58 anos da morte de Carl G. Jung


Seis de junho de 2019: 58 anos sem e com JUNG

Tereza Kawall
Há exatos 58 anos, partia desse mundo um espírito iluminado.
Para mim, o mestre, o sábio de Zurich, Carl G. Jung foi e sempre será como um farol a brilhar em noites escuras. Em meio às tempestades ou em mares pacíficos lá está ele, sempre nos direcionando no decifrar das riquezas, sombras, mistérios ou possíveis naufrágios da psique humana. Na duríssima tarefa de integração do Bem e do Mal dentro dos nossos corações.

Vejo nas fotos desse homem altivez, curiosidade, melancolia, curiosidade, inquietação. Vejo um amor profundo pela alma humana, pelo sofrimento dos homens, que ele tão bem soube “escanear” com sua inteligência e sensibilidades ímpares.

Vejo nelas o seu amor pelos livros, pela cultura de nossos antepassados, que mergulharam no mundo simbólico, sagrado, mágico e esotérico. Homens que há milênios iluminaram o caminho de seus semelhantes com a construção de um tipo de saber que pudesse trazer consolo, motivação ou significado para as suas existências. Adentrando esses conhecimentos, Jung atravessou os desertos da solidão e da incompreensão, uma vez que em sua época eles eram tidos como não científicos, obscuros ou mesmo inúteis. Mas sua disposição para a pesquisa, e sua obstinação com a verdade de revelações advindas do mundo dos símbolos e do inconsciente foram realmente extraordinárias.

Vejo em suas fotos humor, ironia, sagacidade, uma força solar, a centelha da criatividade que construiu uma teoria fascinante, cujos princípios teóricos ecoaram tanto no Oriente quanto no Ocidente, e assim mobilizando a atenção e o interesse de estudiosos em várias áreas do saber. Em suas cartas vemos uma grande disponibilidade afetiva e intelectual para ouvir e dialogar com todos, compartilhando suas experiências, descobertas ou dúvidas, esparramando generosamente, para quem quisesse, a preciosidade de suas experiências tanto pessoais  quanto profissionais.
                                                                                                                               
“Ao estudar intensamente a religiosidade humana, a Alquimia, a Astrologia, a mitologia, o   I Ching e as chamadas ciências herméticas, Jung imprimiu mais humanidade à sua forma de fazer ciência. Jung fez severas críticas à sociedade contemporânea, à massificação e à uniformidade que produzem a mediocridade no homem. Na sua visão, o culto da “Deusa Razão” causou a fragmentação do conhecimento em detrimento da alma e da subjetividade do homem, afastando-o de seu mundo mítico e divino”.(*)

Sua mente aberta e perspicaz alcançou altíssimos níveis de percepção e de sabedoria a respeito do homem, de um cosmos inteligível, da espiritualidade e de Deus. Não por acaso, na entrada de sua casa em Küsnacht vemos a inscrição: “Vocatus atque non vocatus, Deus aderit”, que quer dizer “Invocado ou não, Deus está presente”.

Creio que só entenderemos o “ tamanho” de Carl G. Jung neste atual século XXI. Suas idéias e sua obra atravessarão gerações, dada a sua dimensão filosófica, universal, arquetípica e espiritual, de que tanto precisamos avançar em direção a um processo evolutivo e, sobretudo, em direção a nós mesmos.

(*) Livro: Astrologia - Os doze portais mágicos, editora Talento, São Paulo.
 Signo de Leão escrito por Tereza Kawall.


                                                             


PASSEATA E ESPERANÇA



Tereza Kawall

Vivemos nos últimos anos uma espécie de aventura num tobogã emocional ( para muitos um trem-fantasma) com o desvelamento de infinitas e contínuas ações espúrias e obscenas dentro das instituições do nosso pais, vale dizer, os três poderes, bancos, grande empresários e muitos outros agentes da nossa sociedade. Diariamente ainda ficamos chocados com notícias que nos falam de um assalto contínuo e generalizado aos cofres do país, e cujos valores estratosféricos escapam à nossa contabilidade cotidiana. A sensação de impunidade ainda é altíssima, e nosso ir e vir tem sido restringido pelo medo da falta de segurança nas ruas, ter tantas outras mazelas sociais. 
A Internet e celulares em todas as mãos fizeram acelerar esse processo de forma exponencial. Uma avalanche de informações mais transparentes a respeito do modus operandi da classe política nos obrigou a definir posições mais objetivas e a defendê-las, com maior ou menor intensidade. Uns de forma mais agressiva e contundente; outros, de maneira mais light ou mesmo isenta. E outros, por receio de exposição face à constrangimentos profissionais, mantém suas posições de forma mais reservada.
Há que se respeitar todas as maneiras de expressão frente a esse momento difícil, turbulento e enganoso, onde todos fazem das redes sociais a sua própria tribuna. Todos querem falar, e isso é democracia. Esperar equilíbrio, coerência e discernimento de tudo e todos seria  impossível.

Entendo que uma lufada de esperança apareceu para nós brasileiros com a chegada da operação Lava Jato, que já conseguiu fatos inéditos e extraordinários no âmbito da justiça para muitos daqueles que eram antes intocáveis. Aos poucos pudemos assistir e mesmo vivenciar uma nova consciência de cidadania em muitos indivíduos que como eu, nunca deram muita atenção à vida política.

As experiências coletivas sempre acabam por nos transmitir algo relevante, e que vão bem além daquilo que os cinco sentidos podem depreender em nosso pragmático cotidiano. Falo assim sobre esse nosso “Zeitgeist” brasileiro, que hoje move sonhos e paixões de forma passional e bastante positiva. Ao participar de inúmeras passeatas pró-Brasil, sempre me chama a atenção a verve das pessoas, a resposta emocional de cada um, seja em sua roupa, adereços, cartazes, palavras de ordem do dia. Tudo é muito vibrante, seja no olhar cúmplice, na selfie compartilhada, nos abraços, no respeito ao canto do hino nacional. É bom aprender a amar nosso país, uma vez que o pertencimento faz parte de nossas necessidades mais profundas, intrínsecas e arquetípicas: família, lar, pátria, raízes. (Aqueles que por um motivo ou outro moram ou estão fora de seu país de origem o sabem bem).

                                                                                                 Nas passeatas está estampada de forma inequívoca a esperança. Ela está nas roupas verdes e amarelas, nas bandeiras de todos os tipos e tamanhos; está nas crianças, nas famílias ali presentes, nos adolescentes,  nos adultos, nos idosos até em cadeira de rodas, nas pessoas de todas as classes sociais. Naquele grande asfalto está toda a diversidade de tipos humanos, juntos numa espécie de oceano de emoções e desejos não muito escondidos. Há uma atmosfera de alegria que é difícil descrever, mas creio que tem a ver a com a seguinte percepção: “não estou sozinho” ou “não estamos sós em nossas reivindicações”.

No mito grego de Epimeteu e Pandora, sabemos que esta curiosa e inadvertidamente abriu a caixa de havia recebido de Zeus, mesmo sabendo que seu cunhado Prometeu a tivesse aconselhado a não abri-la. Foi nesse instante da abertura que saíram e se espalharam pelos quatro cantos do mundo todas as maldades da humanidade: dores, misérias, doenças, insanidades, mentiras, corrupção, velhice e catástrofes. Rapidamente Pandora a fechou e a única coisa que lá ficou escondida ou guardada foi a esperança.

Ainda que muitos digam: Ah, isso é só um mito, eu devo dizer: ainda bem que nós os temos, pois essas narrativas estão há milênios sempre vivas e pulsantes em cada um de nós. Se assim não fosse, a “ Pandora” ou a esperança dentro de nós, possivelmente não mais lutaríamos por nada. A vida é feita de sobressaltos, perdas inexoráveis. E também de alegrias, conquistas e superações. Apesar de tudo, de todos e de nós mesmos, frágeis, inacabados, erráticos e imperfeitos, seguimos lutando.

A cada dia vivido, a esperança é novamente guardada na “ caixinha” do nosso coração; sem ela como viver? Não me refiro à esperança como o verbo esperar, mas sim como a “fé construtiva”, ou “o sonho que age”, o fogo vital da vontade criativa que nos move continuamente, em nossos altos e baixos, erros e acertos, em direção a futuras realizações.

OBS: Zeitgeist vem do alemão, que significa “ o espírito de uma época”.


SANTUÁRIOS DA DA VIDA II

Herman Hesse (1877-1962) -- A ÁRVORE

“Nada é mais sagrado, nada é mais espetacular, que uma linda árvore. Quando uma é cortada, ela mostra a todos sua história, através da ferida mortal exposta ao sol, no disco de seu tronco, nos anéis dos anos. Em suas cicatrizes, mostra toda a luta para crescer, mostra suas doenças, seu sofrimento, suas alegrias e prosperidade. 

Mostra também os ataques enfrentados e a sobrevivência às grandes tempestades. E qualquer garoto do campo sabe que a melhor madeira tem os anéis mais estreitos e que no alto das montanhas, nos lugares mais perigosos, nascem as árvores mais formidáveis e indestrutíveis.”


Uma árvore diz: uma semente se esconde em mim, uma faísca, um pensamento, uma possibilidade imensa. Sou a vida da vida eterna. A tentativa e o risco que a Mãe corre comigo é único e particular. Minhas veias, meu tronco, as cicatrizes em minha casca, são exclusivos, assim como são singulares minhas folhas e seus jogos com o vento. Fui feita para refletir o eterno em seu mais minucioso detalhe.”



“A árvore diz: a minha força é a fé. Nada sei sobre meus pais nem sobre as milhares de crianças que cada ano despontam em mim. Vivo o segredo de minha semente até o limite. E nada mais me importa. Confio no Deus, na inteligência suprema, que existe em mim. Confio na natureza sagrada do que faço. Nesta fé eu vivo.”


“Quando somos acometidos por algum problema insolúvel e nossas vidas se tornam terríveis, a árvore nos aconselha: “Aquiete-se!! Olhe para mim, me escute! A vida não é fácil. Mas também não é difícil. Deixe que Deus fale dentro de você, como eu faço todos os dias, e seus pensamentos se aquietarão. Você está ansioso porque seu caminho o leva para longe de sua casa. Mas cada dia, mesmo que indiretamente, você está mais perto de sua casa, de seu lar. Sua casa não é aqui nem lá. Sua casa está dentro de você – senão, não está em lugar algum.”



“Ouço a árvore me chamando à noite, com o barulho de suas folhas ao vento. Bem quando começo a ter pensamentos infantis, causando-me angústia. Árvores tem pensamentos profundos, com respiração profunda, pensamentos doces e calmos, com duração muito superior à dos nossos pensamentos. São mais sábias que nós só até aprendermos a escutá-las. Quando as escutamos, a efemeridade de nossas preocupações se transforma em uma alegria inexplicável. Aí deixamos de querer ser como elas. Queremos ser nada além do que de fato somos. Este é o nosso lar – ser quem somos. Aí está toda a nossa felicidade.
Herman Hesse (1877-1962) extraordinário escritor alemão, naturalizado suíço, autor de, entre outros, “Sidarta” (1922), ganhador do Premio Nobel de Literatura em 1946. Li “Sidarta”, em 1973, livro fundamental pra mim. 

Relendo o Hesse agora, descobri a imensa sabedoria e beleza no que escreve:



“Para mim as árvores tem sido sempre os mestres mais formidáveis de minha vida. Adoro quando as encontro em tribos – em florestas e matas. Gosto ainda mais quando as encontro sozinhas. São como pessoas solitárias. Mas não como eremitas, fugindo do convívio com os outros, por causa de alguma fraqueza. São como grandes homens, como Beethoven ou Nietzsche. 

Seus galhos mais elevados alcançam as estrelas e suas raízes mais profundas encontram o centro da Terra. Mas, nem em sua profundidade nem em sua elevação, se perdem. Continuam lutando com toda força por uma coisa: ser quem tem que ser, de acordo com suas próprias leis. Crescem para demonstrar quem são, para serem representadas no mundo.”
 I

ÁRVORES SÃO SANTUÁRIOS


                                                                 

 HERMANN HESSE

As árvores são santuários. Quem pode falar com elas, quem sabe ouvir, aprende a verdade. Elas não pregam doutrinas e receitas, pregam, indiferentes ao pormenor, a lei primitiva da vida.
Uma árvore diz: se em mim se esconde um núcleo, uma faísca, um pensamento, eu sou vida na Vida eterna. É única a tentativa, a criação, que ousou em mim a Mãe eterna. Única é a minha forma e as veias da minha pele, único é o jogo mais insignificante das folhas de minha copa e a menor cicatriz da minha crosta. Minha missão é moldar e apresentar o eterno em minhas marcas exclusivas.

Uma árvore diz: a minha força é confiança. 
Não sei nada sobre os meus pais, eu não sei nada sobre os milhares de filhos vindos de mim, todos os anos. Vivo, até o final, o segredo de minha semente, não tenho outra preocupação. Confio que Deus está em mim. Confio que minha tarefa é sagrada. E eu vivo em confiança.

Quando estamos tristes e quase não podemos suportar a vida, uma árvore pode falar conosco também: fique quieto! Fique tranquilo! Olhe para mim! A vida não é fácil, a vida não é difícil. Estes são pensamentos infantis. Deixe Deus falar dentro de ti e, em seguida, eles emudecerão. Você está triste porque no seu caminho você separou-se da mãe e da pátria. Mas a cada passo e cada dia você está mais perto da mãe. Pátria não é aqui nem lá. Pátria é dentro de si mesmo, ou em nenhuma parte.

Isto sussurra a árvore ao entardecer, quando estamos com medo dos nossos pensamentos infantis. As árvores têm pensamentos ampliados, prolixos e serenos, bem como uma vida mais longa do que a nossa. Elas são mais sábias do que nós, embora nós não as ouvimos.
Mas quando aprendemos a ouvir as árvores, logo, a velocidade e a infantilidade dos nossos pensamentos tomam uma alegria sem precedentes. Quem aprendeu a ouvir as árvores, já não quer ser uma árvore. Não quer ser mais do que o que é. Esta é a pátria. Isto é a felicidade. 

Árvore em Oaxaca, México, 14 mt de diâmetro.



“Ser é fazer e criar.
Nossa existência, porém, não depende unicamente de nossa vontade própria, porque nosso fazer e criar dependem em grande parte do domínio do Inconsciente. Eu não estou somente projetando-me a partir do meu ego, mas também fui feito para ser criativo e ativo; permanecer imóvel é bom apensas para alguns que foram demasiado ativos ou erradamente ativos. Caso contrário, é um artifício não natural que interfere necessariamente com nossa natureza.

Crescemos, florescemos e murchamos, e a morte é quietude última, ou assim parece ser. Mas muito depende do espírito, isto é, do sentido ou significado segundo o qual fazemos e criamos ou, em outras palavras, do sentido segundo o qual vivemos. Esse espírito expressa-se ou manifesta-se numa Verdade, que é inequívoca e absolutamente convincente para a totalidade do meu ser, embora o intelecto, em seu perambular sem fim, continuará sempre com  seus “mas” e seus “talvez”, que, contudo, não deveriam ser suprimidos , mas sim recebidos como ocasiões para aperfeiçoar nossa Verdade....
                                                                                                                       Essa é a razão porque procuro encontrar a melhor Verdade e a luz mais clara. E uma vez alcançado esse ponto mais alto, não posso ir além.
Guardo minha luz e meu tesouro, convencido de que ninguém sairia ganhando – e eu mesmo seria ferido sem esperança – se a perdesse. Ela é o que há de mais alto e precioso, não apenas para mim como também, sobretudo, para a escuridão do Criador, que necessita do Homem para iluminar sua Criação. Se Deus houvesse previsto inteiramente seu mundo, este seria uma mera máquina sem sentido e a existência do homem um inútil capricho. O Intelecto pode vislumbrar a última necessidade, mas a totalidade do meu ser diz “ Não” a isso.....
Sinceramente seu,
 C.G. Jung”

Carta de JUNG para Miguel Serrano, em “O Circulo Hermético”, 1960. Editora Brasiliense.

ANIMUS E O PAI



   “De maneira normal o homem somente chega a conhecer a sua anima quando a projeta; o mesmo se dá com a mulher e seu Sol escuro. Se ela tem Eros em ordem, também seu Sol não será escuro demais, e o portador correspondente dessa projeção talvez até signifique uma compensação útil.  Se houver algo errado com Eros ( infidelidade ao próprio amor!) então corresponde à escuridão de seu Sol uma pessoa masculina possuída pela anima, “ que tira do barril para servir” um espírito de qualidade inferior, tão embriagante como álcool forte.

O Sol escuro da psicologia masculina feminina está relacionado com a imagem do pai, pois de fato é o primeiro a encarnar para ela a imagem do animus; é ele quem dá conteúdo e forma a essa imagem virtual, pois ele, em virtude do seu Logos se torna para a filha a fonte do “ espírito”.

 Lamentavelmente, o jorro dessa fonte também pode turvar-se, quando se deveria supor aí água cristalina. O espírito que serve à mulher não é realmente um puro intelecto, mas é mais do que isso: é uma atitude,  isto é, um espírito no qual se vive. Também um espírito por assim dizer “ ideal” nem sempre é o melhor, se ele simultaneamente não entender também como lidar de modo correto com a natureza, ou respectivamente com o homem-animal; isto aliás seria o ideal.      

Todo pai tem, pois, sob todos os aspectos, ocasião suficiente para estragar não pouca coisa no ser mais íntimo de sua filha, o que depois tem de ser tratado pelo educador, pelo marido e pelo médico em caso de neurose. A razão é que “o que foi estragado pelo pai somente por outro pai poderá ser restaurado, e “o que foi estragado pela mãe por outra mãe pode ser reparado. O que nos é dado observar nesse domínio poderíamos designar como pecado original psicológico, ou como maldição de atridas, que atua atrevais das gerações.
 Ao julgar criticamente tais coisas, ninguém se considere tão seguro se respeito do bem quanto do mal...... (várias referencias sobre a questão do bem e do mal na humanidade)
Estas alusões devem bastar para de certo modo indicar como deve ser aquele espírito de que a filha necessita: são verdades que falam à alma, são coisas que jamais se manifestam com voz forte e com insistência, mas que atingem cada um que percebe o sentido do mundo. De tal saber precisa a filha para que ela o passe adiante a um novo filho”.

Carl Gustav Jung
CW XIV, Mysterium Coniunctiones, editora Vozes, RJ.

O CASAMENTO SAGRADO DO SOL E DA LUA


                                                                              
Sol e Lua , o rei a rainha na Alquimia

Luna, como já foi cabalmente mencionado, é o oposto do Sol; por isso é fria, úmida, de luz fraca até à escuridão, feminina, corpórea, passiva, etc. De acordo com isso, seu papel mais importante é o de ser a parceira do Sol na conjunção. Como uma divindade feminina de brilho suave, é ela a amante. Já Plinius a chama  de “ femininum  ac molle sidus” ( astro feminino e suave). É sóror e sponsa ( irmã e noiva),  mater e uxor  Solis,  (mãe e mulher do Sol). Para ilustrar o relacionamento entre o Sol e a Lua, gostavam os alquimistas de empregar o Cântico dos Cânticos, como por exemplo a Aurora Consurgens I em suas “ confabulationes dolecti cum dilecta” ( conversas do amado com a amada).

Em Atenas, o dia de lua nova era considerado a data mais favorável para o casamento, também é a tradição árabe casar-se na lua nova; o Sol e a Lua são cônjuges que se abraçam no 28º dia. De acordo com essa concepção antiga, a Lua é um vaso do Sol: Luna é um receptáculum universale omnium, principalmente do Sol, e é chamada também de “ infundibulum terrae” ( funil da Terra) por receber “ as forças do céu e a derramar” ( recipit et  infundit); ou també se diz que a umidade lunar ( lunaris humor) recebe a luz solar, ou que a Lua se aproxima do Sol para “ como que haurir de uma fonte a forma universal e a vida natural”, ou que ela proporciona a concepção do “sêmen natural do Sol” em sua quintessência, o “venter uterus naturae” ( ventre e útero da natureza).

“ Como o Sol físico ilumina e aquece o universo, assim também no corpo humano existe um arcano solar no coração, donde flui vida e calor. “ É pois, com razão, escreve Dorneus “ que ele ( o sol) é chamado o primeiro depois de Deus ( primum post Deum) e pai e gerador de todos, pois nele reside a força que gera e forma etodas as coisas”.

Carl Gustav Jung em: Mysterium Coniunctionis

OBS: Na Lua nova, Sol e Lua estão juntos no céu, é isso que significa uma “conjunção”.

Foto: Eclipse solar, a Lua está na frente do Sol, do ponto de vista da Terra.

O FAROL



  O FAROL

Tereza Kawall

A imagem de um farol sempre nos remete aos símbolos que habitam nossa alma.
Um farol é uma espécie de inspiração para o viver,
Para as inexoráveis turbulências que nos alcançam ao longo da vida,
Quando o mar das emoções se agita, as ondas sobem e descem em vagalhões
Por vezes nos deixam sem fôlego e ou direção.
Quem nunca ficou a deriva de si mesmo, ou não se afogou nessas tempestades  psíquicas?
Mas o farol lá permanece,
Firme e aparentemente indiferente às intempéries externas e internas.
Altivo e resiliente,  bem sabe que tudo é passageiro ou circunstancial,
Pois uma hora os ventos irão se dissipar, as correntes marítimas serão apaziguadas,
O oceano retomará suas ondulações mais suaves
E sobre seu imenso verde-azul, o dia amanhecerá.
Estar em conexão com esse farol interno é ter uma genuína certeza,
De que por mais escuras que sejam as noites,
O sol sempre estará a caminho, iluminando nossa psique,
Relativizando as inquietações noturnas.
Poderia dizer que a matéria prima deste farol é a própria fé,
Mas é provável que isto soe um pouco místico e  idealista demais.
Então eu tentaria salpicar essa fé com alguns condimentos
Tais como a esperança, o otimismo e a entrega.
Ainda assim não me convenço muito desses pressupostos anímicos
Para encontrar uma definição melhor.
O farol para mim é, sobretudo, a altivez do espírito
Com a qual se atravessa uma tempestade
È também a visão do alto e de longo alcance, que nos permite ver tudo e todos
Dentro da perspectiva de que todos os fenômenos, sejam eles celestiais ou infernais
São um longo e contínuo processo de aperfeiçoamento da nossa consciência
Para melhor realizarmos essa grande aventura chamada VIDA
E assim, continuamos a travessia das águas,
Mesmo sem saber aonde exatamente ela nos levará.

28/04/2017

O QUE É UM SONHO?


O que é um sonho?

"O sonho é uma porta estreita, dissimulada naquilo que a alma tem de mais obscuro e íntimo; essa porta se abre para a noite cósmica original, que continha a alma muito antes da consciência do eu e que a perpetuará muito além daquilo que a consciência individual poderá atingir. Pois toda a consciência do eu é esparsa; distingue fatos isolados, procedendo por separação, extração e diferenciação; só o que pode entrar em relação com o eu é percebido.

 A consciência do eu, mesmo quando afloram as nebulosas mais distantes, é feita de enclaves bem delimitados. Toda consciência especifica. Mediante o sonho, inversamente, penetramos no ser humano mais profundo, mais geral, mais verdadeiro, mais durável, mergulhado ainda na penumbra da noite original, quando ainda estava no Todo e o Todo nele, no seio da natureza indiferenciada e despersonalizada. O sonho provém dessas profundezas, onde o universo ainda está unificado, quer assuma as aparências mais pueris, as mais grotescas, as mais imorais".

  “Os sonhos não são invenções intencionais e voluntárias, mas, pelo contrário, são fenômenos naturais que não diferem daquilo que representam. Não iludem, não mentem, não deformam, não encobrem, mas comunicam ingenuamente o que são e o que pensam. Só são irritantes e enganadores senão os compreendermos. 

Não utilizam artifícios para dissimular alguma coisa; dizem à sua maneira o que constitui o seu conteúdo e da maneira mais nítida possível. Mas, quer sejam originais ou difíceis, a experiência demonstra que sempre se esforçam por exprimir algo que o eu não sabe e não compreende.” 

Carl G. Jung, em Memórias, Sonhos, Reflexões, Editora Nova Fronteira, RJ.          

Quadro: O Cavaleiro do Circo, Marc Chagall, 1927       

PARACELSO NA VISÃO DE JUNG


Texto sobre Paracelso do livro : O espírito na arte e na ciência.

“ O médico não deve ser apenas um alquimista, mas também astrólogo, pois um asegunda fonte de conhecimento é o firmamento ou o céu. Em Labyrinthus Medicorum, diz Paracelso: que as estrelas no céu “ devem ser agrupadas” e o médico deveria “ tirar daí a sentença do firmamento”. Sem esta arte de interpretação das constelações astrais, o médico seria um pseudomedicus. Pois o firmamento não é um mero céu estrelado cósmico, mas um corpo que, por sua vez, é uma parte ou o conteúdo do corpo humano e visível. “ Onde está o corpo, diz ele, aí também se reúnem as águias....  e onde se encontra a medicina, si se reúnem os médicos. O corpus do firmamento é o correspondente corpóreo do céu astrológico. “E uma vez que a constelação astrológica possibilita o diagnóstico, indica também a terapia”.

Isto nos leva, sem querer, a pensar na famosa expressão de KANT: “ o céu estrelado sobre mim” e a “lei moral em mim”, cujo “imperativo categórico” psicologicamente falando, substituiu de modo perfeito a heimarmene ( compulsão dos astros) dos estóicos. Não há dúvida de quem nesses caso, a intuição de PARACELSO tenha sido  influenciada pela idéia hermética básica do “céu em cima” e “ céu embaixo”.(*) Em sua concepção sobre o céu interior, ele se baseou numa imagem eterna primordial que foi implantada nele e em todos os homens e torna a aparecer em todos os templos e lugares. Em cada ser humano, diz ele, existe um céu particular, inteiro e intacto.

                                                                                        “Então um criança que é concebida já tem seu próprio céu”  “ Assim como se apresenta o céu, assim é impresso na nascimento”. O homem tem “ seu pai.... no céu e também no ar; é uma criança feita e nascida do ar e do firmamento” Existe uma línea láctea no céu e em nós. A galáxia passa pelo ventre. Os pólos e o zodíaco estão igualmente dentro do corpo humano. “Torna-se então necessário que um médico conheça, entenda e saiba os ascendentes as conjunções, a exaltação dos planetas etc e todas as constelações: conhecendo estas coisas eternamente no Pai, irá conhecê-las em todo homem, mesmo que o numero de homens seja tão grande e que vocês ( médicos) sejam muitos: onde encontrar a saúde, a doença, o começo, a saída, o fim, a morte. Assim o céu é o ser humano e o homem é o céu, e todos os homens um só céu e o céu um só homem”. O chamado Pai do céu é próprio céu estrelado”

... A medicina moderna não pode mais entender a alma como simples apêndice do corpo e por isso começa a levar cada vê mais em consideração o assim chamado “ fator psíquico”. Aproxima-se de certa forma novamente da concepção paracélsica da matéria animada pela psique, resultando daí que todo o  fenômeno espiritual do próprio PARACELSO foi outrora o pioneiro da ciência médica, parece-nos que hoje se tornou o símbolo de uma importante modificação de nossa concepção sobre a natureza da doença e sobre a essência da vida em si”

Palestra proferida por Jung em 1929, no clube literário de Zurique.

(*) PARACELSO conhecia, em todo o caso, o texto da Tabula smaradigna, que é a autoridade máxima da Alquimia da Idade Média. O texto é o seguinte:
Quod est inferius est sicut quod est superius.
Quod est superius est sicut quod est inferius.
Ad perpetranda miracula rei unius”.

Tradução:
“O que está embaixo é como o que está em cima.
 O que está em cima é como o que está embaixo.
 Para realizar  os milagres de uma só coisa”
Carl Gustav Jung, em “ O espírito  na arte e na ciência, CW 15, editora Vozes.