ESPIRITUALIDADE, TRANSCENDÊNCIA E JUNG

 

"Espiritualidade é um termo carregado de significado. Etimologicamente esse conceito está ligado ao termo latino "spiritus= espírito" e significa " cheio de espírito" ou"inspirado/animado" - como orientação ou práxis vital intelectual-espiritual.

A espiritualidade se refere a todas as formas de religiosidade, independentemente de confissões e igreja, e é tida hoje como o conceito superior que abrange uma pluralidade de fenômenos religiosos. Sínteses e associações novas, orientais e ocidentais, surgem em muitos lugares. 

Para Raimon Panikar, a palavra "espiritualidade" é uma reação branda `calcificação das religiões. No extremo oposto de uma espiritualidade ou então religiosidade modificada e aberta para o mundo, observa-se o enrijecimento das aspirações fundamentalistas, como expressão de uma resistência a mudanças e inovações motivadas pelo medo.

A espiritualidade  abarca as religiões e independe das tradições, remetendo, desse modo, às dimensões profundas da experiência que não são perceptíveis em muitas formas de religião.

Afirma Willigis Jäger, mestre zen e monge beneditino: " A religiosidade é um traço básico da nossa natureza humana. Trata-se de tendência profundamente enraizada em nós de abrir-nos para a totalidade e a unidade. Compartilhamos essa tendência com todos os seres vivos, pois ela é força motriz da evolução. Até agora ela se manifestou nas multiformes religiões do mundo, pois fora das religiões durante milênios não houve separação entre religião e espiritualidade. Agora, porém, presenciamos como essa força religiosa está se desvinculando das religiões tradicionais, Encontro cada vez mais pessoas que são religiosas, sem confessar o credo de nenhum religião. Identifico nisso um vestígio da evolução progressiva da consciência".

As experiências espirituais põem as pessoas em contato com âmbitos situados além da consciência cotidiana. Jung fala às vezes do " transcendente-empírico". O próprio Jung precisou lutar por muitos anos  com a religião e imagens de Deus como forças eficazes. Testemunha dessa luta é também o assim chamado Livro Vermelho, o documento de um autoexperimento especial de Jung e de suas explorações do inconsciente.

A transcendência da psique permite experimentar outra "realidade por trás da realidade'. Jung se interessou por demonstrar isso reiteradamente. Trata-se do conhecimento de que tudo - o mundo físico e psíquico, corpo e espírito, o que pode ser apreendido e percebido com os sentidos e o mundo invisível do inconsciente - faz parte de uma totalidade indivisível perfazendo um campo de realidade una, chamada por Jung de unus mundus.

Como mostra o conjunto de sua obra, Jung ocupou-se durante toda a sua vida com questões espirituais, transculturais e transpessoais, Ele diz em sua autobiografia:

"Constato que todos os meus pensamentos giram em torno de Deus como os planetas giram em torno do sol, e como estes, são atraídos irresistivelmente para Ele como um sol. Eu sentiria como o maior pecador se tivesse que oferecer resistência esse poder'. E ele confessa: ' A natureza, a alma e a vida se manifestam a mim como divindade revelada"

Desenho de Jung no Livro Vermelho.

Livro: C.J.Jung -" Espiritualidade e transcendência" De Brigitte Viorst, editora Vozes.

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