“Ser é fazer e criar.
Nossa existência, porém, não depende unicamente de nossa vontade própria, porque nosso fazer e criar dependem em grande parte do domínio do Inconsciente. Eu não estou somente projetando-me a partir do meu ego, mas também fui feito para ser criativo e ativo; permanecer imóvel é bom apensas para alguns que foram demasiado ativos ou erradamente ativos. Caso contrário, é um artifício não natural que interfere necessariamente com nossa natureza.

Crescemos, florescemos e murchamos, e a morte é quietude última, ou assim parece ser. Mas muito depende do espírito, isto é, do sentido ou significado segundo o qual fazemos e criamos ou, em outras palavras, do sentido segundo o qual vivemos. Esse espírito expressa-se ou manifesta-se numa Verdade, que é inequívoca e absolutamente convincente para a totalidade do meu ser, embora o intelecto, em seu perambular sem fim, continuará sempre com  seus “mas” e seus “talvez”, que, contudo, não deveriam ser suprimidos , mas sim recebidos como ocasiões para aperfeiçoar nossa Verdade....
                                                                                                                       Essa é a razão porque procuro encontrar a melhor Verdade e a luz mais clara. E uma vez alcançado esse ponto mais alto, não posso ir além.
Guardo minha luz e meu tesouro, convencido de que ninguém sairia ganhando – e eu mesmo seria ferido sem esperança – se a perdesse. Ela é o que há de mais alto e precioso, não apenas para mim como também, sobretudo, para a escuridão do Criador, que necessita do Homem para iluminar sua Criação. Se Deus houvesse previsto inteiramente seu mundo, este seria uma mera máquina sem sentido e a existência do homem um inútil capricho. O Intelecto pode vislumbrar a última necessidade, mas a totalidade do meu ser diz “ Não” a isso.....
Sinceramente seu,
 C.G. Jung”

Carta de JUNG para Miguel Serrano, em “O Circulo Hermético”, 1960. Editora Brasiliense.

ANIMUS E O PAI



   “De maneira normal o homem somente chega a conhecer a sua anima quando a projeta; o mesmo se dá com a mulher e seu Sol escuro. Se ela tem Eros em ordem, também seu Sol não será escuro demais, e o portador correspondente dessa projeção talvez até signifique uma compensação útil.  Se houver algo errado com Eros ( infidelidade ao próprio amor!) então corresponde à escuridão de seu Sol uma pessoa masculina possuída pela anima, “ que tira do barril para servir” um espírito de qualidade inferior, tão embriagante como álcool forte.

O Sol escuro da psicologia masculina feminina está relacionado com a imagem do pai, pois de fato é o primeiro a encarnar para ela a imagem do animus; é ele quem dá conteúdo e forma a essa imagem virtual, pois ele, em virtude do seu Logos se torna para a filha a fonte do “ espírito”.

 Lamentavelmente, o jorro dessa fonte também pode turvar-se, quando se deveria supor aí água cristalina. O espírito que serve à mulher não é realmente um puro intelecto, mas é mais do que isso: é uma atitude,  isto é, um espírito no qual se vive. Também um espírito por assim dizer “ ideal” nem sempre é o melhor, se ele simultaneamente não entender também como lidar de modo correto com a natureza, ou respectivamente com o homem-animal; isto aliás seria o ideal.      

Todo pai tem, pois, sob todos os aspectos, ocasião suficiente para estragar não pouca coisa no ser mais íntimo de sua filha, o que depois tem de ser tratado pelo educador, pelo marido e pelo médico em caso de neurose. A razão é que “o que foi estragado pelo pai somente por outro pai poderá ser restaurado, e “o que foi estragado pela mãe por outra mãe pode ser reparado. O que nos é dado observar nesse domínio poderíamos designar como pecado original psicológico, ou como maldição de atridas, que atua atrevais das gerações.
 Ao julgar criticamente tais coisas, ninguém se considere tão seguro se respeito do bem quanto do mal...... (várias referencias sobre a questão do bem e do mal na humanidade)
Estas alusões devem bastar para de certo modo indicar como deve ser aquele espírito de que a filha necessita: são verdades que falam à alma, são coisas que jamais se manifestam com voz forte e com insistência, mas que atingem cada um que percebe o sentido do mundo. De tal saber precisa a filha para que ela o passe adiante a um novo filho”.

Carl Gustav Jung
CW XIV, Mysterium Coniunctiones, editora Vozes, RJ.

O CASAMENTO SAGRADO DO SOL E DA LUA


                                                                              
Sol e Lua , o rei a rainha na Alquimia

Luna, como já foi cabalmente mencionado, é o oposto do Sol; por isso é fria, úmida, de luz fraca até à escuridão, feminina, corpórea, passiva, etc. De acordo com isso, seu papel mais importante é o de ser a parceira do Sol na conjunção. Como uma divindade feminina de brilho suave, é ela a amante. Já Plinius a chama  de “ femininum  ac molle sidus” ( astro feminino e suave). É sóror e sponsa ( irmã e noiva),  mater e uxor  Solis,  (mãe e mulher do Sol). Para ilustrar o relacionamento entre o Sol e a Lua, gostavam os alquimistas de empregar o Cântico dos Cânticos, como por exemplo a Aurora Consurgens I em suas “ confabulationes dolecti cum dilecta” ( conversas do amado com a amada).

Em Atenas, o dia de lua nova era considerado a data mais favorável para o casamento, também é a tradição árabe casar-se na lua nova; o Sol e a Lua são cônjuges que se abraçam no 28º dia. De acordo com essa concepção antiga, a Lua é um vaso do Sol: Luna é um receptáculum universale omnium, principalmente do Sol, e é chamada também de “ infundibulum terrae” ( funil da Terra) por receber “ as forças do céu e a derramar” ( recipit et  infundit); ou també se diz que a umidade lunar ( lunaris humor) recebe a luz solar, ou que a Lua se aproxima do Sol para “ como que haurir de uma fonte a forma universal e a vida natural”, ou que ela proporciona a concepção do “sêmen natural do Sol” em sua quintessência, o “venter uterus naturae” ( ventre e útero da natureza).

“ Como o Sol físico ilumina e aquece o universo, assim também no corpo humano existe um arcano solar no coração, donde flui vida e calor. “ É pois, com razão, escreve Dorneus “ que ele ( o sol) é chamado o primeiro depois de Deus ( primum post Deum) e pai e gerador de todos, pois nele reside a força que gera e forma etodas as coisas”.

Carl Gustav Jung em: Mysterium Coniunctionis

OBS: Na Lua nova, Sol e Lua estão juntos no céu, é isso que significa uma “conjunção”.

Foto: Eclipse solar, a Lua está na frente do Sol, do ponto de vista da Terra.