INICIO DO ANO ZODIACAL

Por Tereza Kawall


Muitas vezes, ao explicar a natureza do planeta Marte, digo que ela é a energia que tira a gente da cama pela manhã, pois é ali onde voce dá o " start", junta forças vitais e dali sai para a vida. Estou falando de Marte, pois ele é o regente de Áries, o primeiro signo do Zodíaco, e o hoje comemora-se o início do ano zodiacal. 
O Sol está no grau zero deste signo, que pertence ao elemento fogo. 


Onde está essa centelha divina dentro de você? Aquela motivação intrínseca que põe seu corpo e espírito em movimento, e que independe de circunstâncias externas?
" Estou aí na batalha",' ou "vou à luta" bem traduzem essa garra, a vontade de fazer as coisas acontecerem. Aquilo que ninguém fará por você.


Vejo o " espirito" de Áries/Marte quando alguém me conta uma conquista importante e dos seus olhos sai aquela faísca de alegria. A mesma que está presente nos olhos das crianças quando estão felizes ou fizeram alguma " arte" mais especial.
Vejo essa energia nos tons vermelhos das eritrinas, dos altivos antúrios, nas begônias, nas espatódeas, nos bicos de papagaios. Nas pinceladas flamejantes do ariano Van Gogh, nos tons alaranjados celestiais que anunciam o amanhecer.
Sem falar no grito primordial dos bebês quando aqui aterrissam e aparecem para o mundo, respirando pela primeiríssima vez...

A vida nos abençoa de muitas maneiras, todos os dias. No entanto pouco nos detemos no fato de que ela, em si mesma, é a maior das bençãos. O corpo vivo, quente, nossa respiração, o sangue passeando em nossas veias, nossos movimentos, milhões de células e sinapses cumprindo milagrosamente suas funções com o intuito de manter-nos aptos para a ação, ou seja, VIVOS.
Existe benção maior?

Não tenho dúvidas: hoje é o primeiro dia do resto de minha ou de nossas vidas!


JUNG A E ASTROLOGIA 2


Caro Prof.  Raman, 6 de setembro 1947
  "Eu ainda não recebi o “ The Astrological Magazine”, mas responderei sua carta mesmo assim.
Uma vez que você quer saber minha opinião sobre astrologia eu posso te dizer que tenho me interessado por esta atividade especial da mente humana há mais de 30 anos. Como eu sou um psicólogo, me interesso principalmente pela luz especial que o horóscopo lança em certas complicações do caráter. Em casos de difícil diagnóstico psicológico, eu normalmente obtenho um horóscopo para ter uma perspectiva mais profunda, de um ângulo totalmente diferente. Devo dizer que, muito freqüentemente, descobri que os dados astrológicos elucidaram certos pontos que eu, de outra forma, teria sido incapaz de compreender.
De tais experiências formei a opinião de que a astrologia é de particular interesse para o psicólogo, uma vez que contém um tipo de experiência psicológica que chamamos projetadas - isso significa que encontramos os fatos psicológicos como se estivessem nas constelações.
Isso nasceu originalmente da idéia que esses fatores derivam das estrelas, considerando que eles meramente estão em uma relação de sincronicidade com elas.
Eu admito que esse é um fato curioso o qual joga uma luz peculiar na estrutura da mente humana. O que eu sinto falta na literatura astrológica é principalmente o método estatístico pelo qual certos fatos fundamentais poderiam ser estabelecidos cientificamente.
Espero que essa resposta vá de encontro a sua pergunta,
fico à sua disposição,
Sinceramente seu,
C.G. Jung"
(carta que Carl G. Jung escreveu para o astrólogo hindu, B.V. Raman em 6 de setembro de 1947.
Cartas, Volume I, Editora Vozes
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 "Existem muitos exemplos de notáveis analogias entre constelações astrológicas e eventos psicológicos ou entre o horóscopo e a disposição geral do caráter. É até mesmo possível prever até certo ponto, o efeito físico de um trânsito astrológico. Podemos esperar, com considerável certeza, que uma determinada situação psicológica bem definida seja acompanhada por uma configuração astrológica análoga.
A astrologia consiste de configurações simbólicas do inconsciente coletivo, que é o assunto principal da psicologia; os planetas são deuses, símbolos dos poderes do inconsciente"

* Trecho de uma carta de Jung ao astrólogo francês André Barbault, em 1954
Cartas, volume II, editora Vozes.


CIVILIZAÇÃO OU FELICIDADE?

Os xamãs e povos indígenas sabem preservar o contato com suas raízes ancestrais e a com a força dos animais selvagens.

 Do ponto de vista da psicologia evolucionária, portanto, a escala de tempo relevante para se começar a entender a origem, formação e atual configuração do psiquismo humano não são os cerca de 6 mil anos da criação segundo o mito bíblico e a filosofia da história hegeliana, mas as centenas de milhões de anos transcorridos desde o aparecimento dos mamíferos e os cerca de 200 mil anos da trajetória do Homo Sapiens pelo planeta. Foi ao longo dessa trajetória- sob a forja silenciosa e a pressão dos milênios anônimos que precedem a escrita e o nosso calendário – que os modos básicos de sentir e agir, ou seja, que o aparelho psíquico e o repertório de instintos e emoções primárias da nossa espécie foram sendo gradualmente moldados. É abrindo a cortina do nosso passado ancestral que podemos chegar a compreender melhor quem somos e por que somos como somos. A natureza está tanto fora como dentro de nós.

A diversidade aparente não nega a unidade essencial. Assim como o organismo físico dos homens, não obstante a infinita variedade e a singularidade de cada corpo individual, apresenta uma uniformidade anatômica essencial ( todos tempos cabeça, tronco, membros, pulmões lábios, rins, fígado, etc) ; da mesma forma a mente, não obstante a extraordinária variedade de culturas, tradições e peculiaridades individuais, apresenta um uniformidade psíquica essencial que independe do processo histórico e da forma de organização social. Cada indivíduo carrega não só nos órgãos físicos de seu corpo, mas também na sua vida mental. Como uma relíquia herdada do ambiente ancestral da nossa espécie, a pré-história da humanidade.
O ponto crucial aí está. A pessoa civilizada é na verdade uma construção elaborada erguida sobe uma base animal que sempre permanece com ela. A constituição psíquica do homem, fruto de um longo processo evolutivo, é muito menos plástica ou  maleável do que supunham a vertente dominante da era iluminista e todos os adeptos da crença na perfectibilidade humana do século XIX.
.. A domesticação do animal humano tem um preço. Nossa constituição psíquica não aceita de bom grado e resiste surdamente às múltiplas interdições, pressões e ditames da convivência civilizada. O homem carrega dentro de si um universo mental com um tempo de mudança muito distinto do que preside às mudanças no campo da ciência, da técnica e do pregresso econômico. Mas assim como se constata hoje que a exploração do meio ambiente natural pelo homem vem produzindo uma séria ameaça de desastre ecológico, parece razoável supor que estejamos vivendo um espécie de crise da ecologia psíquica, produzida pelo crescente descompasso entre o ambiente interno do anima homem- a natureza humana pré-lógica e pré-civilizada que herdamos da nossa trajetória evolutiva –e o ambiente externo da civilização tecnológica.
A pergunta básica que fica é: a civilização entristece o animal humano?

Do livro: Felicidade, pagina 106
Autor: Eduardo Gianetti

Editora Companhia das Letras

SATURNO E O ANO DE 2017


VISLUMBRE PARA 2017

Saturno será o planeta regente de 2017. O que isso significa?

De que o nosso planeta está atravessando enormes desafios ninguém mais duvida. A questão que se coloca é: e o que fazer? Como cada um de nós pode contribuir para minimizar as graves conseqüências do atual desequilíbrio ambiental? Porque a solidariedade humana só se manifesta em situações extremas?

Há uma crescente consciência de que  a responsabilidade por melhorias ou soluções, seja no plano social, político ou econômico não pode mais ficar na mão de alguns poucos que detém todo o poder das decisões em suas mãos. Cada individuo pode e deve agir de forma mais consciente para não permitir abusos e injustiças, participando efetivamente de ações que visem o bem estar da coletividade.

Saturno nos mostra a importância de aceitar os limites e as dores da vida, e também de perseverar, apesar das dificuldades que chegam, inexoravelmente, para todos. Cronos, na antiga Grécia, como o Senhor do Tempo, faz-nos lembrar de que tudo na natureza tem o seu próprio ciclo, vale dizer, tudo tem um começo, meio e fim. Ele também significa a sabedoria que advém das experiências vividas e do trabalho, além da perseverança e disciplina para a que nossos ideais se realizem. É em meio as crises, turbulências e adversidades que encontramos força e resiliencia para seguir em frente.



Assim, cada vez mais, a união e o esforço coletivo em torno de um ideal comum são fundamentais para a sobrevivência de todos nós. E isso independe de raça, condição geográfica, clima, cultura, ideologias ou história, seja ela pessoal ou coletiva. Depende do sentido de urgência, da consciência e da responsabilidade do ser humano, coisas que não estão à venda em supermercados. 

Esta consciência nasce do interior e da reflexão honesta de cada um. Só apontar os culpados não basta. Estamos no mesmo barco, pertencemos a uma única família humana. Precisamos remar com mais vontade e disposição para que as mudanças que desejamos possam acontecer. De fato, não existem ventos favoráveis para aquele que não sabe seu porto de destino. Para onde a sua bússola aponta? 

Para saber mais, procure nas bancas e livrarias o  Almanaque do Pensamento para 2017!!


ABRINDO CAMINHOS



À beira do lago de Zurich, Jung construiu uma casa, a torre de Bollingen.
Lá o sábio médico e psiquiatra gostava de conversar com as panelas, caminhar, cortar lenha, velejar, pintar murais e esculpir em pedras. Desde sua infancia, ele nutria uma forte conexão com o elemento pedra.
Esculpiu  algumas pedras que ficavam no jardim com inscrições em grego e latim.

Aqui vemos, numa pedra em forma de cubo, entendida por ele como a pedra filosofal,  o símbolo do processo de individuação.  O Lápis Philosophorum, dos alqumistas.

Nela vemos um círculo como um olho, e dentro dela um homúnculo, que seria Telesphorus de Asclépio, considerado um deus da cura na região da Ásia Menor.
Segundo Jung, era ele quem abria o caminho para as portas do Sol e à terra do Sonhos.
em sua figura temos o símbolo de Mercúrio, e ao redor dele temos uma mandala com sua quaternidade esculpida com os símbolos astrológicos relacionados à Jupiter, Marte, Vênus e Saturno. Nas laterais vemos os símbolos do Sol e da Lua.








A QUADRATURA DO CÍRCULO


Por Etienne Perrot

" O homem moderno muito frequentemente vive "nas alturas".

 Falta-lhe o contato com sua terra interior. Quando se establece esse contato, o centro da consciencia se desloca, produzindo o que certos ensinamentos espirituais denominam " a descida da cabeça ao coração".

É a operação alquímica da "quadratura do círculo", um dos nomes do início da obra.
O círculo é o ceú; o quadrado é a terra. O círculo transformado em quadrado é o " céu terrestre".

Muitas mandalas representam precisamente um círculo inscrito num quadrado.
A coincidência de dois planos faz nascer em nós  um sentimento de fecundidade. 
Do inconsceinte sobem forças que renovam nossa vida sem cessar, impedindo a esclerose 
do hábito.
Aí  estão o "rio da vida" e a " árvore da vida" também denominada " árvore filosófica".

Publicado na Planeta Especial de 1975, centenário do nascimento de Carl G Jung.

IMPRESSÃO CELESTIAL


Por Tereza Kawall

O mapa natal astrológico é a nossa "impressão celestial", unica e intransferível, nossa sina e nosso destino, aquilo que somos e o que não somos.
Dito de outro modo, é a vida que nos vive. 
O rio que passa sob ou sobre a ponte.
 O calor do Sol que nos aquece, e o frio da Lua que nos protege do Sol durante a noite. 
O fácil e o difícil. 
O que é intransponível e o que se transforma com o passar dos anos em superação.
 O suor da pele e o sangue  que percorre as veias.
A dualidade inexorável do bem e do mal, que habita cada célula do nosso corpo e cada átomo de nossa mente. 
Poeira cósmica que somos,
Ora importantes, ora insignificantes.

Cada simbolo astrológico aponta e contém infinitas possibilidades de entendimento de uma mesma coisa.
Para mim, a interpretação mais  "correta' é aquela que nasce no coração, que muito sabe pensar, avaliar e prospectar algo que só a razão não é capaz.


Não há um só dia em que não me encante  com a riqueza dos símbolos presentes em meus sonhos. 
Da mesma forma, ao compreender a natureza de um transito ou ciclo astrológico, devo reverenciar todos aqueles que vieram antes de mim.
 Há milhares de anos,  com infinita dedicação e paciência, eles estabeleceram as bases desse saber mágico e iniciático, ao qual devo tanto.
Saber esse que torna meu caminho mais firme e mais suave, e assim sendo, mais amoroso. Comigo mesma e com tudo o que está ao meu redor".

"  Inconsciente Coletivo - até onde nos é possível julgar - parece ser constituído de algo semelhante a temas ou imagens de natureza mitológica, e, por esta razão, os mitos dos povos são os verdadeiros expoentes do inconsciente coletivo. Toda a mitologia seria seria uma espécie de projeção de imagens, que vemos isto o mais claramente possível. Isto explica as influências dos astros, afirmadas pela Astrologia: estas influências mais não seriam do que percepções instrospectivas inconscientes da atividade do inconsciente coletivo. Do mesmo modo como as constelações foram projetadas no céu, assim também outras figuras semelhantes foram projetadas nas lendas e nos contos de fadas ou em personagens históricas. Por isso, podemos estudar o inconsciente coletivo de duas maneiras: na mitologia ou na análise do indivíduo"


Carl G JUNG, em a "Natureza da Psique" pg 325. 




“Os  antigos contos de fadas, que nos são narrados por seus intérpretes modernos, Bruno Bettelheim, Robert Bly, Joseph Campbell e Clarissa Spinkola, são mapas antigos que oferecem a sua própria orientação para o completo desenvolvimento dos seres humanos. A sabedoria desses contos que chegam aos nossos dias vem de uma época anterior à escrita, e eles foram narrados no crepúsculo e na escuridão, ao redor de fogueiras, por milhares de anos. Embora por si mesmos sejam histórias cativantes e envolventes, também simbolizam, em grande parte, dramas com os quais nos deparamos quando buscamos plenitude, felicidade e paz.

 Os reis e as rainhas, príncipes e princesas, anões e feiticeiras não são personagens meramente “ lá de fora”. Nós os conhecemos intuitivamente como aspectos de nossa própria psique, parte do nosso próprio ser, tateando na busca da satisfação. Nós abrigamos o ogro e a bruxa, e eles têm que ser encarados e aceitos ou vão nos consumir ( nos devorar). Os contos de fadas são uma antiga orientação, contendo uma narrativa, para nossa sobrevivência instintiva, nosso crescimento e integração em face de dragões e demônios interiores e exteriores, bosques escuros e desertos. 

Essas histórias nos lembram de que vale a pena buscar o altar onde nossos próprios seres fragmentados e isolados podem se encontrar com outros e casar, trazendo novos níveis de harmonia e compreensão para nossas vidas, até o ponto a partir do qual poderemos viver realmente felizes – o que realmente importa no aqui e agora atemporais. Essas histórias são sábias e antigas, projetos surpreendentemente sofisticados para o nosso  pleno desenvolvimento como seres humanos.

Um tema recorrente nos contos de fadas é o da criança, habitualmente um príncipe ou uma princesa que perde a sua bola de ouro. Não importa se somos homem ou mulher, velho ou jovem, cada uma de nós tem um pouco tanto do príncipe quanto da princesa ( dentre outras incontáveis figuras), e houve época  em que cada um de nós brilhou com a inocência dourada e a infinita promessa contida na juventude. E nós ainda carregamos aquele brilho dourado, ou podemos recuperá-lo, se tivermos o cuidado de não deixar que nosso desenvolvimento fique preso.
.... Dialogar com esses aspectos de nossa psique que instintivamente desviamos para os confins de nosso inconsciente é um pré-requisito. Isso pode ser bastante assustador, porque a sensação que surge é a mesma de quando penetramos na escuridão, no desconhecido, em lugares misteriosos".

A esse respeito diz Marie-Louise von Franz, que estudou profundamente o simbolismo dos contos de fadas:

“ Contos de Fadas são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo. Conseqüentemente, o valor deles para a investigação científica do inconsciente é sobejamente superior a qualquer outro material. Eles representam os arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa. Nesta forma pura, as imagens arquetípicas  fornecem-nos as melhores pistas para a compreensão dos processos que se passam na psique coletiva. Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as estruturas básicas da psique humana através de uma exposição do material cultural. Mas nos contos de fadas existe um material cultural consciente muito menos especifico e, conseqüentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique”.

Fontes: “A mente alerta”, de Jon Kabat-Zinn.Editora Objetiva,RJ 2001.

“ A interpretação dos Contos de Fadas”, de Marie Louise von Franz. Editora Achiamé, RJ, 1981.

ECKHART TOLLE - BUDA



Por Eckhart Tolle

“A realidade duplicada no universo, que consiste em objetos e espaço – materialidade e imaterialidade-, é igual à nossa. Uma vida humana sadia, equilibrada e produtiva é uma dança entre as duas dimensões que constituem a realidade: forma e espaço. A maioria das pessoas se identifica tanto com a dimensão da forma, com as percepções sensoriais, com os pensamentos e com as emoções, que a parte oculta essencial quase desaparece da sua vida. A identificação com a forma as mantém presas ao ego.

Aquilo sobre o que pensamos a respeito, vamos, ouvimos, sentimos ou tocamos é apenas a metade da realidade, por assim dizer. É a forma. Nos ensinamentos de Jesus, isso é chamado simplesmente de  “o mundo” enquanto a outra dimensão é o reino do Céus ou vida eterna”.
Assim como o espaço permite que todas as coisas existam e assim como não poderia haver som sem silencio, nós não existiríamos sem a dimensão essencial se forma que é a nossa essência. Poderíamos chamá-la de “ Deus” caso essa palavra não estivesse tão desgastada pelo uso. Prefiro denominá-la Ser. O Ser á anterior à existência. A existência é forma, conteúdo, “ o que acontece”. A existência é o primeiro plano da vida, enquanto o Ser é uma espécie de pano de fundo.

A doença coletiva da humanidade é o fato de que as pessoas estarem tão absorvidas pelo que acontece, tão hipnotizadas pelo mundo das formas em constante mutação, tão mergulhadas no conteúdo da sua vida, que se esquecem da essência, daquilo que está além do conteúdo, da forma e do pensamento. Elas se encontram de tal maneira consumidas pelo tempo que esquecem a eternidade, que é a sua origem, seu lar, se destino. Eternidade é viver a realidade de quem nós somos.

Anos atrás, quando estive na China, visitei um monumento no alto de uma montanha próxima a Guilin. Nele havia uma inscrição gravada com ouro. Perguntei ao guia chinês o que estava escrito ali.
-Está escrito “Buda”- disse ele.
- Por que há dois ideogramas gravados em vez de um? – quis saber.
-Um significa “ homem”. O outro significa “não”. E os dois juntos  significam “ Buda” – explicou.
Fiquei ali parado completamente perplexo. O ideograma correspondente a Buda já continha todo o ensinamento do mestre. E, para um bom entendedor, o segredo da vida. ali estão as duas dimensões que constituem a realidade – a materialidade e imaterialidade, forma e negação da forma -, o que é um reconhecimento de que a forma não é quem nós somos”.

Do livro: O despertar de uma nova consciência

Editora Sextante.

OS SÍMBOLOS NÃO MORREM



" Nossa psique está profundamente conturbada pela perda dos valores morais e espirituais. Sofre de desorientação, confusão e medo, porque pées forces" dominantes e que até agora mantiveram em rdem nossa vida. Nossa consciencia já não é capaz de integrar o afluxo natural dos epifenomenos instintivos que sustentam nossa atividade psíquica consciente. Isto já não é possível como antigamente, porque a própria consciencia se privou dos orgãos pelos quais poderiam ser integradas as contribuições auxiliares dos instintos e do inconsciente. Esses orgãos eram os símbolos luminosos, considerados sagrados pelo consenso comum, isto é, pela fé.

Um conceito como matéria física, despido de sua conotação numinosa de " Grande Mãe" já não expressa o forte sentido emocional de " Mãe Terra". É um simples termo intelectual, seco qual pó e totalmente inumano. Da mesma forma, o espírito  identificado com o intelecto cessa de ser o Pai de tudo e degenera para a compreensão limitada das pessoas. E a poderosa quantidade de energia emocional expressa na imagem de "nosso Pai" desaparece nas areias de um deserto intelectual.

Por causa de mentalidade científica, nosso mundo se desumanizou. O homem está isolado no cosmos. Já não está envolvido na natureza e perdeu sua participação emocional nos acontecimentos naturais que até então tinham um sentido simbólico para ele. O trovão já não é a voz de Deus nem o raio seu projétil vingador. Nenhum rio contém qualquer espírito, nenhuma árvore significa uma vida humana, nenhuma cobra incorpora a sabedoria e nenhuma montanha é ainda habitada por um grande demonio. Também as coisas já não falam conosco, nem nós com elas, como as pedras, fontes, plantas e animais. Já não temos uma alma da selva que nos identifica com algum animal selvagem. Nossa comunicação direta com a natureza desapareceu no inconsciente, junto com a fantástica energia emocional a ela ligada.



Esta perda enorme é compensada pelos símbolos de nossos sonhos. Eles trazem novamente à tona nossa natureza primitiva com seus instintos e modos próprios de pensar. Infelizmente, poderíamos dizer, expressam seus conteudos na linguagem da natureza que nos parece estranha e incompreensível. Isto nos coloca a tarefa incomum de traduzir seu vocabulário para os conceitos e categorias racionais e compreensíveis de nossa linguagem atual que conseguiu libertar-se de sua escória primitiva, isto é, de sua participação mística com as coisas. Falar de espíritos e de outas figuras numinosas já não significa invocá-los. Já não acreditamos em fórmulas mágicas. Já não restaram muitos tabus e restrições semelhantes. Nosso mundo parece ter sido desinfetado de todos esses numes " supersticiosos" como " bruxas, feiticeiros e duendes" para não falar de lobisomens, vampiros, almas da floresta e de outras entidades estranhas e bizarras que povoam as matas virgens".


OC, 18/1 cap 67 paragrafos 583 a 586

do livro:Espiritualidade e Transcendência

Carl Gustav Jung

Seleção e edição de Brigitte Dorst