ÁRVORE, SÍMBOLO SAGRADO



 Sra. Baumann: Eu achei muito interessante que na mitologia pré-histórica da ilha de Creta, da qual praticamente nada é conhecido, haja outro exemplo de uma árvore do mundo. Em uma foto em um anel de ouro chamado “Anel de Nestor”, a árvore é retratada em conexão com cenas no submundo.
O tronco da árvore e dois grandes ramos dividem a imagem em quatro cenas.No primeiro, há duas borboletas e duas crisálidas sobre a cabeça da Deusa Mãe, e elas parecem representar as almas de um homem e uma mulher que se cumprimentam com surpresa.
Na parte inferior da imagem há uma cena de julgamento, e a Deusa Mãe está em pé atrás de uma mesa na qual um grifo está sentado, enquanto as almas são trazidas diante dela por estranhos seres com cabeça de pássaro.

Outro ponto é que, em algumas das sepulturas, foram encontradas escamas em miniatura feitas de ouro. Eles são tão pequenos que devem ser simbólicos, e uma borboleta é gravada em cada um dos discos de ouro que formam o equilíbrio, então parece que as almas eram pesadas como borboletas, não como corações como no Egito.
O maior desenvolvimento da civilização minóica em Creta foi contemporâneo do Egito, seus primórdios remontam a 3000 aC.

Prof Jung: Essa é uma contribuição notável para o simbolismo da árvore e da borboleta.
Você se lembra que Nietzsche aplica a si mesmo aquele símbolo da borboleta - muito apropriadamente, porque ninguém vai além do mundo, fora do campo da gravidade, onde ele pode ver o mundo como uma maçã, a menos que ele se torne uma alma. É preciso ser uma espécie de fantasma para chegar a essas distâncias.
Para sair do corpo e se tornar o espírito ou a própria alma, denota uma espécie de ekstasis.
Agora, temos várias associações sobre essa árvore, e devemos tentar entender o que significa praticamente quando Nietzsche alcança o promontório, o fim de seu mundo, o fim de sua consciência e encontra ali a árvore.
Você já ouviu falar que a árvore é sempre o símbolo do fim e também do começo, do estado diante do homem e do estado depois do homem.                          

Sr. Bash: A árvore não seria o símbolo do coletivum do qual o homem é diferenciado e no qual seus elementos se dissolvem?

Prof Jung: Isso é certamente assim, e por que esse collectivum é simbolizado pela árvore?

Sra. Sachs: A árvore significa vida vegetativa.

Prof Jung: Sim. Pode ser a cobra ou qualquer outro animal ou a terra, mas não, é a árvore, e a árvore significa algo específico; esse é um símbolo peculiar.
É a árvore que nutre todas as estrelas e planetas; e é da árvore que vem os primeiros pais, os pais primordiais da humanidade, e em que o último casal, representando também toda a humanidade, está enterrado.
Isso significa, naturalmente, que a consciência vem da árvore e se dissolve novamente na árvore - a consciência da vida humana.
E isso certamente aponta para o inconsciente coletivo e para um coletivo.
Assim, a árvore representa um tipo particular de vida do inconsciente coletivo, a saber, a vida vegetativa, como a Sra. Sachs corretamente disse.
Agora, qual é a diferença entre a vida da planta e a vida do animal?

Senhorita Wolff: Duas coisas. A planta está enraizada no local e é capaz de se mover apenas em crescimento, e então o sistema respiratório da planta é diferente daquele dos animais de sangue quente.

Prof Jung: Sim, uma árvore é incapaz de se mover no espaço, exceto pelo momento de crescimento, enquanto o animal pode se movimentar. E todos os animais são parasitas nas plantas, enquanto a árvore vive nos elementos.
Ou pode-se dizer que a planta é o tipo de vida mais próxima dos elementos, uma transição ou a ponte entre a natureza animal e a inorgânica.

Carl Jung, Seminário de Zarathustra, páginas 1432-1434.

OBS: Arvore em Oaxaca, México, 14 mt diâmetro.

O MAL NA NATUREZA HUMANA



"Se entendemos então que o mal habita a natureza humana independentemente de nossa vontade e que ele não pode ser evitado, o mal entra na cena psicológica como o lado oposto e inevitável do bem.
Essa compreensão nos leva de imediato ao dualismo que, de maneira inconsciente, se encontra prefigurado na cisão política do mundo e na dissociação do homem moderno. O dualismo não advém da compreensão. Nós é que nos encontramos diante de um estado dissociado. Todavia, seria extremamente difícil pensar que teríamos que assumir pessoalmente esta culpa.
 Assim, preferimos localizar o mal em alguns criminosos isolados ou em um grupo, lavando as próprias mãos, e ignorando a propensão geral para o mal. A inocência, porém, a longo prazo não será capaz de se manter porque, como nos mostra a experiência, a origem do mal está no próprio homem e não constitui um princípio metafísico como supõe a visão cristã. Esta visão possui a vantagem de retirar esta dura responsabilidade da consciência moral humana, descolando-a para o diabo a partir do justo entendimento que o homem é bem mais uma vítima da sua constituição psíquica do que o seu voluntário criador. 
Considerando que o mal em nossa época lança tudo que já atormentou a humanidade num mar de sombras, torna-se, de fato, necessário levantar a questão de sua origem e seu modo de ser na medida em que, mesmo nos progressos mais benéficos feitos pela aplicação do poder legal, da medicina e da técnica, os homens se valem de instrumentos de destruição impressionantes, capazes de culminar de uma hora para outra na sua destruição total."
Carl Jung, Presente e Futuro, pp.573, pág. 45. Editora Vozes, Petrópolis - RJ, 1988.

Oráculo de Apolo e a pitonisa



Templo de Apolo em Delfos, Grécia

O modo pelo qual funcionava o oráculo de Apolo e de onde vinham os conselhos que dava, é um assunto fascinante. Infelizmente pouco se sabe a respeito. O santuário era secreto; os que o dirigiam e davam conselhos guardavam segredos sobre seus métodos. Platão conta que a pitonisa, porta-voz de Apolo no templo, era possuída por uma “ loucura profética”.
Dessa ‘“loucura” emergia alguma “ inspiração criativa”, segundo Platão, que representava níveis de consciência mais profundos do que os normais. “ À sua loucura” escreve no Fedro, “ devemos os muitos serviços que a pitonisa de Delfos e as sacerdotisas de Dodona prestaram à pessoas e aos Estados da Grécia, pois quando estavam completamente conscientes pouco ou nada faziam”. É a interpretação de um dos aspectos da controvérsia sobre a inspiração – até que ponto a criatividade vem da loucura?

Apolo falava na primeira pessoa, através da pitonisa. A voz desta alterava-se, tornava-se áspera, gutural e trêmula como a dos médiuns modernos. Diziam que o deus entrava no corpo da pitonisa no momento do ataquem ou do entusiasmo, como sugere literalmente a origem da palavra, em-theo (“ em deus”).

 ....O que realmente nos interessa é a função do santuário como um símbolo comunal, que tinha o poder de trazer à tona o pré-consciente e o inconsciente coletivo. O aspecto comunal, coletivo de Delfos tinha bases sólidas: o templo foi, a principio, dedicado às deusas da terra, e só mais tarde a Apolo. É coletivo também no sentido de que Dionísio, o oposto de Apolo, tinha grande influência em Delfos.
.. Qualquer símbolo genuíno, acompanhado do respectivo rito cerimonial, torna-se o reflexo das inspirações, das novas possibilidades, da nova sabedoria e de outros fenômenos psicológicos e espirituais, que não nos atrevemos a experimentar por nós mesmos..

De que modo eram interpretados os conselhos das sacerdotisas? É o mesmo que indagar de que modo se interpreta um símbolo. As previsões da pítia eram sempre expressas em linguagem poética, “ com exclamações arrebatadas e onomatopaicas, misturadas à linguagem comum, e essa matéria prima tinha de ser interpretada e organizada”. Como as informações mediúnicas de todos os tempos, eram suficientemente enigmáticas não só para permitir, como para necessitar interpretação. E sempre eram suscetíveis de duas ou mais interpretações diferentes...

                                                                                 A orientação de Delfos não era conselho no sentido rigoroso da palavra, e sim um estímulo para que o indivíduo e o grupo se analisassem, consultando a sua própria intuição e sabedoria. Os oráculos colocavam o problema sob um novo ponto de vista, num novo contexto onde possibilidades ainda não imaginadas se tornavam evidentes. É um erro pensar que esses oráculos, bem como a psicologia moderna, façam com que o indivíduo se torne mais passivo. Isso significaria erro terapêutico e interpretação falsa dos objetivos do oráculo. Fazem exatamente o contrário; levam o individuo a reconhecer as suas possibilidades, trazendo à luz novos aspectos de si mesmos e do seu relacionamento com os outros. Esse processo abre as portas da criatividade. Faz com que o indivíduo  se volte para os seus mananciais criativos”.

Rollo May em: A coragem de criar – Editora Nova Fronteira.

ATUALIDADE DE CARL G. JUNG


Por Jung no ano de 1916, ainda tão atual
"..Nada mais apropriado do que os processos psicológicos que acompanham a guerra atual — notadamente a anarquização inacreditável dos critérios em geral, as difamações recíprocas, os surtos imprevisíveis de vandalismo e destruição, a maré indizível de mentiras e a incapacidade do homem de deter o demônio sanguinário para obrigar o homem que pensa a encarar o problema do inconsciente caótico e agitado, debaixo do mundo ordenado da consciência.
 Esta Guerra Mundial mostra implacavelmente que o homem civilizado ainda é um bárbaro.
Ao mesmo tempo, prova que um açoite de ferro está à espera, caso ainda se tenha a veleidade de responsabilizar o vizinho pelos seus próprios defeitos. A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá.
Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo. Em tempo algum, meditar sobre si mesmo foi uma necessidade tão imperiosa e a única coisa certa, como nesta catastrófica época contemporânea.
Mas quem se questiona a si mesmo depara invariavelmente com as barreiras do inconsciente, que contém justamente aquilo que mais importa conhecer."
Carl Gustav Jung, durante a Primeira Guerra Mundial.
Küsnacht—Zurich, dezembro de 1916,