DISTRAÍDOS DO ESSENCIAL




Por Tereza Kawall

DISTRAÍDOS DO ESSENCIAL 

Pensando bem, nossos problemas atuais não são de natureza econômica, política, científica, ambiental, seja lá o que for.

 Nosso verdadeiro e incomensurável problema é inequivocamente o homem, nossa humanidade, assim chamada por aquilo que deveria nos definir como humanos.

 Aqui, leia-se e entenda-se “ consciência” com tudo o que ela representa, sem licença poética, em um contexto racional, ético, moral, que pode discriminar valores, e que teoricamente é o que nos diferencia das plantas, dos animais,das borboletas, dos peixes, da grama, das formigas, dos sabiás, das conchas, das pedras, dos minérios e do orvalho matinal.

 Ah, sim, fazemos rituais para nossos mortos, abraçamos a religião como suporte para o viver, fazemos filosofia, leis, manifestações artísticas de toda ordem. 

Construímos incríveis túneis aquáticos e pontes quase aéreas, maravilhas da tecnologia moderna. Aquele que chamamos de “ arranha-céu” também perfura as entranhas da Terra, fazendo-a afundar sob o peso do poder econômico e seus desvarios gananciosos. 

Artefatos da cultura? Milhares deles, dos mais sofisticados aos mais cafonas, dos mais úteis aos mais inúteis, nos deliciamos com nossos coloridos celulares, notebooks, mágicos brinquedinhos que geram rapidez, dependência e algumas inseguranças a mais.

 Claro, temos lindas naves espaciais e satélites que rasgam aos céus para desvendar os segredos do cosmos, quem sabe nossa origem. Macacos me mordam!

 Arrancamos inúmeras riquezas de nosso abençoado solo, do mar, e para não soar repetitivo demais, derrubamos florestas centenárias em alguns poucos minutos, mesmo já sabendo e vivenciando as conseqüências destes atos. 

Ninguém mais duvida: a natureza quando está irada não tem piedade de nada e ninguém, sua força é inexorável quando seus quatro elementos, fogo, ar, terra e a água intensificam a sua ação de forma extremada
 Desejo e ganância dão-se as mãos e caminham céleres rumo aos pódios dos especuladores sorridentes – nosso capitalismo é mais que selvagem, é por assim dizer, criminoso, concentrando riquezas, privilegiando poucos, e asfixiando a grande maioria. 

Bem, também já deciframos as seqüências dos códigos genéticos, para o bem e para o mal, pois bem sabemos que a Mãe Natureza tem muito ciúmes de seus segredos.

 A medicina tradicional tem feitos espetaculares, nosso cérebro é mapeado e desvendado em tempo real, bem colorido, parece até um arco-íris! 

Agora é bacana afirmarmos, com orgulho que em breve viveremos até 120 anos! Só não nos explicam para quê. Pudera,a lucrativa indústria farmacêutica não tem que ficar explicando tudo para nós; morrer e envelhecer são assuntos antiquados.
 E vamos por aí, aspirados, siliconados, contando para nós mesmos as mentiras e ilusões da eterna juventude! 

Nossa maravilhosa civilização calcada na razão e no progresso nos prometeu o conhecimento, a tecnologia e a ciência como pressupostos de bem estar e felicidade.
 Lembram do ócio criativo? Será que vingou? 

Os artefatos eletrônicos não deixam mais tempo para estados mentais mais relaxados -estamos plugados, é o que interessa. Ficar muito ocupado dá status, e ainda de quebra impede o olhar para dentro, para a reflexão óbvia: para quê tudo isso, afinal?

 Drogas potentes para todas as mazelas psíquicas: bulimia, transtornos vários, obsessões, depressões... não dão conta de silenciar e abafar os sintomas mundiais: nossa alma coletiva está doente. Existe alguma UTIBH, Unidade de Tratamento Intensivo para a Burrice Humana? 

Pobre ser humano, uma solitária alma penada, que ainda não desvendou a si mesmo, vive a mercê seus anseios, refém de seus demônios. É um herói, que inspirado por um ideal que Prometeu um dia sonhou, anda por aí, capenga e inseguro, torturado pelo medo, pelas doenças e por um futuro pouco promissor – qual é mesmo a sua nobre causa? Alguém se lembra? 

Conheço tantas coisas, mas meu eu é, freqüentemente, um abismo a espera de um amanhecer mais suave e ameno.

 Somos distraídos do essencial e atraídos, como um imã, pelo superficial? 

Sim, há um esperança!!
A consciência humana vive uma fase crepuscular, embora MUITOS, de forma muito silenciosa e menos ostensiva fazem a sua parte, cuidando de seus jardins, semeando outras formas de vida, trabalho e convivência. Cuidando da água, dos animais,das crianças, das árvores, das flores.....

Como diz Leloup, as florestas crescem silenciosamente. É urgente mudarmos este estado de coisas, é urgente fazermos uma revolução espiritual que nos faça mais serenos, e mais capacitados para o perdão, para uma vida mais amorosa e portanto, mais felizes.

1 comentários:

  • Anônimo | 28 de maio de 2015 18:38

    Lindo texto, querida. Tenho feito um esforço para ao menos pela manha ao sair com o cachorrinho para um passeio matinal, prestar mais atenção ao canto dos pássaros, ao céu e às pessoas, ao invés de levar o celular e me envenenar desde cedo com as notícias horríveis daqui e de lá.
    Fica o0 alerta para todos: não nos esqueçamos do essencial - nossa alma. Não podemos deixá-la morrer.
    Beijos!
    EDivani