LIBERTAÇÃO

"Eu liberto meus pais do sentimento de que já falharam comigo.

Eu liberto meus filhos da necessidade de trazerem orgulho para mim; que possam escrever seus próprios caminhos de acordo com seus corações, que sussurram o tempo todo em seus ouvidos.

Eu liberto meu parceiro da obrigação de me completar. Não me falta nada, aprendo com todos os seres o tempo todo.
Agradeço aos meus avós e antepassados que se reuniram para que hoje eu respire a vida.
Libero-os das falhas do passado e dos desejos que não cumpriram, conscientes de que fizeram o melhor que puderam para resolver suas situações dentro da consciência que tinham naquele momento. Eu os honro, os amo e reconheço inocentes.

Eu me desnudo diante de seus olhos, por isso eles sabem que eu não escondo nem devo nada além de ser fiel a mim mesmo e à minha própria existência, que caminhando com a sabedoria do coração, estou ciente de que cumpro o meu projeto de vida, livre de lealdades familiares invisíveis e visíveis que possam perturbar minha Paz e Felicidade, que são minhas únicas responsabilidades.
Eu renuncio ao papel de salvador, de ser aquele que une ou cumpre as expectativas dos outros.

  Aprendendo através, e somente através, do AMOR, eu abençoo minha essência, minha maneira de expressar, mesmo que alguém possa não me entender.

Eu entendo a mim mesmo, porque só eu vivi e experimentei minha história; porque me conheço, sei quem sou, o que eu sinto, o que eu faço e por que faço.

Me respeito e me aprovo.
Eu honro a Divindade em mim e em você... Somos livres."



(Essa antiga bênção foi criada no idioma Nahuatl, falado desde o século VII na região central do México. Ela trata de perdão, carinho, desapego e libertação).

SÍMBOLOS NA ASTROLOGIA



“A Astrologia incorpora uma sabedoria antiga que propõe a interligação de todas as formas de vida, desafiando assim as modernas tendências à separação, ao excesso de especialização e à fragmentação. Ela oferece-nos uma rica linguagem simbólica, a qual nos põe em contato mais profundo e imediato como nosso mundo e nosso próprio “eu”. Por isso, a Astrologia –com seu poderoso simbolismo evocativo e séculos de experiência humana- tem muito a oferecer para a reafirmação de uma visão holística da vida e da natureza humana”.

“O que torna a astrologia única é a riqueza, a profundidade e a fluidez de sua base simbólica; cada símbolo evoca uma ampla gama de associações, enquanto mantém seu núcleo essencial. Essa é a natureza dos símbolos. Apesar do método das “palavras-chave” oferecer um ponto de partida par se começar a penetrar nesse - aparentemente- vasto território, é importante identificar as limitações e armadilhas presentes em qualquer tentativa de definir e categorizar aquilo que, por natureza, é incompreensível. Os símbolos planetários propiciam um caminho para a compreensão dos processos vitais, das forças ou deuses que vivem em nós, do nível da realidade arquetípica, das misteriosas profundezas de nosso ser que sempre escaparão do alcance da mente racional. Imagens e símbolos  são a linguagem natural da psique e exercem um impacto emocional tal, que pode nos despertar para uma nova vida”.

“Trabalhar com o simbolismo astrológico estimula nossa capacidade de criação de símbolos, fazendo com que sejamos mais capazes de captar os paradoxos e ambigüidades da vida, de construirmos uma ponte entre o conhecido e o desconhecido, de recomeçarmos a sondar o misterioso reino da psique. Jung dá à criação de símbolos o nome de “função transcendente”, pois ela nos permite realizar a transição de um estágio para outro na vida – os trânsitos e progressões da astrologia. Ele sustenta que o conflito não pode ser resolvido no sentido racional, sendo apenas ultrapassado, algo que envolve abraçar e segurar a tensão, a dor e a vulnerabilidade de não saber, até que alguma coisa cede e ocorre a transformação, como se fosse um processo químico. Com efeito, ele percebeu que, em épocas de conflito, a psique tende a evocar símbolos unificadores que atuam como veículos transformadores de energia.”

“ Portanto, nos momentos de impasse da vida, quando fracassam todos os esforços da vontade e nos sentimos frustrados e impotentes, que o poder transformador dos símbolos pode se fazer sentir”.

Christine Valentine

Imagens da Psique, Editora Siciliano,1994, São Paulo.

SONHOS: O QUE ELES NOS REVELAM?

                                                 

Caros leitores desse blog, vai abaixo o link de um vídeo sobre a natureza dos SONHOS na visão da Psicologia Analítica no qual abordo questões relevantes sobre a natureza dos sonhos, e com muitas dicas que você pode aproveitar em seu dia a dia. Como entender essas imagens tão esquisitas que nos visitam durante a noite? Há algum sentindo nelas? E porquê todos sonhamos?


http://www.youtube.com/watch?v=TnQsxB43jrk&t=36s

Se você quiser saber mais coisas da escola junguiana, saiba que estamos fazendo uma  promoção de férias na Escola de Transformação. Além de ganhar um desconto de 30% no valor do curso de Psicologia Junguiana online, você também ganhará um e.book  sobre Sonhos, ricamente ilustrado, feito por mim. 
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Abraços!


Tereza Kawall

DOR DA ALMA


“ Queria acrescentar que a alma doída adquire uma força, uma radicalidade surpreendente em sua maneira de se expressar e entender as coisas. É como se, por sofrer, a alma se tornasse mais ousada e mais corajosa nos comentários que tem a fazer sobre este mundo, suas desgraças, verdades e belezas. A dor a torna mais eloqüente, mais penetrante, mais surpreendente e esse seu modo de falar, podemos reconhecer em escritores, artistas, pensadores, inovadores de todos os tipos. Não é uma eloquência retórica, não é um uso das palavras ou das emoções usadas para discutir argumentos usuais, mas é como que uma subversão da maneira de se considerar coisas costumeiras. 
                                                                                                                             
Parece que alma, ferida, ao mesmo tempo fica forte naquilo que declara; é como se isso ganhasse não uma legitimidade, mas espaço, acesso para abordar temas que não costumam ser abordados. Então, esse é um dos efeitos desse mistério que busco formular e por isso se justifica que uma terapia dê valor à dor. Porque poderia ser dito: isso é um viés depressivo da terapia, ou um gostar da dor. O que estou dizendo é exatamente o oposto. É que essa dificílima relação com a própria dor ou com a alheia promove inovações. E como venho repetindo, a mim interessam as inovações do conhecimento e do discurso da alma – distinto daquele proferido pelo intelecto e pela razão.
                                                                                                                  A razão e o intelecto podem ancorar a expressão da alma; mas a origem dessa expressão está nela mesma, e não nos primeiros. Essa força penetrante advém do fato de que só a alma que habitou o Hades consegue lançar luz sobre obscuridades que a luz da razão não ilumina. Sua luz é outra. É como se a alma que sofreu adquirisse o poder de se iluminar a si mesma, para se revelar. O que ela faz é apenas revelar-se; o resto, é com a gente. 
Quer dizer: a alma somos nós. Mas quando se revela, é o nosso ego, é a nossa consciência, é o nosso humano, demasiadamente humano que tem a tarefa de fazer alguma coisa com o que foi revelado, ou a revelação se perde.  A revelação é dada, ela é um dom. Pois ouso dizer que a origem do dom é a dor”.

Roberto Gambini em “ A voz e o Tempo” – Reflexões para jovens terapeutas”

Ateliê Editorial, 2008, São Paulo.

“ Porque motivo – perguntará o leitor – falo aqui de Cristo e de sua parte contrária? Falamos necessariamente de Cristo porque Ele é o mito ainda vivo de nossa civilização. É o herói de nossa cultura, o qual, sem detrimento de sua existência histórica, encarna o mito do homem primordial, do Adão mítico. É Ele quem ocupa o centro da mandala cristão; é o senhor do Tetramorfo, isto é, dos símbolos dos quatro Evangelistas que significam as quatro colunas de seu templo. Ele está dentro de nós e nós estamos Nele. Seu reino é a pérola preciosa, o tesouro escondido no campo, o pequeno grão de mostarda que se transforma na grande árvore; é a Cidade celeste. Do mesmo modo que Cristo, assim também o seu reino está dentro de nós. Acho que estas poucas referencias universalmente conhecidas são suficientes para caracterizar a posição psicológica do símbolo de Cristo. Cristo elucida o arquétipo do Si-mesmo”.
Cal Gustav Jung, em AION, estudos sobre o simbolismo do si mesmo, parag 69.

“A síntese não é uma coisa estática, mas algo vivo, um movimento. Sem cessar, nós temos que fazer a união entre o superior e o inferior, entre masculino e feminino, através dos conflitos, através das tristezas, a fim de vivermos estas bodas interiores.
Para os antigos Terapeutas, Jesus não era somente um personagem histórico. Ele era também um arquétipo. O arquétipo que faz em nós, a Síntese não apenas do masculino e feminino, mas também a síntese do divino com o humano”.
“ Daí vem a necessidade de encontrar o caminho do meio. Se o Cristo é somente Deus, ele não me interessa, porque ele não sabe o que é o sofrimento humano, ele não sabe o que é ser traído por seus amigos, ele não sabe o que é a morte. Se por outro lado, Cristo é simplesmente um ser humano, ele também não me interessa porque são o sofrimento e a morte que terão a ultima palavra. Se ele não ressuscitou, não manifestou essa presença do divino nele, poderá ter sido um belo sábio, um homem maravilhoso, mas sempre como um homem mortal. É preciso unir o humano ao divino, a realidade do sofrimento e da morte com a realidade da ressurreição. E assim a gente encontra o Cristo no caminho do meio”
Jean-Yves Leloup, em “ Caminhos da Realização”.                                               

“ O rei não é o Self, mas a manifestação simbólica desse arquétipo. Isso é, o rei de nossa civilização é Cristo, ele é o símbolo do Self, ele é o aspecto específico do Self que domina a nossa civilização, o Rei dos Reis, o conteúdo dominante. Eu diria que Buda é o aspecto formulado do simbolismo do Self  nas civilizações budistas. Assim, o rei não é o arquétipo, mas o símbolo do Self que tornou a representação central dominante numa civilização”
Marie-Louise von Fraz, em " A sombra e o mal nos contos de fadas".

“ Que outro líder que, apenas com 12 colaboradores, redefiniu toda a história da humanidade, e exemplo do que Cristo fez há dois milênios? Há um tratado de Clemente de Alexandria sobre o Cristo pedagogo. E há um ícone do século XIV do Cristo Psychosostes, representando-o como médico e psicólogo, pleno de sabedoria compassiva.
Cristo foi agente de cura do corpo físico, ao limpar a pele de leprosos e abrir os olhos de cegos. De cura psíquica, pela profunda e eficaz psicologia do perdão, pelas parábolas sábias que resistem aos séculos e ainda mantém o frescor original. De cura noética, ao ensinar a terapia da benção e da oração. E, finalmente, agente de conexão com a essência da vida, colocando-nos em contato com aquele que, na intimidade, ele chamava de Paizinho”.
Roberto Crema, em “Normose- a patologia da normalidade”.

“ O símbolo de Cristo” é da maior importância para a psicologia, porquanto constitui, ao lado da figura de Buda, talvez o símbolo mais desenvolvido e diferenciado do Si-mesmo. Isso pode ser avaliado pela amplitude e pelo conteúdo dos predicados atribuídos ao Cristo, que correspondem a fenomenologia psicológica da Si-mesmo de um modo incomum, apesar de não incluir todos os aspectos deste arquétipo”.
Carl Gustav Jung
Em “Espiritualidade e Transcendência”, Capítulo III, Psicologia e Religião, livro editado por Brigitte Dorst.

                                                

Tenho um presente para você que acompanha esse blog: Fiz um e.book sobre SONHOS, um tema muito precioso da escola junguiana. Com belas e inspiradora imagens, você poderá dar um mergulho nesse mundo fascinante da nossa vida inconsciente. 
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Quandro de John Anster Fitzgerald

A SOMBRA NA PSICOLOGIA JUNGUIANA

                                                                    
Por Tereza Kawall
A Sombra vem a ser uma parte constitutiva da psique humana, e é um conceito fascinante da psicologia junguiana. De modo conciso, sabemos que a sombra está relacionada com tudo aquilo que o homem não deseja ver em si mesmo. A sombra representa o lado titânico do indivíduo, seu lado pouco civilizado, infantil, que geralmente se expressa por  pensamentos marcados por inveja, ressentimento, tendências cruéis ou destrutivas, como são a ganância e a arrogância sem limites.

A sombra pode se desenvolver na infância, quando ocorrem situações de humilhação, violência ou repressão contra as quais as crianças não têm como se defender. Há também um aspecto cultural que tem a ver com o meio familiar, escolas, crenças e valores religiosos de um grupo ou sociedade.  Desta feita, a criança é refém de medos, culpas e de segredos que  podem adoecer a sua psique e seu corpo ao longo da vida. Portanto, a sombra tem um aspecto individual e coletivo, e  nesse contexto ela é a expressão de todas formas de intolerância, segregação e das guerras em geral.

Em termos mitológicos e arquetípicos, a sombra geralmente está associada aos gigantes, dragões, cavernas, porões, labirintos, demônios, anões ou feiticeiras. No conto “ A Bela e a Fera” temos o encontro da bela com seu aspecto “ feio” ou “ indesejável”; ao se apaixonar pela Fera, em termos simbólicos, ela está aceitando e integrando essa sua dimensão complexa e difícil de ser assimilada. Acolher qualidades inconscientes e detestáveis é uma ameaça ao ego, ao lado consciente da personalidade, e à auto-imagem positiva que temos de nós mesmos. No entanto, querer mostrar só a perfeição é também uma carga intolerável, com a garantia que isso com certeza, não vai funcionar. Luz e sombra habitam nosso ser, queiramos ou não.

Na Astrologia, o arquétipo de Saturno, entre outras coisas, diz respeito a sombra humana.
Liz Greene, em seu livro de mesmo nome, diz:
“ Saturno simboliza um processo psíquico, assim como uma qualidade ou tipo de experiência. Ele não é simplesmente um símbolo de dor, de restrição e de disciplina, mas também um símbolo do processo psíquico, comum a todos os seres humanos, por meio do qual um individuo poderá utilizar as experiências de dor, de restrição e de disciplina como um meio de ampliar sua consciência e desempenho”. ...”Saturno está relacionado com o valor educativo da dor e com a diferença entre valores exteriores – aqueles que trabalhamos para descobrir dentro de nós mesmos. O papel de Saturno enquanto Fera é um aspecto indispensável do seu significado, pois, conforme nos relata o conto, a Fera só pode se libertar do encantamento e se transformar em Príncipe quando for amada por aquilo que ela é”.

A sombra também guarda talentos, recursos e habilidades que estão adormecidas no porão da psique e aqui é que reside a sua beleza e riqueza. Os tesouros enterrados nos mitos lá estão à nossa espera para que possam se revelar, livres da repressão e das culpas. Da mesma forma, em analogia, as ostras fabricam as pérolas em função de um mecanismo de defesa do atrito que havia dentro delas. Essa jóia orgânica faz parte de um processo lento da natureza, é bela e delicada  tal e qual a sombra.

Para saber mais sobre esse tema e sobre ferramentas para se trabalhar com a sombra acesse:
http://escoladetransformacao.com.br/aula/mod-5-sombra-e-persona/


SONHAR É PRECISO



Por Tereza Kawall

Os sonhos são manifestações de nossa alma, e sua natureza misteriosa e desconcertante é observada em todas as culturas, há milênios. O sonho se parece com um filme estranho ou desconexo e a sua matéria prima são as imagens e os símbolos.

É muito importante que não haja pressa em “ acertar” a interpretação do sonhos, pois suas mensagens nãos são óbvias, lineares e muito menos racionais. Você pode receber, acolher e refletir sobre as imagens do seus sonho, dialogar internamente com elas. O simples ato de contar um sonho para alguém já é terapêutico.

Os sonhos trazem informações preciosas sobre o nosso psiquismo, e podem desencadear em nós uma nova forma de ver e entender algo relevante em nossas vidas. Essa nova visão, em si mesma, já implica em uma transformação. Ou seja, “transformar a ação” que por algum motivo naquele momento já não está mais funcionando, ou  a mudança de uma situação aparentemente sem saída. Dito de outra maneira, o símbolo quando psiquicamente constelado  já tem um poder direcionador e transformador no indivíduo.

Os sonhos revelam o que existe em nossa mente inconsciente e o fazem de forma bastante criativa. Alguns tem um caráter premonitório, outros obedecem a uma certa seqüência e vão se relacionando entre si com o passar do tempo. Outros equilibram alguma tendência psíquica que está em desequilíbrio, como excesso de arrogância, falta de auto-estima ou amor próprio, um pragmatismo míope que impede renovação, etc. E isso sem falar nos pesadelos que sacodem e acordam o sonhador,  como um grito de alerta, chamando a sua atenção para algo que ele resiste bravamente em admitir?

Os sonhos são amigos do sonhador, e como o sono noturno, sua função consite em restaurar nossa saúde física e mental.
No caso de terapeutas, é relevante que possam investir em conhecer simbologia, folclore, mitologia ou artes em geral, pois essas linguagens certamente facilitarão a reflexão sobre esses conteúdos internos com seus clientes.
O sonho está sempre endereçado ao sonhador, não existem sonhos iguais, assim como não existem histórias de vida iguais.

Veja mais em http://escoladetransformacao.com.br/curso/psicologia-junguiana

Arte: Rob Gonsalves





CURSO PSICOLOGIA JUNGUIANA ONLINE


Neste curso introdutório você poderá conhecer alguns dos principais conceitos 
da Psicologia Analítica de Carl G. Jung.
A apresentação é feita em power point, com belas imagens e de forma bastante didática.
 Acompanha uma apostila com ampla bibliografia para auxiliar  os seus estudos.
Você poderá fazer o curso nas horas de seu interesse, no conforto de sua casa.

Para conhecer melhor o conteúdo programático acesse:

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Tereza Kawall

A ESPERANÇA VIVE

                                                                            

Pandora carregada por Hermes

Por Tereza Kawall


Querendo ou não, somos diariamente atropelados por algumas palavras ou expressões que teimam em ocupar a nossa mente: polarização, sustentabilidade, planetário, corrupção, violência, implosão, empatia, gênero, corrupção, complexidade, intolerância, erosão de valores, democracia, transparência....
 Pergunto-me: como seria fazer um bolo com todos esses ingredientes? O que adicionar primeiro, sal ou açúcar? Quanto tempo ficaria ele no forno, e em qual temperatura? Deveria cobri-lo com frutas, uma calda? Porem ao ficar pronto seria provavelmente seco e indigesto e certamente não tiraria a fome crescente que temos, dia após dia, de um pouco mais de paz, segurança, coerência e perspectiva de futuro.
 As notícias vêm e vão, as conquistas já feitas pelo bem comum ora avançam, ora retrocedem, segundo a ótica de cada um. A tal da verdade mais se parece com uma geléia estranha com todas as cores e com sabor agridoce.
Todos têm a sua opinião, “acham” alguma coisa, mas pouco sabem a respeito de tudo. Alguns parecem ser uma espécie de “procuradores de Deus na terra” donos da palavra final que reverbera ao som de trombetas, e com direito a raios e trovões divinos.

Em nosso país, e com razão, todos estão estarrecidos, irados com a crescente consciência de que tudo está por um fio. A classe política há tempos virou as costas para a população e mais recentemente só legisla contra o povo, sem nenhum escrúpulo. Estamos mesmo no fio da navalha? O futuro é algo indelével e nem os melhor dos videntes se arriscaria a prever algo olhando a sua bola de cristal.
Muitos dirão: o planeta vai mal, é uma questão mundial, a insegurança e a violência estão por todos os lados. Devo concordar, muito embora saibamos que esses índices por aqui são escabrosos. A consciência de tanta deterioração por vezes tem uma função de um gás paralisante, porém é temporária.

Podemos alcançar na memória o mito de Pandora que casada com Epimeteu, recebeu dele uma caixa de presente que havia sido enviada por Zeus. Pandora já fora alertada pelo marido de que não deveria abrir essa caixa. Mas sucumbiu a sua curiosidade e fez exatamente o contrário. Ao tirar a sua tampa, dela escaparam e se espalharam pelo mundo todos os males físicos e espirituais: as doenças, a inveja, os vícios, a fome, o frio, a guerra, as perdas. No entanto no fundo da caixa ficou preservada a esperança. Seria a esperança o grande antídoto para as dores e sofrimentos da vida? O homem precisa dela, apesar das frustrações e desapontamentos para superar a dor, e encontrar um sentido para a vida?

Diz Junito Brandão sobre esse mito:
“ As desgraças, porém, despejaram-se pelo mundo; resta, todavia, a Esperança, pois afinal a vida não é apenas infortúnio: compete ao homem escolher entre o bem e o mal. Pandora é, pois, o símbolo dessa ambiguidade em que vivemos”.

Olho para nosso planeta em constante ebulição, cheio de guerras e injustiças de toda ordem Não sou historiadora, mas de relance, me parece que sempre foi assim, a violência do homem contra ele mesmo, as perseguições políticas e religiosas, suas matanças indiscriminadas através dos séculos, epidemias, cataclismos e a macabra desigualdade social. Duas guerras mundiais não nos ensinaram muita coisa sobre o absurdo daquilo que são, e da miséria psíquica e social que elas acarretam, anos a fio. Ainda que falemos constantemente na paz, nos preparamos ininterruptamente para a guerra.
Mas vejo com bons olhos essa ponta de esperança, que mesmo frágil ou meio esquecida, ainda pulsa no coração de milhões de pessoas no mundo que vibram e estão comprometidas com a  construção de uma realidade menos nefasta.

 São aqueles que amam e protegem animais, domésticos ou selvagens, a qualquer preço. São os ambientalistas sérios; mestres ou professores que nos ensinam que a espiritualidade e a consciência do ser é o que realmente importa. E há também os curadores, que não divergem quando o assunto é a necessidade do perdão ( para nós mesmos e os outros) e de mudanças de padrões psicológicos que ficaram incrustados em nossa memória emocional. E por trás de tudo isso está o poder do Amor.
Temos também os músicos, bailarinos, poetas, atores, escritores, artistas de todos os segmentos, sempre fiéis aos seus princípios éticos, à sua criatividade e loucura. E temos ainda os sonhadores, visionários, e médicos voluntários que se doam generosamente, em silencio, a milhares de pessoas pelo mundo, em troca de um olhar de gratidão.
As belas hortas urbanas, a agricultura familiar e as energias solar e eólicas vieram para ficar. Ciência e religião já conversam pacificamente.  A medicina complementar faz parte de nosso dia a dia. As linguagens simbólicas nada devem ao mundo racional e empírico, que fundamentam as caríssimas pesquisas de laboratórios.

Lembro-me agora do falecimento de Frans Krajcberg, que nos deixou um legado de inspiração inegável para as gerações futuras. Sua visão de mundo, seu amor absoluto pelas árvores, florestas e pela natureza em geral. Nele e em todos esses sonhadores de plantão estarão sempre encarnados o profundo amor por tudo o que vice, a obra do Criador. Obra essa que pode ser uma flor, uma pedra, uma estrela, uma concha, a lua, a criança, um gato, a montanha, a lagarta, a nuvem, o canto dos pássaros ao amanhecer. Tudo em profunda conexão, como nos revela a Anima Mundi, dos antigos alquimistas.
Sim, creio que a esperança, ainda que meio esquecida ou desidratada, está viva nos corações de tantas e tantas pessoas pelo mundo afora, que na ponta dos pés vislumbram um futuro para nosso século XXI. Vamos resistir, temos que resistir!

Extraído do livro: Mitologia Grega, Volume I

Junito Brandão, Editora Vozes, 1986.