A MEMÓRIA DO COSMOS EM NÓS




Entrevista com Jean-Yves Leloup

Pergunta:O sr. transmite muitos dos seus ensinamentos com uma linguagem bem poética, como neste trecho do livro ” A sabedoria do salgueiro”, em que diz: “ É das profundezas/ de suas raízes/ no escuro/ que a árvore busca a sua força e/ seu impulso para galgar as alturas/ e se manter ereta/ na luz”.
Quer dizer então que um pré-requisito para se “ galgar as alturas” para se alcançar a luz, é justamente fazer um mergulho na sombra?

JY: Si, é um erro achar que podemos ir em direção à luz se, ao mesmo tempo, encontrar a nossa sombra. Quanto mais luz, mais sombra; não há dia sem noite, não há topo de montanha sem o fundo do vale. A questão é saber como manter os dois unidos. Nosso objetivo não deve ser nem a luz, nem a sombra, mas o que contém tanto a luz quanto a sombra. Como no símbolo do Tao, a luz está na sombra e a sombra está na luz, elas não se misturam, mas fazem parte de uma única realidade. Para estarmos verdadeiramente em um caminho de inteireza, é preciso amar a nossa luz, mas também amar a nossa sombra; só assim podemos experimentar algo que está além da luz e da sombra, além dos contrastes e dos contrários.

P:Nesse sentido, quando Cristo diz” Não resistas ao mal”, pode-se entender como uma instrução para prestar atenção à sombra, para encarar o mal que há em nós, sem negação, como forma de transcende-lo?

JY: Há também uma parábola que fala sobre isso, quando Jesus ensina que é preciso deixar a boa semente de trigo crescer junto do joio. Porque, na hora certa, o joio será descartado; mas se tentarmos arrancar o joio muito cedo, existe um grande risco de, junto, se arrancar o trigo também. Nesse sentido, por exemplo, não se trata apenas de arrancar a raiva de dentro de nós, pois há uma grande energia dentro da raiva; a questão é como fazer toda essa energia se tornar uma força criadora, e não destruidora.

P:Ainda na esfera das profundezas, qual é a importância de nos perguntarmos acerca de nossas próprias raízes? Qual é o papel da ancestralidade – considerando o que ela tem de autêntico. Mas também de aspectos condicionados – para a construção de nossa verdadeira identidade?

JY: Essa pergunta é muito importante, pois nosso ser é composto de toda sorte de memórias, e nós só conseguimos nos libertar daquilo que conseguimos aceitar. Para que possamos nos libertar de qualquer herança negativa, é preciso, antes, aceitá-la. Na verdade, quando falamos de ancestralidade, isso vai muito além da história familiar. Existe a herança familiar, que vem de nossos pais; a herança transgeracional, que vem de nossos ancestrais mais distantes; a herança cultural, que vem da sociedade em que crescemos; e há também a herança do cosmos, do universo ao qual pertencemos. O homem não é apenas filho de seus pais, ele é filho das estrelas, da Terra, de toda a existência. Em nosso corpo, há memórias do Big Bang e de estrelas antigas que nos habitam; existe em nós a memória do universo.

Porém talvez devêssemos ir ainda mais fundo e reencontrar em nós a memória da própria origem da vida, pois essa origem atravessa tudo o que existe, o cosmos, a sociedade, nossos ancestrais, nossos pais. E, muitas vezes, ficamos fechados apenas em nosso nível de realidade, num nível bem específico de memória. É muito importante mergulhar além de todas essas memórias, rumo à fonte da própria Vida e da Consciência, que se pode chamar de Deus, ou de algum outro nome, mas que é a fonte mesma de nosso ser, a origem do cosmos e de tudo o que há.


Extraído do livro: Palavras de Poder
Lauro Henriques Jr.
Texto Editores.

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