ERA DO EGOCENTRISMO


Por Martha Medeiros


Outro dia acordei com uma espécie de ressaca existencial e o alívio não viria com um simples gole de Coca-Cola: o que estava me pesando não era excesso de álcool, nem de cigarros, nem de noitadas, e sim excesso de mim.


Overdose da própria presença.


Desde que nascemos somos condenados a um convívio inescapável com a gente mesmo. Quando penso na quantidade de tempo que estou presa a esta relação, fico pasma de como consegui suportar tamanho grude. Eu e eu, dia e noite, no único relacionamento que é verdadeiramente para sempre.


Soy mi pareja perfecta. Somos um par. Só que, no meu caso, sou um par em conflito. Um eu que deseja fugir e outro que deseja ficar. Um eu que sofre e outro eu que disfarça. Um eu que pensa de uma forma e outro que discorda. Um eu que gosta de estar sozinho e outro eu que precisa amar. Nada de pareja perfecta, e sim caótica.


Uma relação tranqüila consigo mesmo talvez passe pela conscientização de que não devemos dar tanto ouvido às nossas vozes internas e que mais vale nos reconhecermos ímpares e imperfeitos por natureza.

A gente perde muito tempo pensando na nossa imagem, no nosso futuro, nos nossos problemas, nas nossas vitórias, no nosso umbigo.


Até que um dia acordamos asfixiados, enjoados, sem ânimo e sem paciência para continuar sustentando a pose, correspondendo às expectativas, buscando metas irreais, vivendo de frente pro espelho e de costas para o mundo.


É a era do egocentrismo.


Esquecer da primeira pessoa do singular, das nossas existências isoladas e pensar mais no que representamos todos juntos talvez seja uma boa solução.

Comentários

Diana L. Ramos disse…
Excelente artigo. Parabéns!

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