PEREGRINO DO AUTOCONHECIMENTO




Entrevista com Marco Schultz

Professor de yoga e meditação, membro fundador da Associação Dobem, que objetiva disseminar conhecimentos voltados ao desenvolvimento do ser humano. Percorre o país e lidera grupos de estudos em viagens de cunho espiritual pelo mundo.

Jornal ZEN: Como iniciou-se ser caminho dentro da yoga?
MS: Formalmente aos 18 anos, mas sempre fui um questionador, desde criança. Não me contentava em “ engolir o sapo”, seja de uma questão que via na rua ou alguma coisa que meus pais falavam. Obviamente se passa por uma fase de rebeldia , de resistência , de questionamentos críticos, enfim, saindo de uma intensidade tensa e indo para outra, mas aí a vida te ensina e é aí que entra a benção da yoga mesmo, para a gente poder acolher e abraçar o denso, mas trabalhar de uma forma mais sutil, mais consciente, não reagindo, respondendo e projetando para fora, mas sim acolhendo para dentro.
É interessante porque não se resolve nada do plano relativo em definitivo. Até porque é relativo e o definitivo está no campo do absoluto. Conquistas e derrotas, prazer e dor, encontros e desencontros, enfim estão aí, mas a questão do sofrimento, quando se vê o grande, tudo se dissolve.
Hermógenes coloca isso: usa do teu sofrimento, usa do teu momento e isso desde criancinha sou assim, obviamente passando por essas fases de conflitos de tentar controlar a minha vida , de tentar encontrar alguma resposta e não é nada disso, é mas: entrega, confia, aceita e agradece.
Que resposta? Se vem uma resposta, o mistério está resolvido? Não. O absoluto é mistério, o imanifesto é um campo subjetivo. Então o importante é a gente começar a fazer melhores perguntas porque as respostas se resumem ao “ segue marchando, irmão”.
Não tem nada objetivado nesse nível da busca da alma, que é a busca do absoluto. Não tenha dúvida de que encarnar, sentir, sofrer e lidar com o combate da existência é parte palpável desse jogo, dessa brincadeira, desse processo todo.
Então, tudo isso é yoga.

JZ: Quais foram as suas referencias, as pessoas que te despertaram?
MS: Desde pessoas simples que encontramos e que se tornam verdadeiros mentores e tem os grandes também.
Tem Jesus,tem Buda, tem a Amma, Ram Das, Jean-Yves Leloup, tem Hermógenes, todos esses irmãos tão importantes para mim. Servos do Senhor, servos da Glória Maior. Facilitadores que refletem aquilo que eu busco em mim mesmo.
Essa é uma característica interessante, não que seja um estilo, é sem querer, mas é uma visão bastante integrativa, ecumênica de tudo.
Nunca me senti um seguidor, sempre fui um buscador e o importante é seguir com discernimento. Aí é que a yoga se chama autoconhecimento. Tem aí uma coisa de autonomia, de autorreferência de atuorrealização. Por isso a yoga é tão universal. Tudo bem tu ir em tua própria tradição, tua própria crença, mas a yoga te dá sustentação para o aprofundamento nisso tudo, para a gente não se resumir a um estimulo de superfície. Buscar realizar o ser.
A gente na precisa falar yoga, você pode falar outro termo, porque está além do termo em si. Chico Xavier dizia que o maior presente que Deus deu à humanidade foi a yoga. Ele não tem nenhum passado formal em yoga, mas viveu uma vida de yoga. É importante a gente ter isso disponível, para sairmos do preconceito que só causa fragmentação e todos os conflitos.

JZ: Sua fala é colocada naturalmente e muito profundamente. As idéias vão se encaixando e nota-se que você fala de improviso. Você percebe isso como um talento seu e que usa em seu trabalho?
MS: É uma pergunta bem interessante. A sensação que tenho é que tive contribuições incríveis na minha vida, de pessoas da família, da minha própria cultura, das oportunidades que a vida me deu e eu abracei. Vamos dizer que existe um cabimento para o fazer, para o dedicar-se ao estudar, para o disciplinar-se. Mas você se resumir a essas referencias e o universo da yoga, que para mim, é um universo de infinitas possibilidades, um campo fértil além de qualquer concepção disso ou daquilo.
Sinto-me muito à vontade, não comigo, mas me desapegando de mim. E esse desapego de mim mesmo, até mesmo da minha intenção de fazer uma boa palestra ou de agradar as pessoas ou ajudar o próximo, isso é limitado ao universo do ego, ainda que bem intencionado. Aí é a questão da fé.
Você se entrega e de repente rola um canal e aí eu te falo que mesmo o próprio Marco Schultz em sua vida ordinária aprende, e isso é incrível. É um contexto que se a gente for tenta encontrar um termo, é um contexto mediúnico mesmo. E é um mistério incrível porque o que está se falando ali se transmite, o que é um eco em mim, é me você. E aí é que é o supra sumo e isso me emociona. Daí o cabimento da palavra facilitador, porque tu entrega.
Do contrário, sou uma pessoa super exigente, reservada, tímida, enfim, com as minhas características, sabe-se lá por quê.

JZ: Como analisa o trabalho que desenvolvemos com o JORNAL ZEN?
MS: Acho fundamental. Uma das questões mais limitantes no nosso país é a falta de infirmação. Não existe somente uma forma de conhecer a yoga. O dharma, zen. Existem va´rias formas, então, que bom que há este jornal. É importante a gente ter esse universo sustentando a qualidade, mas em quantidade no sentido de dar referencias para as pessoas. É difícil às vezes a linha fina na sobrevivência no dia a dia, nos relacionamentos, mais isso é cumprir o dharma e comigo não é diferente.
E é no combate que às vezes fica claro que em vez de ficar na manipulação, vou dar o melhor de mim e ele me abençoa assim.

JZ: Que mensagem gostaria de deixar para os nossos leitores?
MS:Me vem três palavras muito fortes, que fazem parte de minha vida, há muito tempo: amar, servir e lembrar. É uma trindade que a yoga invoca.

Esta entrevista está no JORNALZEN , janeiro de 2012, se quiser saber mais de Marco Schultz.

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