inconsciente,que denominava "imaginação ativa" a muitos de seus pacientes.

Em princípio, a imaginação ativa consiste em suspender a faculdade crítica e permitir que as emoções,afetos,fantasia, pensamentos obsessivos ou até imagens de sonho desperto emerjam do inconsciente, confrontando-as como se estivessem objetivamente presentes.
 Esses conteúdos se exprimem com freqüência de modo solene ou pomposo,"uma infernal mistura do sublime e do ridículo",razão porque,a princípio, a consciência pode se sentir chocada e inclinada a descartar tudo como falta de sentido. A ansiedade pode provocar uma espécie de "paralisia" consciente, ou a pessoa pode penetrar fundo demais no inconsciente e cair no sono.
 Um confronto alerta e vívido com os conteúdos do inconsciente é,no entanto,a própria essência da imaginação ativa. Isso requer um compromisso ético em relação às manifestações vindas do interior,para não se cair vítima do princípio do poder e para que o exercício da imaginação não seja destrutivo,tanto para os outros como para o sujeito.

Fantasias podem ser objetivadas por meio do seu registro escrito, por meio do desenho, da pintura (o que é mais raro) da dança alusiva a elas. Um diálogo escrito é a modalidade mais diferenciada disso e costuma levar a melhores resultados.
                                                                                                        Uma ênfase demasiado unilateral na qualidade estética da imagem obstrui a realização do seu SIGNIFICADO, devendo por isso ser evitada segundo Jung. A impaciência para chegar ao significado com a maior rapidez possível deve ser combatida por intermédio da paciente atenção para com o aspecto formal. Mas quando as duas preocupações operam juntas de modo rítmico, a função transcendente, que labuta para unir consciente e inconsciente, age mais efetivamente.

A imaginação ativa é o mais eficaz instrumento por meio do qual o paciente pode tornar-se independente do terapeuta e apreender a seguir os próprios passos. Todavia, nesse caso,ele deve fazer o próprio trabalho interior, visto que ninguém pode fazer por ele. Quem passar a fazê-lo começará a compreender que toda fantasia é um processo ou experiência psíquicos genuínos, e que ele se torna dessa forma um protagonista, agente e paciente de um drama interior.

Mas se apenas contemplar as imagens interiores, nada vai acontecer. É preciso entrar no processo com as próprias reações pessoais.
Se se "compreendem" as imagens e se pensa que o processo se dá pela via da cognição, sucumbe-se a um perigoso erro. Porque todo aquele que não consegue tomar a própria experiência como compromisso ético é vitimado pelo princípio do poder. 


Se, por outro lado, se penetra genuinamente nos acontecimento interiores com o espírito sóbrio e com compromisso ético, fazendo-se uma série de busca de uma consciência maior, o fluxo de imagens interiores começa a contribuir para a integralidade da pessoa, isto é, para a individuação e para a criação de uma segurança interior dotada de força suficiente para resistir às arremetidas dos problemas interiores e exteriores.

 "Somente ele pode reivindicar genuinamente a autoconfiança, porque enfrentou o solo escuro do seu eu e assim, conquistou a si mesmo."

Marie-Louise von Franz: “JUNG SEU MITO EM NOSSA ÉPOCA”. Editora Cultrix
Marc Chagall: La vie Paysanne, 1925


SOBRE NEUROSE


 NEUROSE

O mal do nosso tempo e a neurose são o anti-regozijo. O neurótico não se compraz com nada, a começar consigo próprio – que é a fonte do “sumo de mim”. E nem com o outro. Então, o que é a neurose? A neurose é uma deformação do estado das coisas, é um funcionamento às avessas. Quer dizer: eu como para me satisfazer. Sou neurótico? Como e sinto culpa. A neurose altera o dado e seu signo; é um funcionamento perverso, porque fica tudo pelo avesso. Os males são bem conhecidos: culpa, inferioridade, frustração, carência, ansiedade, incompetência, irritação, ineficiência, etc. Se estou neurótico, estou funcionando contra a corrente, contra o fluxo e contra o sentido das coisas. Quer dizer, é algo que tem que ser trabalhado para ser alterado. Jung foi breve: “ O neurótico é um desadaptado de si mesmo”. É um anti-ser, de viés, a contrapelo.

Acredito que o ser humano é capaz de serenidade, regozijo, amorosidade, solidariedade, compaixão, criatividade, ética, reparação, e mais valores que se queira acrescentar à lista. Se não acreditasse nisso, não faria sentido exercer o ofício que escolhi.

Não sei qual é o telos, a finalidade da natureza. Se pensarmos darwinianamente, lembraremos que a vida começou por acaso, e que um protozoário acabou de desdobrando até cobrir de vida um planeta. Mas não sei qual é a finalidade deste processo. Sei que transcorre sem cessar há mais de dois bilhões de anos. Para onde vai a nave, se a humanidade tende a uma melhora, a uma evolução... eu não sei, está além de mim, não posso falar nisso.

                                                                                                        Agora, nós, que somos macacos um pouco mais aptos, com nossa capacidade de representar e de ter idéias, combina com nossa vida termos um telos, uma meta, uma utopia que seja. E minha proposta é simplesmente poder dizer: que nos tornemos seres humanos melhores. É uma escolha. Para mim está bom. Fico muito inquieto ao ouvir “ Ah, minha meta é aprender a lidar com frustração”. 
Para mim é pouco. Agora, se você escolheu isso para a sua vida, é assim que você viverá. Se eu disser que a minha imagem de vida é que esta se regozija consigo própria, e que pode criar maravilhas, está bom, não está?

Roberto Gambini em “ Voz e o Tempo – Reflexões para jovens terapeutas”, Atel Editorial.

Foto: Paula Stéfani
Imagem: Carin Welz-Stein

MENSAGEM DE EMMANUEL


                                                     


Mensagem  de Emmanuel para Francisco Candido Xavier

 No corpo humano, temos na Terra o mais sublime dos santuários e uma das super maravilhas da obra divina
A bênção de um corpo, ainda que mutilado ou doente, na Terra, é como preciosa oportunidade de aperfeiçoamento espiritual, o maior de todos os dons que nosso planeta pode oferecer.
O corpo é para o homem o santuário real de manifestação, obra prima do trabalho seletivo de todos os reinos em que a vida planetária sobrevive
Os aleijões de nascença e as moléstias indefiníveis constituem transitórios resultados dos prejuízos, que individualmente causamos à corrente harmoniosa da evolução.

A energia mental é fermento vivo que improvisa, altera, constringe, alarga, assimila, desassimila, integra, pulveriza ou recompões a matéria em todas as dimensões.
Por isso mesmo, somos o que decidimos, possuímos o que desejamos, estamos onde preferimos e encontramos a vitória, a derrota ou a estagnação conforme imaginamos.

Os acontecimentos obedecem às nossas intenções e provocações manifestas ou ocultas.
Encontramos o que merecemos, porque merecemos o que buscamos.
A existência, pois, para nós, em qualquer parte, será invariavelmente segundo o que pensamos.
A mente é manancial vivo de energias criadoras. O pensamento é substância, coisa mensurável.
Encarnados e desencarnados povoam o planeta, na condição de habitantes de um imenso palácio de vários andares, em posições diversas, produzindo pensamentos múltiplos que se combinam, que se repelem ou se neutralizam.

O idealismo operante, a fé construtiva, o “ sonho que age” são pilares de todas as realizações.
Quem mais pensa, dando corpo ao que idealiza, mais apto se faz à recepção das correntes mentais invisíveis, nas obras do bem e do mal.
O homem permanece envolto em largo oceano de pensamentos, nutrindo-se de substancia mental em grande proporção.
Toda criatura absorve, sem perceber, a influencia alheia nos recursos imponderáveis que lhe equilibram a existência.
Em forma de impulsos e estímulos, a alma recolhe, nos pensamentos que atrai, as forças de sustentação que lhe garantem as tarefas.
Nossa inspiração está filiada ao conjunto dos que sentem como nós, tanto quanto a fonte está comandada pela nascente.

Somos obsediados por amigos desencarnados ou não e auxiliados por benfeitores, em qualquer plano da vida, de conformidade com a nossa condição mental
Atraímos companheiros e recursos de conformidade com a natureza de nossas idéias, aspirações, inovações e apelos.

Cada criatura recebe de acordo com aquilo que dá. Cada alma vive no clima espiritual que elegeu, procurando o tipo de experiência em que situa a própria felicidade.
Estejamos assim convictos de que os nossos companheiros na Terra ou no Além são aqueles que escolhemos com as nossas solicitações interiores, mesmo porque, segundo o antigo ensinamento evangélico : "teremos o nosso tesouro onde colocarmos o nosso coração”.
                          




58 anos da morte de Carl G. Jung


Seis de junho de 2019: 58 anos sem e com JUNG

Tereza Kawall
Há exatos 58 anos, partia desse mundo um espírito iluminado.
Para mim, o mestre, o sábio de Zurich, Carl G. Jung foi e sempre será como um farol a brilhar em noites escuras. Em meio às tempestades ou em mares pacíficos lá está ele, sempre nos direcionando no decifrar das riquezas, sombras, mistérios ou possíveis naufrágios da psique humana. Na duríssima tarefa de integração do Bem e do Mal dentro dos nossos corações.

Vejo nas fotos desse homem altivez, curiosidade, melancolia, curiosidade, inquietação. Vejo um amor profundo pela alma humana, pelo sofrimento dos homens, que ele tão bem soube “escanear” com sua inteligência e sensibilidades ímpares.

Vejo nelas o seu amor pelos livros, pela cultura de nossos antepassados, que mergulharam no mundo simbólico, sagrado, mágico e esotérico. Homens que há milênios iluminaram o caminho de seus semelhantes com a construção de um tipo de saber que pudesse trazer consolo, motivação ou significado para as suas existências. Adentrando esses conhecimentos, Jung atravessou os desertos da solidão e da incompreensão, uma vez que em sua época eles eram tidos como não científicos, obscuros ou mesmo inúteis. Mas sua disposição para a pesquisa, e sua obstinação com a verdade de revelações advindas do mundo dos símbolos e do inconsciente foram realmente extraordinárias.

Vejo em suas fotos humor, ironia, sagacidade, uma força solar, a centelha da criatividade que construiu uma teoria fascinante, cujos princípios teóricos ecoaram tanto no Oriente quanto no Ocidente, e assim mobilizando a atenção e o interesse de estudiosos em várias áreas do saber. Em suas cartas vemos uma grande disponibilidade afetiva e intelectual para ouvir e dialogar com todos, compartilhando suas experiências, descobertas ou dúvidas, esparramando generosamente, para quem quisesse, a preciosidade de suas experiências tanto pessoais  quanto profissionais.
                                                                                                                               
“Ao estudar intensamente a religiosidade humana, a Alquimia, a Astrologia, a mitologia, o   I Ching e as chamadas ciências herméticas, Jung imprimiu mais humanidade à sua forma de fazer ciência. Jung fez severas críticas à sociedade contemporânea, à massificação e à uniformidade que produzem a mediocridade no homem. Na sua visão, o culto da “Deusa Razão” causou a fragmentação do conhecimento em detrimento da alma e da subjetividade do homem, afastando-o de seu mundo mítico e divino”.(*)

Sua mente aberta e perspicaz alcançou altíssimos níveis de percepção e de sabedoria a respeito do homem, de um cosmos inteligível, da espiritualidade e de Deus. Não por acaso, na entrada de sua casa em Küsnacht vemos a inscrição: “Vocatus atque non vocatus, Deus aderit”, que quer dizer “Invocado ou não, Deus está presente”.

Creio que só entenderemos o “ tamanho” de Carl G. Jung neste atual século XXI. Suas idéias e sua obra atravessarão gerações, dada a sua dimensão filosófica, universal, arquetípica e espiritual, de que tanto precisamos avançar em direção a um processo evolutivo e, sobretudo, em direção a nós mesmos.

(*) Livro: Astrologia - Os doze portais mágicos, editora Talento, São Paulo.
 Signo de Leão escrito por Tereza Kawall.


                                                             


PASSEATA E ESPERANÇA



Tereza Kawall

Vivemos nos últimos anos uma espécie de aventura num tobogã emocional ( para muitos um trem-fantasma) com o desvelamento de infinitas e contínuas ações espúrias e obscenas dentro das instituições do nosso pais, vale dizer, os três poderes, bancos, grande empresários e muitos outros agentes da nossa sociedade. Diariamente ainda ficamos chocados com notícias que nos falam de um assalto contínuo e generalizado aos cofres do país, e cujos valores estratosféricos escapam à nossa contabilidade cotidiana. A sensação de impunidade ainda é altíssima, e nosso ir e vir tem sido restringido pelo medo da falta de segurança nas ruas, ter tantas outras mazelas sociais. 
A Internet e celulares em todas as mãos fizeram acelerar esse processo de forma exponencial. Uma avalanche de informações mais transparentes a respeito do modus operandi da classe política nos obrigou a definir posições mais objetivas e a defendê-las, com maior ou menor intensidade. Uns de forma mais agressiva e contundente; outros, de maneira mais light ou mesmo isenta. E outros, por receio de exposição face à constrangimentos profissionais, mantém suas posições de forma mais reservada.
Há que se respeitar todas as maneiras de expressão frente a esse momento difícil, turbulento e enganoso, onde todos fazem das redes sociais a sua própria tribuna. Todos querem falar, e isso é democracia. Esperar equilíbrio, coerência e discernimento de tudo e todos seria  impossível.

Entendo que uma lufada de esperança apareceu para nós brasileiros com a chegada da operação Lava Jato, que já conseguiu fatos inéditos e extraordinários no âmbito da justiça para muitos daqueles que eram antes intocáveis. Aos poucos pudemos assistir e mesmo vivenciar uma nova consciência de cidadania em muitos indivíduos que como eu, nunca deram muita atenção à vida política.

As experiências coletivas sempre acabam por nos transmitir algo relevante, e que vão bem além daquilo que os cinco sentidos podem depreender em nosso pragmático cotidiano. Falo assim sobre esse nosso “Zeitgeist” brasileiro, que hoje move sonhos e paixões de forma passional e bastante positiva. Ao participar de inúmeras passeatas pró-Brasil, sempre me chama a atenção a verve das pessoas, a resposta emocional de cada um, seja em sua roupa, adereços, cartazes, palavras de ordem do dia. Tudo é muito vibrante, seja no olhar cúmplice, na selfie compartilhada, nos abraços, no respeito ao canto do hino nacional. É bom aprender a amar nosso país, uma vez que o pertencimento faz parte de nossas necessidades mais profundas, intrínsecas e arquetípicas: família, lar, pátria, raízes. (Aqueles que por um motivo ou outro moram ou estão fora de seu país de origem o sabem bem).

                                                                                                 Nas passeatas está estampada de forma inequívoca a esperança. Ela está nas roupas verdes e amarelas, nas bandeiras de todos os tipos e tamanhos; está nas crianças, nas famílias ali presentes, nos adolescentes,  nos adultos, nos idosos até em cadeira de rodas, nas pessoas de todas as classes sociais. Naquele grande asfalto está toda a diversidade de tipos humanos, juntos numa espécie de oceano de emoções e desejos não muito escondidos. Há uma atmosfera de alegria que é difícil descrever, mas creio que tem a ver a com a seguinte percepção: “não estou sozinho” ou “não estamos sós em nossas reivindicações”.

No mito grego de Epimeteu e Pandora, sabemos que esta curiosa e inadvertidamente abriu a caixa de havia recebido de Zeus, mesmo sabendo que seu cunhado Prometeu a tivesse aconselhado a não abri-la. Foi nesse instante da abertura que saíram e se espalharam pelos quatro cantos do mundo todas as maldades da humanidade: dores, misérias, doenças, insanidades, mentiras, corrupção, velhice e catástrofes. Rapidamente Pandora a fechou e a única coisa que lá ficou escondida ou guardada foi a esperança.

Ainda que muitos digam: Ah, isso é só um mito, eu devo dizer: ainda bem que nós os temos, pois essas narrativas estão há milênios sempre vivas e pulsantes em cada um de nós. Se assim não fosse, a “ Pandora” ou a esperança dentro de nós, possivelmente não mais lutaríamos por nada. A vida é feita de sobressaltos, perdas inexoráveis. E também de alegrias, conquistas e superações. Apesar de tudo, de todos e de nós mesmos, frágeis, inacabados, erráticos e imperfeitos, seguimos lutando.

A cada dia vivido, a esperança é novamente guardada na “ caixinha” do nosso coração; sem ela como viver? Não me refiro à esperança como o verbo esperar, mas sim como a “fé construtiva”, ou “o sonho que age”, o fogo vital da vontade criativa que nos move continuamente, em nossos altos e baixos, erros e acertos, em direção a futuras realizações.

OBS: Zeitgeist vem do alemão, que significa “ o espírito de uma época”.


SANTUÁRIOS DA DA VIDA II

Herman Hesse (1877-1962) -- A ÁRVORE

“Nada é mais sagrado, nada é mais espetacular, que uma linda árvore. Quando uma é cortada, ela mostra a todos sua história, através da ferida mortal exposta ao sol, no disco de seu tronco, nos anéis dos anos. Em suas cicatrizes, mostra toda a luta para crescer, mostra suas doenças, seu sofrimento, suas alegrias e prosperidade. 

Mostra também os ataques enfrentados e a sobrevivência às grandes tempestades. E qualquer garoto do campo sabe que a melhor madeira tem os anéis mais estreitos e que no alto das montanhas, nos lugares mais perigosos, nascem as árvores mais formidáveis e indestrutíveis.”


Uma árvore diz: uma semente se esconde em mim, uma faísca, um pensamento, uma possibilidade imensa. Sou a vida da vida eterna. A tentativa e o risco que a Mãe corre comigo é único e particular. Minhas veias, meu tronco, as cicatrizes em minha casca, são exclusivos, assim como são singulares minhas folhas e seus jogos com o vento. Fui feita para refletir o eterno em seu mais minucioso detalhe.”



“A árvore diz: a minha força é a fé. Nada sei sobre meus pais nem sobre as milhares de crianças que cada ano despontam em mim. Vivo o segredo de minha semente até o limite. E nada mais me importa. Confio no Deus, na inteligência suprema, que existe em mim. Confio na natureza sagrada do que faço. Nesta fé eu vivo.”


“Quando somos acometidos por algum problema insolúvel e nossas vidas se tornam terríveis, a árvore nos aconselha: “Aquiete-se!! Olhe para mim, me escute! A vida não é fácil. Mas também não é difícil. Deixe que Deus fale dentro de você, como eu faço todos os dias, e seus pensamentos se aquietarão. Você está ansioso porque seu caminho o leva para longe de sua casa. Mas cada dia, mesmo que indiretamente, você está mais perto de sua casa, de seu lar. Sua casa não é aqui nem lá. Sua casa está dentro de você – senão, não está em lugar algum.”



“Ouço a árvore me chamando à noite, com o barulho de suas folhas ao vento. Bem quando começo a ter pensamentos infantis, causando-me angústia. Árvores tem pensamentos profundos, com respiração profunda, pensamentos doces e calmos, com duração muito superior à dos nossos pensamentos. São mais sábias que nós só até aprendermos a escutá-las. Quando as escutamos, a efemeridade de nossas preocupações se transforma em uma alegria inexplicável. Aí deixamos de querer ser como elas. Queremos ser nada além do que de fato somos. Este é o nosso lar – ser quem somos. Aí está toda a nossa felicidade.
Herman Hesse (1877-1962) extraordinário escritor alemão, naturalizado suíço, autor de, entre outros, “Sidarta” (1922), ganhador do Premio Nobel de Literatura em 1946. Li “Sidarta”, em 1973, livro fundamental pra mim. 

Relendo o Hesse agora, descobri a imensa sabedoria e beleza no que escreve:



“Para mim as árvores tem sido sempre os mestres mais formidáveis de minha vida. Adoro quando as encontro em tribos – em florestas e matas. Gosto ainda mais quando as encontro sozinhas. São como pessoas solitárias. Mas não como eremitas, fugindo do convívio com os outros, por causa de alguma fraqueza. São como grandes homens, como Beethoven ou Nietzsche. 

Seus galhos mais elevados alcançam as estrelas e suas raízes mais profundas encontram o centro da Terra. Mas, nem em sua profundidade nem em sua elevação, se perdem. Continuam lutando com toda força por uma coisa: ser quem tem que ser, de acordo com suas próprias leis. Crescem para demonstrar quem são, para serem representadas no mundo.”
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