I KNOW ( HIM)


O DEUS DE JUNG.
Quando Jung fala de religião não está nunca se referindo a qualquer credo ou a qualquer igreja em particular. O que o interessa é a atitude religiosa como função psíquica natural, é a experiência religiosa na qualidade de processo psíquico. No seu trabalho de analista verificou as múltiplas manifestações do fenômeno religioso e sua importância dentro do funcionamento da psique.Somente depois da publicação póstuma das MEMÓRIAS é que ficamos conhecendo a posição religiosa pessoal de Jung. Na sua obra científica, como vimos, ele se refere ao arquétipo de Deus na psique, à imagem de Deus, mas nunca fez afirmações ou negações concernentes à existência de Deus. Mas, através das páginas das MEMÓRIAS Jung revela-se como um homem para quem Deus era “uma experiência imediata das mais certas”.

No capitulo Anos de Colégio, lemos: "Como cheguei a minha certeza sobre Deus? Apesar de todas as coisas que me haviam dito referentes ao assunto, no fundo, eu não podia crer em nada. Nada me havia convencido. Não era portanto daí que vinha minha convicção. E, aliás, não se tratava de uma idéia, de algo que fosse fruto de minhas reflexões, nada que fosse imaginado. Não era como se a pessoa imaginasse e representasse um objeto para depois crer. Por exemplo, a história do Senhor Jesus sempre me pareceu suspeita e nunca acreditei seriamente nela.

Entretanto me fora sugerida com muito mais insistência do que "Deus", que somente era evocado num plano distante. Por que Deus era para mim uma evidência? Por que certos filósofos pretendiam que Deus fosse uma idéia, uma espécie de suposição arbitrária que pudesse ser “inventada" ou não, quando é perfeitamente evidente que Ele existe, tão evidente quanto um tijolo que caia sobre a cabeça de uma pessoa? De súbito tornou-se claro que, pelo menos para mim, Deus era uma experiência imediata das mais certas."

Numa entrevista famosa concedida à BBC de Londres dois dias antes de completar 80 anos, Jung declarou: "Não necessito crer em Deus: eu sei (I know)."
Estas palavras desencadearam tão grande celeuma que Jung publicou uma carta esclarecendo-as. Não pretendeu dizer: “Conheço um certo Deus (Zeus, Jeová, Allah, o Deus Trinitário, etc), mas: sei com segurança que me confronto com um fator desconhecido em si, ao qual chamo Deus".
E algumas linhas abaixo: “Desde que experimento minha colisão com um poder superior dentro de meu próprio sistema psíquico, eu tenhoconhecimento de Deus”.

Foto: inscrição em latim na porta de entrada em sua casa, em Küsnacht, que quer dizer:
"Inovado ou não invocado Deus estará presente"

Nise da Silveira JUNG, VIDA E OBRA.
Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro,1981.


ASTROLOGIA, KARMA E BUDISMO



                                           
“O Karma não é um castigo, se sim uma missão que viemos cumprir, e é bom ressaltar que nada nos é imposto, Há condições de escolhas, há livre-arbítrio. A vida é uma nova oportunidade de refazer o que foi malfeito e realizar sua programação atual....

Um indivíduo não foi condenado pelo destino ou pelos céus a ter uma vida condicionada a erros passados. Não voltou apenas para pagar dívidas. Foi dado a todos um livre-arbítrio ((parcial, é claro), com o qual se pode criar soluções inovadoras e aproveitar todas as ocasiões para melhorar. Os budistas ensinam ainda que escolhemos nosso país, local e condições para uma nova vida. Isso inclui até a escolha do momento do nascimento.
É importante lembrar que essas escolhas “anteriores” foram restritas ao plano mental do passado. Foi “ aquela” mente antiga que decidiu, e depois que chegamos na vida material, as decisões tomadas nem sempre nos agradam.

Porém, a astrologia nos ajuda a descobrir nossas qualidades, nossos trunfos para enfrentar a vida com mais ânimo e coragem. Pelo dia de nascimento, pela família escolhida e pela idade astral que cada um traz no plano mental, nos tronamos seres únicos no universo. Ninguém se iguala a ninguém, e isso faz toda a diferença na interpretação dos mapas. Embora no mesmo dia nasçam centenas de crianças em todos os lugares do mundo, ninguém é igual, ainda que tenham mapas semelhantes ou até iguais.
Todos vêm com uma herança genética e com idades astrais diferentes. Quanto mais “idade” tivermos, mais experiências somamos. Sabe-se que os gênios mais conhecidos da humanidade, desde cedo, demonstraram ter conhecimentos incompatíveis com sua idade cronológica. Diz-se que são “almas velhas”, muito vividas, que ultrapassaram os padrões vigentes. Sabem mesmo sem aprender e têm uma criatividade muito acima da normal. A idade astral é a idade mental. Idade da consciência, é o conjunto de características que faz aquele indivíduo único.

É a reunião de dados peculiares àquela pessoa que o singulariza entre todos os outros, tais como: nível de maturidade, de sensibilidade, de percepção, de capacidade e interesse em aprender, o grau de participação no mundo e o nível de inteligência. A inteligência, assim como todos os outros dons inatos, são elementos subjetivos. Até hoje, com todo o avanço da ciência, não se pode mensurá-la quantitativamente”
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Do livro: Astrologia e Budismo - conversa entre dois saberes milenares.
M. Eugenia de Castro & Gustavo Alberto Correa Pinto
 Editora Saberes, 2011, Campinas, SP.


A IMPORTÂNCIA DOS SONHOS


                                                                      

“Quando aconselho meu paciente: Preste atenção em seus sonhos”, quero dizer o seguinte:  “Volte ao ser mais subjetivo, à fonte de sua existência, aquele lado onde você faz história do mundo sem o perceber. Sua dificuldade aparentemente insolúvel deve, evidentemente, ser insolúvel para que você não continue procurando remédios que sabemos de antemão serem ineficazes. Os sonhos são expressão de seu ser subjetivo e, por isso, podem mostrar-lhe  atitude errônea que o levou para esse beco sem saída”. 

Realmente os sonhos são imparciais, não sujeitos ao arbítrio da consciência, produtos espontâneos da psique inconsciente. São pura natureza, e, portanto, de uma verdade genuína e natural, são mais próprios do que qualquer coisa a devolver-nos uma atitude condizente coma natureza humana quando nossa consciência se afastou por demais de seus fundamentos e atolou numa situação impossível.
Ocupar-se com os sonhos é uma espécie de tomada de consciência de si. Não é a consciência do eu que se dá conta de si mesmo,  mas ocupa-se com o dado objetivo do sonho como um comunicado ou mensagem da psique inconsciente e oni-unitiva da humanidade. A gente se dá conta não do eu, mas sim daquele si-mesmo estranho que nos é próprio, que é nossa raiz da qual brotou, em dado momento, o eu. Ele nos é estranho porque dele nos alheamos através do extravio da consciência.

... Considerando a infinda variabilidade dos sonhos, é difícil conceber que haja um método, ou seja, um caminho tecnicamente organizado que leve a resultados infalíveis. E é bom que não haja método válido, pois nesse caso o sentido do sonho já seria limitado de antemão e perderia precisamente aquela virtude que o torna tão útil aos objetivos psicológicos, isto, sua capacidade de oferecer um novo ponto de vista.

                                                                                    ... A arte de saber interpretar sonhos não se aprende nos livros. Métodos e regras são bons quando a gente consegue se virar também sem eles. Um verdadeiro saber só o tem quem sabe, e bom senso só tem o sensato. Quem não conhece a si mesmo não pode conhecer o outro. E em cada um de nós existe um outro que não nós não conhecemos. Fala-nos pelo sonho e nos diz quão diferente ele nos vê do que nós nos vemos. Se nos encontrarmos, pois, em situação de difícil solução, o outro estranho pode acender uma luz que muda radicalmente nossa atitude, exatamente aquela atitude que nos levou à situação difícil.”

Carl Gustav Jung, em “ Civilização em Transição”,  capítulo VII, editora Vozes.
Foto: escritório de Jung. 

ÁRVORE, SÍMBOLO SAGRADO



 Sra. Baumann: Eu achei muito interessante que na mitologia pré-histórica da ilha de Creta, da qual praticamente nada é conhecido, haja outro exemplo de uma árvore do mundo. Em uma foto em um anel de ouro chamado “Anel de Nestor”, a árvore é retratada em conexão com cenas no submundo.
O tronco da árvore e dois grandes ramos dividem a imagem em quatro cenas.No primeiro, há duas borboletas e duas crisálidas sobre a cabeça da Deusa Mãe, e elas parecem representar as almas de um homem e uma mulher que se cumprimentam com surpresa.
Na parte inferior da imagem há uma cena de julgamento, e a Deusa Mãe está em pé atrás de uma mesa na qual um grifo está sentado, enquanto as almas são trazidas diante dela por estranhos seres com cabeça de pássaro.

Outro ponto é que, em algumas das sepulturas, foram encontradas escamas em miniatura feitas de ouro. Eles são tão pequenos que devem ser simbólicos, e uma borboleta é gravada em cada um dos discos de ouro que formam o equilíbrio, então parece que as almas eram pesadas como borboletas, não como corações como no Egito.
O maior desenvolvimento da civilização minóica em Creta foi contemporâneo do Egito, seus primórdios remontam a 3000 aC.

Prof Jung: Essa é uma contribuição notável para o simbolismo da árvore e da borboleta.
Você se lembra que Nietzsche aplica a si mesmo aquele símbolo da borboleta - muito apropriadamente, porque ninguém vai além do mundo, fora do campo da gravidade, onde ele pode ver o mundo como uma maçã, a menos que ele se torne uma alma. É preciso ser uma espécie de fantasma para chegar a essas distâncias.
Para sair do corpo e se tornar o espírito ou a própria alma, denota uma espécie de ekstasis.
Agora, temos várias associações sobre essa árvore, e devemos tentar entender o que significa praticamente quando Nietzsche alcança o promontório, o fim de seu mundo, o fim de sua consciência e encontra ali a árvore.
Você já ouviu falar que a árvore é sempre o símbolo do fim e também do começo, do estado diante do homem e do estado depois do homem.                          

Sr. Bash: A árvore não seria o símbolo do coletivum do qual o homem é diferenciado e no qual seus elementos se dissolvem?

Prof Jung: Isso é certamente assim, e por que esse collectivum é simbolizado pela árvore?

Sra. Sachs: A árvore significa vida vegetativa.

Prof Jung: Sim. Pode ser a cobra ou qualquer outro animal ou a terra, mas não, é a árvore, e a árvore significa algo específico; esse é um símbolo peculiar.
É a árvore que nutre todas as estrelas e planetas; e é da árvore que vem os primeiros pais, os pais primordiais da humanidade, e em que o último casal, representando também toda a humanidade, está enterrado.
Isso significa, naturalmente, que a consciência vem da árvore e se dissolve novamente na árvore - a consciência da vida humana.
E isso certamente aponta para o inconsciente coletivo e para um coletivo.
Assim, a árvore representa um tipo particular de vida do inconsciente coletivo, a saber, a vida vegetativa, como a Sra. Sachs corretamente disse.
Agora, qual é a diferença entre a vida da planta e a vida do animal?

Senhorita Wolff: Duas coisas. A planta está enraizada no local e é capaz de se mover apenas em crescimento, e então o sistema respiratório da planta é diferente daquele dos animais de sangue quente.

Prof Jung: Sim, uma árvore é incapaz de se mover no espaço, exceto pelo momento de crescimento, enquanto o animal pode se movimentar. E todos os animais são parasitas nas plantas, enquanto a árvore vive nos elementos.
Ou pode-se dizer que a planta é o tipo de vida mais próxima dos elementos, uma transição ou a ponte entre a natureza animal e a inorgânica.

Carl Jung, Seminário de Zarathustra, páginas 1432-1434.

OBS: Arvore em Oaxaca, México, 14 mt diâmetro.

O MAL NA NATUREZA HUMANA



"Se entendemos então que o mal habita a natureza humana independentemente de nossa vontade e que ele não pode ser evitado, o mal entra na cena psicológica como o lado oposto e inevitável do bem.
Essa compreensão nos leva de imediato ao dualismo que, de maneira inconsciente, se encontra prefigurado na cisão política do mundo e na dissociação do homem moderno. O dualismo não advém da compreensão. Nós é que nos encontramos diante de um estado dissociado. Todavia, seria extremamente difícil pensar que teríamos que assumir pessoalmente esta culpa.
 Assim, preferimos localizar o mal em alguns criminosos isolados ou em um grupo, lavando as próprias mãos, e ignorando a propensão geral para o mal. A inocência, porém, a longo prazo não será capaz de se manter porque, como nos mostra a experiência, a origem do mal está no próprio homem e não constitui um princípio metafísico como supõe a visão cristã. Esta visão possui a vantagem de retirar esta dura responsabilidade da consciência moral humana, descolando-a para o diabo a partir do justo entendimento que o homem é bem mais uma vítima da sua constituição psíquica do que o seu voluntário criador. 
Considerando que o mal em nossa época lança tudo que já atormentou a humanidade num mar de sombras, torna-se, de fato, necessário levantar a questão de sua origem e seu modo de ser na medida em que, mesmo nos progressos mais benéficos feitos pela aplicação do poder legal, da medicina e da técnica, os homens se valem de instrumentos de destruição impressionantes, capazes de culminar de uma hora para outra na sua destruição total."
Carl Jung, Presente e Futuro, pp.573, pág. 45. Editora Vozes, Petrópolis - RJ, 1988.

Oráculo de Apolo e a pitonisa



Templo de Apolo em Delfos, Grécia

O modo pelo qual funcionava o oráculo de Apolo e de onde vinham os conselhos que dava, é um assunto fascinante. Infelizmente pouco se sabe a respeito. O santuário era secreto; os que o dirigiam e davam conselhos guardavam segredos sobre seus métodos. Platão conta que a pitonisa, porta-voz de Apolo no templo, era possuída por uma “ loucura profética”.
Dessa ‘“loucura” emergia alguma “ inspiração criativa”, segundo Platão, que representava níveis de consciência mais profundos do que os normais. “ À sua loucura” escreve no Fedro, “ devemos os muitos serviços que a pitonisa de Delfos e as sacerdotisas de Dodona prestaram à pessoas e aos Estados da Grécia, pois quando estavam completamente conscientes pouco ou nada faziam”. É a interpretação de um dos aspectos da controvérsia sobre a inspiração – até que ponto a criatividade vem da loucura?

Apolo falava na primeira pessoa, através da pitonisa. A voz desta alterava-se, tornava-se áspera, gutural e trêmula como a dos médiuns modernos. Diziam que o deus entrava no corpo da pitonisa no momento do ataquem ou do entusiasmo, como sugere literalmente a origem da palavra, em-theo (“ em deus”).

 ....O que realmente nos interessa é a função do santuário como um símbolo comunal, que tinha o poder de trazer à tona o pré-consciente e o inconsciente coletivo. O aspecto comunal, coletivo de Delfos tinha bases sólidas: o templo foi, a principio, dedicado às deusas da terra, e só mais tarde a Apolo. É coletivo também no sentido de que Dionísio, o oposto de Apolo, tinha grande influência em Delfos.
.. Qualquer símbolo genuíno, acompanhado do respectivo rito cerimonial, torna-se o reflexo das inspirações, das novas possibilidades, da nova sabedoria e de outros fenômenos psicológicos e espirituais, que não nos atrevemos a experimentar por nós mesmos..

De que modo eram interpretados os conselhos das sacerdotisas? É o mesmo que indagar de que modo se interpreta um símbolo. As previsões da pítia eram sempre expressas em linguagem poética, “ com exclamações arrebatadas e onomatopaicas, misturadas à linguagem comum, e essa matéria prima tinha de ser interpretada e organizada”. Como as informações mediúnicas de todos os tempos, eram suficientemente enigmáticas não só para permitir, como para necessitar interpretação. E sempre eram suscetíveis de duas ou mais interpretações diferentes...

                                                                                 A orientação de Delfos não era conselho no sentido rigoroso da palavra, e sim um estímulo para que o indivíduo e o grupo se analisassem, consultando a sua própria intuição e sabedoria. Os oráculos colocavam o problema sob um novo ponto de vista, num novo contexto onde possibilidades ainda não imaginadas se tornavam evidentes. É um erro pensar que esses oráculos, bem como a psicologia moderna, façam com que o indivíduo se torne mais passivo. Isso significaria erro terapêutico e interpretação falsa dos objetivos do oráculo. Fazem exatamente o contrário; levam o individuo a reconhecer as suas possibilidades, trazendo à luz novos aspectos de si mesmos e do seu relacionamento com os outros. Esse processo abre as portas da criatividade. Faz com que o indivíduo  se volte para os seus mananciais criativos”.

Rollo May em: A coragem de criar – Editora Nova Fronteira.

ATUALIDADE DE CARL G. JUNG


Por Jung no ano de 1916, ainda tão atual
"..Nada mais apropriado do que os processos psicológicos que acompanham a guerra atual — notadamente a anarquização inacreditável dos critérios em geral, as difamações recíprocas, os surtos imprevisíveis de vandalismo e destruição, a maré indizível de mentiras e a incapacidade do homem de deter o demônio sanguinário para obrigar o homem que pensa a encarar o problema do inconsciente caótico e agitado, debaixo do mundo ordenado da consciência.
 Esta Guerra Mundial mostra implacavelmente que o homem civilizado ainda é um bárbaro.
Ao mesmo tempo, prova que um açoite de ferro está à espera, caso ainda se tenha a veleidade de responsabilizar o vizinho pelos seus próprios defeitos. A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá.
Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo. Em tempo algum, meditar sobre si mesmo foi uma necessidade tão imperiosa e a única coisa certa, como nesta catastrófica época contemporânea.
Mas quem se questiona a si mesmo depara invariavelmente com as barreiras do inconsciente, que contém justamente aquilo que mais importa conhecer."
Carl Gustav Jung, durante a Primeira Guerra Mundial.
Küsnacht—Zurich, dezembro de 1916, 


BERT HELLINGER: A VIDA

                                                                        
“A vida” por Bert Hellinger

“A vida decepciona-o para você parar de viver com ilusões e ver a realidade.
A vida destrói todo o supérfluo até que reste somente o importante.
A vida não te deixa em paz, para que deixe de culpar-se e aceite tudo como “É”.

A vida vai retirar o que você tem, até você parar de reclamar e começar a agradecer.
A vida envia pessoas conflitantes para te curar, pra você deixar de olhar para fora e começar a refletir o que você é por dentro.
A vida permite que você caia de novo e de novo até que você decida aprender a lição.

O caminho  lhe apresenta encruzilhadas, até que você pare de querer controlar tudo e flua como um rio.
A vida coloca seus inimigos na estrada, até que você pare de “reagir”.
A vida te assusta e assustará quantas vezes for necessário, até que você perca o medo e recupere sua fé.
A vida tira o seu amor verdadeiro, ele não concede ou permite, até que você pare de tentar comprá-lo.
A vida lhe distancia das pessoas que você ama, até entender que não somos esse corpo, mas a alma que ele contém.
A vida ri de você muitas e muitas vezes, até você parar de levar tudo tão a sério e rir de si mesmo.
A vida quebra você em tantas partes quantas forem necessárias para a luz penetrar em ti.
A vida confronta você com rebeldes, até que você pare de tentar controlar.
A vida repete a mesma mensagem, se for preciso com gritos e tapas, até você finalmente ouvir.
A vida envia raios e tempestades, para acordá-lo.


A vida o humilha e por vezes o derrota de novo e de novo até que você decida deixar seu ego morrer.
A vida lhe nega bens e grandeza até que pare de querer bens e grandeza e comece a servir.
A vida corta suas asas e poda suas raízes, até que não precise de asas nem raízes, mas apenas desapareça nas formas e seu ser voe.
A vida lhe nega milagres, até que entenda que tudo é um milagre.
A vida encurta seu tempo, para você se apressar em aprender a viver.
A vida te ridiculariza até você se tornar nada, ninguém, para então tornar-se tudo.


A vida não te dá o que você quer, mas o que você precisa para evoluir.
A vida te machuca e te atormenta até que você solte seus caprichos e birras e aprecie a respiração.
A vida te esconde tesouros até que você aprenda a sair para a vida e buscá-los.
A vida te nega Deus, até você vê-lo em todos e em tudo.
A vida te acorda, te poda, te quebra, te desaponta… 

Mas creia, isso é para que seu melhor se manifeste… até que só o AMOR permaneça em ti.”
                                                                               

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IMAGINAÇÃO ATIVA



    "Jung jamais pensou em manter para si as suas descobertas a fim de aumentar o próprio prestígio. Em vez disso, ensinou essa maneira de lidar com o inconsciente,que denominava "imaginação ativa" a muitos de seus pacientes.

Em princípio, a imaginação ativa consiste em suspender a faculdade crítica e permitir que as emoções,afetos,fantasia, pensamentos obsessivos ou até imagens de sonho desperto emerjam do inconsciente, confrontando-as como se estivessem objetivamente presentes.
 Esses conteúdos se exprimem com freqüência de modo solene ou pomposo,"uma infernal mistura do sublime e do ridículo",razão porque,a princípio, a consciência pode se sentir chocada e inclinada a descartar tudo como falta de sentido. A ansiedade pode provocar uma espécie de "paralisia" consciente, ou a pessoa pode penetrar fundo demais no inconsciente e cair no sono.
 Um confronto alerta e vívido com os conteúdos do inconsciente é,no entanto,a própria essência da imaginação ativa. Isso requer um compromisso ético em relação às manifestações vindas do interior,para não se cair vítima do princípio do poder e para que o exercício da imaginação não seja destrutivo,tanto para os outros como para o sujeito.

Fantasias podem ser objetivadas por meio do seu registro escrito, por meio do desenho, da pintura (o que é mais raro) da dança alusiva a elas. Um diálogo escrito é a modalidade mais diferenciada disso e costuma levar a melhores resultados.
                                                                                                        Uma ênfase demasiado unilateral na qualidade estética da imagem obstrui a realização do seu SIGNIFICADO, devendo por isso ser evitada segundo Jung. A impaciência para chegar ao significado com a maior rapidez possível deve ser combatida por intermédio da paciente atenção para com o aspecto formal. Mas quando as duas preocupações operam juntas de modo rítmico, a função transcendente, que labuta para unir consciente e inconsciente, age mais efetivamente.

A imaginação ativa é o mais eficaz instrumento por meio do qual o paciente pode tornar-se independente do terapeuta e apreender a seguir os próprios passos. Todavia, nesse caso,ele deve fazer o próprio trabalho interior, visto que ninguém pode fazer por ele. Quem passar a fazê-lo começará a compreender que toda fantasia é um processo ou experiência psíquicos genuínos, e que ele se torna dessa forma um protagonista, agente e paciente de um drama interior.

Mas se apenas contemplar as imagens interiores, nada vai acontecer. É preciso entrar no processo com as próprias reações pessoais.
Se se "compreendem" as imagens e se pensa que o processo se dá pela via da cognição, sucumbe-se a um perigoso erro. Porque todo aquele que não consegue tomar a própria experiência como compromisso ético é vitimado pelo princípio do poder. 


Se, por outro lado, se penetra genuinamente nos acontecimento interiores com o espírito sóbrio e com compromisso ético, fazendo-se uma série de busca de uma consciência maior, o fluxo de imagens interiores começa a contribuir para a integralidade da pessoa, isto é, para a individuação e para a criação de uma segurança interior dotada de força suficiente para resistir às arremetidas dos problemas interiores e exteriores.

 "Somente ele pode reivindicar genuinamente a autoconfiança, porque enfrentou o solo escuro do seu eu e assim, conquistou a si mesmo."

Marie-Louise von Franz: “JUNG SEU MITO EM NOSSA ÉPOCA”. Editora Cultrix
Marc Chagall: La vie Paysanne, 1925


SOBRE NEUROSE


 NEUROSE

O mal do nosso tempo e a neurose são o anti-regozijo. O neurótico não se compraz com nada, a começar consigo próprio – que é a fonte do “sumo de mim”. E nem com o outro. Então, o que é a neurose? A neurose é uma deformação do estado das coisas, é um funcionamento às avessas. Quer dizer: eu como para me satisfazer. Sou neurótico? Como e sinto culpa. A neurose altera o dado e seu signo; é um funcionamento perverso, porque fica tudo pelo avesso. Os males são bem conhecidos: culpa, inferioridade, frustração, carência, ansiedade, incompetência, irritação, ineficiência, etc. Se estou neurótico, estou funcionando contra a corrente, contra o fluxo e contra o sentido das coisas. Quer dizer, é algo que tem que ser trabalhado para ser alterado. Jung foi breve: “ O neurótico é um desadaptado de si mesmo”. É um anti-ser, de viés, a contrapelo.

Acredito que o ser humano é capaz de serenidade, regozijo, amorosidade, solidariedade, compaixão, criatividade, ética, reparação, e mais valores que se queira acrescentar à lista. Se não acreditasse nisso, não faria sentido exercer o ofício que escolhi.

Não sei qual é o telos, a finalidade da natureza. Se pensarmos darwinianamente, lembraremos que a vida começou por acaso, e que um protozoário acabou de desdobrando até cobrir de vida um planeta. Mas não sei qual é a finalidade deste processo. Sei que transcorre sem cessar há mais de dois bilhões de anos. Para onde vai a nave, se a humanidade tende a uma melhora, a uma evolução... eu não sei, está além de mim, não posso falar nisso.

                                                                                                        Agora, nós, que somos macacos um pouco mais aptos, com nossa capacidade de representar e de ter idéias, combina com nossa vida termos um telos, uma meta, uma utopia que seja. E minha proposta é simplesmente poder dizer: que nos tornemos seres humanos melhores. É uma escolha. Para mim está bom. Fico muito inquieto ao ouvir “ Ah, minha meta é aprender a lidar com frustração”. 
Para mim é pouco. Agora, se você escolheu isso para a sua vida, é assim que você viverá. Se eu disser que a minha imagem de vida é que esta se regozija consigo própria, e que pode criar maravilhas, está bom, não está?

Roberto Gambini em “ Voz e o Tempo – Reflexões para jovens terapeutas”, Atel Editorial.

Foto: Paula Stéfani
Imagem: Carin Welz-Stein