O PODER DO MITO


                                                                        


Bill Moyers  entrevista Joseph Campbell

Campbell:Os mitos estimulam a tomada de consciência de sua perfeição possível. A plenitude se sua força, a introdução de luz solar no mundo. Destruir monstros é destruir coisas sombrias. Os mitos o apanham, lá no fundo de você mesmo. Quando menino, você os encara de um modo, como acontecia comigo ao ler histórias dos índios. Mas tarde, os mitos lhe dizem mais e mais e muito mais. Quem quer que tenha trabalhado seriamente com idéias religiosas ou míticas lhe dirá que, quando crianças, nós as aprendemos num certo nível, mas depois muitos outros níveis se revelam. Os mitos são infinitos em sua revelação.

Moyers: Como fazer para destruir o dragão em mim?Como é a jornada que cada um de nós tem que empreender, que você chama “ a alta aventura da alma”?

Campbell: Minha formula geral para os estudantes, é: “ Persiga sua bem-aventurança”. Descubra onde ela está e não tenha medo de segui-la.
Moyers: É o meu trabalho ou a minha vida?

Campbell:  Se o trabalho que você faz é o que você escolheu porque encontra prazer nele, então é o trabalho. Mas se você pensa: Oh, não, eu não deveria estar fazendo isso!”, então é o dragão espreitando, dentro de você. “ Não, não, eu não podia ser escritor” ou “ Não, não, eu não podia de modo algum estar fazendo o que fulano faz.”

Moyers: Nesse sentido, ao contrário de heróis como Prometeu ou Jesus, não nos empenhamos em nossa jornada para salvar ao mundo, mas para salvar a nós mesmos.

Campbell: Mas, ao fazer isso, você salva o mundo. Uma pessoa vitalista sempre traz uma influencia vitalizadora, não tenha dúvidas a respeito disso. O mundo sem espírito é uma terra devastada. AS pessoas tema ilusão de salvar o mundo trocando as coisas ao redor, mudando as regras, quem está no comando, e assim por diante. Nada disso! Qualquer mundo é um mundo válido se estiver vivo. A coisa é trazer vida a ele, e a única maneira de fazer isso é descobrir, em você mesmo, onde está a vida e manter-se vivo.

Moyers: Quando me empenho nessa jornada, indo lá embaixo para matar aqueles dragões, tenho de ir sozinho?

Campbell: Se você tem alguém para ajudá-lo isso também pode ser muito bom. Mas, em ultima instancia, a proeza derradeira tem de ser praticada por você, só. Psicologicamente, o dragão é o atrelamento de si ao seu próprio ego Estamos aprisionados em nossa própria caverna de dragão......
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Campbell: Nossos dragões, no Ocidente, representam a cobiça, mas o dragão chinês é diferente. Ela representa a vitalidade dos pântanos, e emerge batendo na barriga e rugindo, ameaçador. É uma espécie adorável de dragão, a que libera a generosidade das águas – uma grande, gloriosa dádiva. Mas o dragão das nossas histórias procura juntar, acumular coisas, todas as coisas para si mesmo. Ele guarda essas coisas na caverna secreta: pilhas de ouro, e quem sabe, uma virgem raptada. Ele não o que fazer nem com o ouro nem com a virgem, e por isso se limita a guardá-los.  Existem pessoas assim, são os parasitas. Não há vida neles, nem doação. Eles apenas se grudam a você, se penduram em volta, e tentam sugar, de você, a vida de que necessitam”.

Do livro: O poder do Mito, de Joseph Campbell, editora Palas Athena, São Paulo
A entrevista foi feita em 1985 e 1986.

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