A ESPERANÇA VIVE

                                                                            

Pandora carregada por Hermes

Por Tereza Kawall


Querendo ou não, somos diariamente atropelados por algumas palavras ou expressões que teimam em ocupar a nossa mente: polarização, sustentabilidade, planetário, corrupção, violência, implosão, empatia, gênero, corrupção, complexidade, intolerância, erosão de valores, democracia, transparência....
 Pergunto-me: como seria fazer um bolo com todos esses ingredientes? O que adicionar primeiro, sal ou açúcar? Quanto tempo ficaria ele no forno, e em qual temperatura? Deveria cobri-lo com frutas, uma calda? Porem ao ficar pronto seria provavelmente seco e indigesto e certamente não tiraria a fome crescente que temos, dia após dia, de um pouco mais de paz, segurança, coerência e perspectiva de futuro.
 As notícias vêm e vão, as conquistas já feitas pelo bem comum ora avançam, ora retrocedem, segundo a ótica de cada um. A tal da verdade mais se parece com uma geléia estranha com todas as cores e com sabor agridoce.
Todos têm a sua opinião, “acham” alguma coisa, mas pouco sabem a respeito de tudo. Alguns parecem ser uma espécie de “procuradores de Deus na terra” donos da palavra final que reverbera ao som de trombetas, e com direito a raios e trovões divinos.

Em nosso país, e com razão, todos estão estarrecidos, irados com a crescente consciência de que tudo está por um fio. A classe política há tempos virou as costas para a população e mais recentemente só legisla contra o povo, sem nenhum escrúpulo. Estamos mesmo no fio da navalha? O futuro é algo indelével e nem os melhor dos videntes se arriscaria a prever algo olhando a sua bola de cristal.
Muitos dirão: o planeta vai mal, é uma questão mundial, a insegurança e a violência estão por todos os lados. Devo concordar, muito embora saibamos que esses índices por aqui são escabrosos. A consciência de tanta deterioração por vezes tem uma função de um gás paralisante, porém é temporária.

Podemos alcançar na memória o mito de Pandora que casada com Epimeteu, recebeu dele uma caixa de presente que havia sido enviada por Zeus. Pandora já fora alertada pelo marido de que não deveria abrir essa caixa. Mas sucumbiu a sua curiosidade e fez exatamente o contrário. Ao tirar a sua tampa, dela escaparam e se espalharam pelo mundo todos os males físicos e espirituais: as doenças, a inveja, os vícios, a fome, o frio, a guerra, as perdas. No entanto no fundo da caixa ficou preservada a esperança. Seria a esperança o grande antídoto para as dores e sofrimentos da vida? O homem precisa dela, apesar das frustrações e desapontamentos para superar a dor, e encontrar um sentido para a vida?

Diz Junito Brandão sobre esse mito:
“ As desgraças, porém, despejaram-se pelo mundo; resta, todavia, a Esperança, pois afinal a vida não é apenas infortúnio: compete ao homem escolher entre o bem e o mal. Pandora é, pois, o símbolo dessa ambiguidade em que vivemos”.

Olho para nosso planeta em constante ebulição, cheio de guerras e injustiças de toda ordem Não sou historiadora, mas de relance, me parece que sempre foi assim, a violência do homem contra ele mesmo, as perseguições políticas e religiosas, suas matanças indiscriminadas através dos séculos, epidemias, cataclismos e a macabra desigualdade social. Duas guerras mundiais não nos ensinaram muita coisa sobre o absurdo daquilo que são, e da miséria psíquica e social que elas acarretam, anos a fio. Ainda que falemos constantemente na paz, nos preparamos ininterruptamente para a guerra.
Mas vejo com bons olhos essa ponta de esperança, que mesmo frágil ou meio esquecida, ainda pulsa no coração de milhões de pessoas no mundo que vibram e estão comprometidas com a  construção de uma realidade menos nefasta.

 São aqueles que amam e protegem animais, domésticos ou selvagens, a qualquer preço. São os ambientalistas sérios; mestres ou professores que nos ensinam que a espiritualidade e a consciência do ser é o que realmente importa. E há também os curadores, que não divergem quando o assunto é a necessidade do perdão ( para nós mesmos e os outros) e de mudanças de padrões psicológicos que ficaram incrustados em nossa memória emocional. E por trás de tudo isso está o poder do Amor.
Temos também os músicos, bailarinos, poetas, atores, escritores, artistas de todos os segmentos, sempre fiéis aos seus princípios éticos, à sua criatividade e loucura. E temos ainda os sonhadores, visionários, e médicos voluntários que se doam generosamente, em silencio, a milhares de pessoas pelo mundo, em troca de um olhar de gratidão.
As belas hortas urbanas, a agricultura familiar e as energias solar e eólicas vieram para ficar. Ciência e religião já conversam pacificamente.  A medicina complementar faz parte de nosso dia a dia. As linguagens simbólicas nada devem ao mundo racional e empírico, que fundamentam as caríssimas pesquisas de laboratórios.

Lembro-me agora do falecimento de Frans Krajcberg, que nos deixou um legado de inspiração inegável para as gerações futuras. Sua visão de mundo, seu amor absoluto pelas árvores, florestas e pela natureza em geral. Nele e em todos esses sonhadores de plantão estarão sempre encarnados o profundo amor por tudo o que vice, a obra do Criador. Obra essa que pode ser uma flor, uma pedra, uma estrela, uma concha, a lua, a criança, um gato, a montanha, a lagarta, a nuvem, o canto dos pássaros ao amanhecer. Tudo em profunda conexão, como nos revela a Anima Mundi, dos antigos alquimistas.
Sim, creio que a esperança, ainda que meio esquecida ou desidratada, está viva nos corações de tantas e tantas pessoas pelo mundo afora, que na ponta dos pés vislumbram um futuro para nosso século XXI. Vamos resistir, temos que resistir!

Extraído do livro: Mitologia Grega, Volume I

Junito Brandão, Editora Vozes, 1986.

CURSO DE PSICOLOGIA JUNGUIANA ONLINE


Comunico a todos e com muita alegria que  a segunda edição do meu curso introdutório de Psicologia Analítica está sendo lançado hoje, 30 de outubro de 2017.

Caso tenha interesse acesse o link:
www.escoladetransformacao.com.br/curso/psicologia-junguiana


Lá você encontrará o conteúdo programático, os objetivos do curso, que é apresentado com power point, e inclui uma apostila com ampla bibliografia. 
Estou apresentando e discorrendo sobre conceitos da escola junguiana, tais como: Arquétipos, Inconsciente Coletivo, Sombra, Animus e Anima, entre outros.
Abraços

Tereza Kawall







HORAS ARQUETÍPICAS DO COSMOS

Tereza Kawall

O céu planetário tem ângulos fortes e auspiciosos na data de hoje.

Júpiter e Sol juntos e imponentes no signo de Escorpião são um convite à reflexão quanto ao nosso propósito de vida, quando temos mais capacidade de perceber quem realmente somos e o que queremos, muito além das obrigações formais do cotidiano. É quando podemos rever  ou mesmo modificar esse projeto essencial, segurá-lo com firmeza em nossas mãos, sem delegá-lo a outros, seja lá o que for. Perceber que a fé não depende de uma divindade específica a nos inspirar. Depende também e, sobretudo, de nós mesmos, de sermos capazes de nos reerguer, avançar, sejam quais forem as circunstâncias. Como diz o poeta: “ A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não”.

Saber ver a beleza do aprendizado contínuo e do caminho já percorrido. Exercitar a “ atitude simbólica” da qual fala o mestre Jung. Ou seja, adentrar e valorizar o mundo dos símbolos, cujo poder é intrinsecamente transformador em nossa psique. E com essa disposição interna, dar um novo significado às experiências, estabelecer relações entre os fatos reais e os sinais subjetivos do nosso dia a dia. Escutar o cochicho dos deuses, ou realizar um pequeno ritual que por mais simples que seja, traz um sentido mais elevado para que se transcenda a realidade corriqueira, ter olhos para os pequenos milagres do cotidiano. Alargar a mente, transcender o corriqueiro, ampliar o espírito.

Olhar de forma mais livre e desapegada para o aqui-agora, aceitar aquilo que não pode ser modificado. O signo de Escorpião é a casa oito do zodíaco, diz respeito aos processos de morte e renascimento. Podemos também reverenciar nossos mortos, aqueles que por aqui estiveram antes de nós, sejam os familiares, mentores, mestres, ou os anjos que, saibamos ou não, nos protegem no plano espiritual.  Esse signo representa os “mundos inferiores”, e está sob a regência de Plutão ou Hades, que significa “ riqueza”. Nossa mente inconsciente conversa conosco através dos sonhos, intuições, mitos e sincronicidades. Quantas riquezas ou potenciais criativos lá estão em nosso mundo “inferior” ou desconhecido a nossa espera para emergir para a consciência?

E como bem observou Jean-Yves Leloup: “As florestas crescem silenciosamente”...Temos  também hoje uma Lua crescendo ao lado do planeta Netuno em seu próprio signo, Peixes. Sim, existem milhares e milhões de pessoas mais sensíveis e muito comprometidas em cuidar do planeta, Gaia, a Mãe Terra, com boas vibrações e orações ou com ações efetivas e pragmáticas sustentadas em ideais mais elevados e menos materialistas. As conexões sutis e invisíveis estão mais intensas, seres mais evoluídos, vivos ou não podem estar atuando mais intensamente por uma desejada e necessária transformação vibracional em nossa casa, nosso planeta.
 Há uma cosmovisão e a clara percepção de que tudo e todos no universo estão intrinsecamente relacionados. Sejam esses indivíduos sonhadores, idealistas, loucos, artistas, místicos ou visionários, não importa, não vão desistir de suas metas, pois é a sobrevivência de todos que está em jogo.

Excelente momento para práticas meditativas ou espirituais, em que há uma sintonia mais profunda com a unidade da vida; é possível estar em comunhão com o mundo da alma, suas imagens, desejos e sua mágica subjetividade. Lua e Netuno estão em ângulo positivo com Sol e Júpiter, facilitando a abertura do coração para que se veja o outro diferente de mim, perceber a humanidade dentro dos seus olhos. Afinal suas aspirações, medos, fraquezas, conquistas e lutas são bem parecidas com as minhas
. Sim, a empatia e a compaixão dissolvem fronteiras aparentemente insuperáveis, assim como a boa vontade, o altruísmo e a generosidade do coração. Que esse lindo “ abraço planetário” nos permita viver a natureza e a qualidade de seus símbolos de forma produtiva e intensa.

CARPE DIEM!

* Apolo em sua carrugem.
* Jupiter visto por baixo ( NASA)

ANIMUS E ANIMA

Quadro de Marc Chagall


“A mais importante contribuição que Jung deu em seus conceitos de anima e do animus reside no fato de que ele nos deu uma idéia da polaridade existente dentro de cada um de nós. Não somos unidades homogêneas de vida psíquica, mas possuímos uma inevitável oposição dentro da totalidade que forma o nosso ser. Existem opostos dentro de nós, podemos chamá-los do que quisermos – masculino e feminino, anima e animus, Yin e Yang – e eles permanecem eternamente em tensão e estão eternamente buscando união.

 A alma humana é uma grande arena em que o Ativo e o Receptivo, a Luz e as Trevas, o Yang e o Yin procuram unir-se e forjar dentro de nós uma indescritível unidade de personalidade. Realizar essa união dos opostos dentro de nós pode ser muito bem a tarefa da vida, tarefa que exige o máximo de perseverança e de atenção assíduas. Geralmente os homens precisam das mulheres para isso, e as mulheres precisam dos homens. E, contudo, em ultima análise, a união dos opostos não ocorre entre um homem que põe em ação o masculino e uma mulher que põe em ação o feminino, porém dentro do ser de cada homem e de cada mulher em que os opostos finalmente se conjugam.

...O desejo que a alma tem de unir-se à consciência e forjar uma personalidade indivisível e criativa é o que há de mais forte dentro de nós. A esse nível, a necessidade de plenitude ou de individuação também é chamada de Coniunctio, da união dos opostos, da junção de macho e fêmea, equivale à imagem  por excelência da junção das partes consciente e inconsciente da personalidade”

Os parceiros invisíveis
John A. Sanford

Editora Paulinas

DEUSAS MITOLÓGICAS E A ANIMA

           AFRODITE                                                                                         PALAS ATENA  

















“Vemos que a anima, bem como o animus podem aparecer sob a forma de múltiplas figuras com evidencia na mitologia. Na mitologia grega, por exemplo, existem numerosas deusas. Atenas, Afrodite, Deméter, Hera e Ártemis constituem as cinco maiores deusas do mundo superior, e há ainda Core e Hécate do mundo inferior, sem mencionarmos as deusas menores como Héstia e inúmeras ninfas e gênios. 

No seu artigo “ Goddesses in Our Midst” ( 1974, Deusas em nosso meio), Philip Zabriskie discute as cinco deusas do mundo superior, que ele encara como uma espécie de “ tipologia do feminino”. Cada deusa, sugere ele, é diferente e cada uma delas constitui “ uma imagem do estilo válido, antigo e autentico do feminino” .

Afrodite personifica o “aspecto feminino que busca incansavelmente a união com o masculino, por causa do magnetismo erótico que impele fortemente os opostos a se unirem”. Hera é o feminino que também se acha relacionado com o mundo masculino, porém “ impessoalmente”, mesmo “ institucionalmente”, mais do que intensa e individualmente, pois como a rainha do Olimpo, ela respeita as instituições santificadas do trono e do lar. Deméter relaciona-se com a criança, não com o homem, e encarna o poder elementar feminino que “ faz nascer, ama, alimenta”.

Ártemis, a deusas das amazonas, virgem, casta, auto-suficiente, é o feminino num aspecto impessoal e pode ser visto como fator dominante nas “mulheres cheias de graça, de vitalidade, de liberdade, de abnegação e talvez até de poderes psíquicos”. Atenas também nascida da cabeça de seu pai Zeus, personifica o feminino ligado ao “ mundo da consciência, do tempo, do ego, do trabalho e do crescimento”.

Nessas cindo deusas, Zabriskie vê os modelos de certos estilos tipicamente femininos de vida e de comportamento. “Todos eles são, por certo, aspectos da única Grande Deusa, porém, não obstante apresentam-se como personificações distintas”.

Extraído do livro: Os parceiros invisíveis
Autor: John A. Sanford

Edições Paulinas, 1986.

SÍMBOLOS MITOLÓGICOS DA LUA

Tereza Kawall

  Adentrando a dimensão simbólica da Lua em civilizações remotas e em inúmeras culturas, podemos dizer que ela foi adorada e cultuada de diferentes formas, sempre evocando o princípio materno e feminino, imagem do arquétipo da Grande Mãe. Entendemos que a crença de que há uma conexão bastante peculiar entre a mulher e a Lua tem sido universalmente mantida, ou, dito de outro modo, essa foi uma experiência humana arquetípica, projetada na Lua física do céu.
Em termos mitológicos, a Lua é a representação da Grande Deusa ou Grande Mãe, patrona da fertilidade, concepção e crescimento, tanto na vida vegetal, quanto animal ou humana. Como Ártemis da antiga Grécia, ou Ísis do antigo Egito, ou Shakti da cosmologia hindu, deusas mães ou divindades lunares regiam, além do ciclo anual da vegetação, o ciclo humano do nascimento, da vida e da morte.
Diz Jung sobre o arquétipo materno:
Como todo arquétipo, o materno também possui uma variedade incalculável de aspectos. Menciono apenas alguns (..) a própria mãe, avó (...), a deusa, a Mãe de Deus, a Virgem, (...) a Igreja, a Universidade (...), o Céu, a terra, a floresta, o mar, as águas quietas, o subterrâneo, a Lua. No sentido mais restrito, o lugar do nascimento, a concepção, o jardim, a gruta, a fonte, o poço (...) (Jung, 2000: 156)
O símbolo da Lua, como outros, possui uma dimensão mais universal e outra mais individual, e todas as imagens ou narrativas a ele relacionadas são auto-retratos da psique coletiva, o que dá ele um caráter multidimensional.
Um fator relevante no que diz respeito a essa simbologia lunar é a compreensão deste arquétipo ou divindade com duas faces distintas. No que diz respeito ao arquétipo materno, as imagens das deusas mães como grandes provedoras tinham também seu lado sombrio. Os poderes fertilizadores das águas das chuvas e dos rios estavam sob o domínio das grandes divindades femininas. Eram elas que poderiam produzir excelentes colheitas ou então chuvas torrenciais que significavam devastação e fome.  
Esta relação também pode ser compreendida a partir das variações do ciclo da lua no céu, ora crescendo, ora minguando.                                                                                                                            

 Afirma Liz Greene sobre essa ambivalência lunar:
Ao jogar com as imagens evocadas por essas três fases, podemos ver como a Lua nova, essa traiçoeira Lua negra, se associa à morte, à gestação, à feitiçaria, e à deusa grega Hécate, regente dos nascimentos e da magia negra. Após o escurecimento da Lua, vinha a Lua crescente, com sua virginal delicadeza e suas promessas. Sua forma é de uma tigela aberta, pronta para receber um conteúdo vindo de fora. A Lua crescente era relacionada com a deusa virgem Perséfone, raptada por Hades. A Lua cheia, por outro lado, tem uma aparência grávida; é redonda e suculenta, plena e madura, e seu parto pode ocorrer a qualquer momento. É a Lua em seu poder máximo, associada à deusa da fertilidade Deméter, a mãe de todos os seres vivos. (Greene, 1994:6)
 Esta relação misteriosa com o feminino também está presente nos contos folclóricos, com os lobos uivando,vampiros metamorfoseados nas noites misteriosas da lua cheia, com rituais mágicos, ou com a feitiçaria. Todas essas fantasias e mitos relacionam-se ao mundo lunar, que pode ser também o lado obscuro das emoções humanas, sejam elas o amor, a loucura e a magia das paixões.


UM SONHAR CONTÍNUO


"É noite. À noite ficamos mais abetos, mais românticos, mais reflexivos, porque nossa atenção não é desviada por telefonemas e coisas do gênero. É um momento de reflexão descontraída, no qual os sentimentos e os aspectos reprimidos da personalidade vêem à tona. Daí o homem olha para o céu. O céu sempre foi uma das visões mais fascinantes para ele e em épocas passadas as estrelas eram figuras divinas, eram deuses. Até mesmo os bosquímanos no deserto de Kalahari vêem nas constelações celestes o Grande Caçador ou ao Grande Deus. Segundo os mitos, é o reino das estrelas que nossa alma vem e para lá retorna após a morte.

Pense na história da astrologia, que se expandiu não só pelo Ocidente, mas também para a Índia, na China e em todas as civilizações mais elevadas. Todas têm suas tradições astrológicas. Os astros permitem que se prognostique o futuro não apenas de um indivíduo, mas da humanidade inteira. Na China, todo um grupo de astrólogos observava o céu dia e noite e relatava ao imperador os sinais percebidos, que eram interpretados no que se referia ao imperador chinês. Analogamente, na antiguidade, tudo era visto no céu.


                                                                        
 Dra von Franz, a senhora acha que há uma relação entre a constelação dos astros e o destino de indivíduos ou mesmo da humanidade?
As constelações no céu representam as constelações por trás dos grandes eventos históricos, como se na profundeza do inconsciente não estivéssemos isolados, mas de algum modo ligados ao conjunto da humanidade, que sonha um sonho ininterrupto. É isso que explica as mudanças políticas e religiosas.

Se você pensar por um momento o quanto a situação da humanidade mudou nos últimos trinta anos, perceberá a rapidez dessas grandes mudanças coletivas. Naturalmente, seres humanos inteligentes refletem sobre os processos mais profundos por trás dos eventos históricos externos.

 Olhar para o céu pode assim ser entendido como o sonhador olhando para as constelações mais profundas não só da sua própria vida, mas também da nossa sociedade. A palavra constelação vem de stella e portanto significa proximidade de estrelas, a humanidade junto com as estrelas”.

Marie -Louise von Franz
Livro: O caminho dos sonhos

Editora Cultrix










Laurens van der Post, escritor sul-africano e herói de guerra, tornou-se amigo íntimo de Carl G. Jung, freqüentava sua casa e trocavam idéias a respeito da vida, pessoas e sobre a obra do mestre de Zurique.



“ Não posso nem alimentar a pretensão de ser junguiano no único sentido que, acredito, lhe teria valido a aprovação do termo, isto é, relacionado a alguém que praticou  ou ensinou a psicologia analítica que ele liderou. Sei que Jung  o rejeitou quando usado em qualquer escala mais ampla, especialmente como um rótulo por parte de discípulos, tendo externado suas objeções repetidas vezes com o desembaraço verbal que lhe era peculiar. Não gostava da idéia de ter discípulos ou seguidores cegos, e nem mesmo uma escola, e, em sua velhice concordou relutantemente com a criação do Instituto Carl G. Jung, em Zurique, para os estudos ligados ao seu próprio enfoque de psicologia. Recordo-me bem quando afirmou que o Instituto vingaria caso não extrapolasse os objetivos para os quais fora criado no lapso de uma geração. 

Jung, acima de tudo, tinha profunda aversão aos ismos, e o adjetivo ' junguiano" quer tão facilmente poderia converter-se em "junguianismo", era descartado pelos seus próprio discípulos de psicologia. " Não quero que ninguém seja junguiano", afirmava-me. " Quero que as pessoas sejam, sobretudo, elas mesmas. Os ismos são os vírus de nossa época, responsáveis por desgraças maiores do que aquelas causadas por qualquer praga ou peste medieval. Se um dia descobrir que criei outro ismo, então terei fracassado naquilo que procurei fazer".

Atualmente, o mundo o considera quase exclusivamente psicologo e psiquiatra. Entretanto, por maior e mais original que tenha sido a sua contribuição profissional, e por mais incomparável que tenha sido o seu talento em curar pessoas psicologicamente doentes, creio que sua importância em relação ao chamado homem normal e suas sociedades sejam bem mais ampla".

...“a psicologia e sua aplicação eram o meio no qual trabalhava, o que o levou primeiramente à descoberta, e posteriormente à exploração de um mundo novo dentro do espírito humano que é maior e, em minha opinião, muito mais significativo para a vida na terra do que o mundo externo que Colombo descobriu”.

Laurens van der Post no livro : Jung e a história de nosso tempo

Editora Civilização Brasileira, 1992, RJ

ASTROLOGIA ARQUETÍPICA













ASTROLOGIA ARQUETÍPICA 
Por James Hillman
" Diferentemente do seu comportamento com o seu trabalho
( do astrólogo) e da defesa do seu campo, meu comportamento é somente com um interesse permanente, um amor até, pela astrologia como um fenômeno arquetípico, quer dizer, difundido, eterno, emocionalmente sedutor, profundamente ressonante e generativamente fértil - e também poderosamente sedutor.

Consequentemente, por causa destas qualidades, o termo arquetípico é apropriado para esse campo.
Se for arquetípica, a astrologia veio para ficar, porque não desaparece, deve ser arquetípica. E ela não desaparecerá".

...Tal convicção veio com aquela primeira leitura que fiz para estudar a astrologia. Esse interesse permanente, essa fascinação, esse amor nunca me deixou. Ao mesmo tempo devo deixar claro para vocês que não acredito nela, não a pratico, nem mesmo entendo como " funciona", embora a astrologia seja uma das minhas linguagens básicas para a reflexão astrológica.

Para mim, a astrologia simplesmente devolve os eventos para os Deuses. Ela depende de imagens tiradas dos céus. ela invoca um sentido politeísta, mítico, poético, metafórico do que é fatalmente real. é isto que torna a astrologia eficaz como um campo, como uma linguagem, como um modo de pensar.

Ela é quem traz para o pensamento popular a grande tradição que mantém todos nós que participamos de um cosmos inteligível, desta maneira dando a questões humanas repostas maiores que as humanas.
Força-nos a imaginar e pensar em termos psicológicos complexos. ela é politeísta, e consequentemente, move-se em oposição ao pensamento dominante da história ocidental".

ASTROLOGIA : SEMPRE ATUAL


Hermes, o mensageiro dos deuses, com seu capacete alado, suas sandálias aladas e o caduceu

" Não resta duvida para mim, de que a astrologia é o meio mais exato e abrangente de compreender a personalidade, o comportamento, a mudança e o desenvolvimento do ser humano.

Muitas vezes me perguntaram por que a astrologia tem presenciado tal renovação da popularidade nos últimos anos. Penso que parte da resposta está no fato de que a cultura ocidental já não tem qualquer mitologia viável para sustenta-la. Em qualquer cultura, o mito sempre atua com uma realidade maior, mais universal. 

As pessoas sempre tiveram necessidade de um modelo para  servir de guia às suas vidas coletivas e para dar significado à sua experiencia individual. Neste sentido, a astrologia contém toda uma estrutura mitológica. O professor Joseph Campbell  escreve: 
" O homem não pode se manter no universo sem acreditar em alguma arrumação da herança geral do mito. De fato, até mesmo a plenitude de sua vida pareceria estar em relação direta com a profundidade e o alcance, não do seu desenvolvimento racional, mas de sua mitologia local"

Campbell declara que o mito tem três funções essenciais: ' provocar um temor respeitoso", "originar uma cosmologia' e "iniciar o individuo nas realidades da sua própria psique". Conforme muitas pessoas estão descobrindo hoje em dia, o uso adequado da astrologia preenche todas as três funções.

Daí, se concordarmos com a definição de mito, dada por Campbell, creio que devemos concordar que a astrologia, conforme o fez durante eras do passado, oferece uma prática e vital mitologia para os nossos tempos".

Stephen Arroyo em " Astrologia, Psicologia e os quatro elementos"
Editora Pensamento