OS SONHOS, A PSIQUE E OS ANIMAIS

"Neste inicio de milênio, talvez a mais desafiadora tarefa que deve enfrentar o homem contemporâneo seja a aceitação cabal de sua condição de mera criatura, num mundo cheio de harmonia e beleza, e o reconhecimento de incomensaurável destrutividade que golpeia o planeta de modo cada vez mais assustador. Aquilo que a natureza levou milhões de anos para desenvolver pode hoje desaparecer num piscar de olhos, graças à letalidade instantânea de nossa mais avançada tecnologia de alto impacto ambiental. 

Oceanos inteiros, camadas da biosfera, rios e suas nascentes, a terra e seus frutos, florestas, vales e montanhas - nada mais é inatingível. Como um deus às avessas, em vez de criar vida, o homem finalmente tornou-se senhor absoluto da tecnologia da morte, e vem dando conta do inconfessável destino de destuir o planeta que é o seu meio vital.

Nada poderia expressar melhor essa catástrofe do que a progressiva extinção das espécies animais. Sem defesa, sem voz e sem protesto, uma a uma elas vão sumindo abatidas, baleadas, encurraladas em becos sem saída, banidas  até dos limites dos campos habitáveis. Que clones, que andróides zoomorfos, que robôs caricatos, que seres artificiais seremos capazes de criar, para que logo venham a ocupar o lugar de nossos antigos companheiros na Arca, nossos iguais no perdido Jardim, nossos irmãos, com queria São Francisco?

Que tremendo dia de vergonha será esse, quando os jormais anunciarem: " Morto o último elefante do Quênia; extintos os ursos pandas; falcão pergrino nunca mais visto; desabitado o Mediterrâneo poluído"?

Provável ou improvável? Os numeros atestam, os fatos atestam, essa possibilidade existe porque essa maldade radical existe no homem e continuará existindo, até que finalmente ele reconheça e assuma essa terrível sombra e se conscientize, talvez no minuto final - que bem pode ser o momento presente.

Jung sabia disso, e muito se preocupava com esse quase.
Sua esperança era esse reconhecimento consciente da sombra, e a possibilidade de que este milênio ( Aquário) seja regido não pelo arquétipo da dualidade, mas pelo da colaboração entre consciente e inconsciente.
Trabalhar com o inconsciente; compreender a verdade profunda dos instintos de da alma; perceber a presença do divino nos olhos de um animal  essa talvez seja a última utopia à qual ainda possa valer a pena dedicar uma vida de estudo e de trabalho.

E não é o que no fundo, sem tanta pretensão, tenta fazer um terapeuta? Não trabalha ele por uma possível paz entre as altas esferas do intelecto e as relegadas vilezas do instintos animais, um acordo entre homem e natureza finalmente recuperado?

Esse nosso trabalho de terapeuta é feito com imagens.
Imagens de animais vivos em noss psique, delírios, metáforas e figuras de lingiagem, em nossa arte, fantasias e sonhos de qualquer noite. Elas aparecem todos, como são, como não são e como poderiam ser, com duas cabeças, oito patas, corpo de mulher. Fazem de tudo, brincam conosco, comem nossos dedos, fogem da jaula, urram, mijam nos assustam, lutam copulam, se matam, nos matam e nos amamentam.

Eles surgem sempre como nosso Outro Além do Humano, e que poderiamos vir a ser se os aceitássemos como parte nossa, virtude e defeito, avidez de tubarão, altivez de pantera, candura de ovelha, inventividade de pássaro, agressividade de doberman, energia de égua, calor materno de vaca, feminilidade de gata e intuição de cachorro, poderio de condor, automatismo de formiga,  inconsciência de peixe, força de touro, morbidez noturna de morcego, psiquismo de borboleta, más intenções de rato, veneno, perculosidade e poder de cura da serpente, pele animal, rastro de bicho, toca no mato, horror, alegria, medo, susto e morte. 

Eles aparecem sempre, voltam sempre, mesmo quando já não existem mais e só nos resta saber o que afinal vieram fazer em nosso sonho e o que querem de nós.

... sobre o método de" amplificação", Gambini continua:

"Se tenho diante de mim um sonho em que um pássaro entra em meu escritório, depois de observar por un instante as imagens que por si mesmas se agregam a essa cena, começo pouco a pouco a expandir meu raio de reflexão, para que também aos poucos comece a sair do arquivo da memória tudo aquilo que já li, ouvi, aprendi, concluí, ou observei sobre " pássaro", até que, mediante esse enriquecimento da imagem por acréscimo de atributos, o sonho vá se metamorfoseando de mera imagem pictórica em intelecção, em idéia luminosa que me leva a compreender o ponto sobre qual ele versa".



Prefácio de Roberto Gambini em: 
Os animais e a psique
Várias autoras
Summus Editorial, SP

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