Budismo e a libertação



Gustavo Alberto Correa Pinto:

“ E como é que o budismo entende a libertação? As primeiras perguntas que fazemos são: Quem é que lhe está prendendo, e o que é estar preso? Perguntamos isso para ajudar nosso interlocutor a ir descobrindo dentro de si mesmo o que é liberdade. Liberdade é algo do qual ninguém pode nos privar. Só nós podemos nos provar da liberdade, e o que fazemos toda vez que nos iludimos. Em cada e toda ilusão, estamos aprisionando quem poderíamos ser se ultrapassássemos essa ilusão.
O budismo tem a flor de lótus como o símbolo da trajetória da libertação. A semente da flor de lótus é uma esfera com uma casca muito dura e com longa capacidade de sobrevivência. Foram encontradas algumas sementes de lótus no túmulo de um imperador chinês, aberto no século XX. Depois de mais de mil anos, essas sementes foram colocadas nas condições ideais, germinaram e floresceram. E quais são as condições necessárias para uma semente de lótus germinar? Primeiro, lodo; o lótus o lótus só germina no lodo. Mas é preciso que haja água sobre o lodo. Se for apenas lama, ele não vai germinar. E, além de água, é preciso que haja incidência de sol, ele não desabrocha na sombra.
Então, o ponto de partida é a escuridão impura do lodo, símbolo da ignorância. É ali que o lótus se enraíza e onde começa a crescer o caule que vai atravessar o lodo e percorrer a água. Quando finalmente alcançar a superfície do lago, ao contrário do nenúfar, o lótus não vai desabrochar imediatamente sobre a água. O caule terá de crescer mais quase um metro para que então, sob o sol, a flor desabroche. As pétalas límpidas são alimentadas pelas raízes fincadas no fundo do lodo.
Assim como nós, que partimos da escuridão, da ignorância, e crescemos rumo à luz, à sabedoria. Enquanto existirmos aqui, nesta forma humana, sempre estaremos enraizados em inalienável ignorância. Quem se pretende isento de ignorância mostra pela soberba, que nela chafurda ainda mais profundamente”.


Maria Eugênia:
“A flor de lótus é um belo símbolo dos quatro elementos universais: terra, fogo, ar e água. O lótus nasce no lodo( a terra) cresce na água, se desenvolve na atmosfera ( o ar) e desabrocha na luz o fogo). Numa interpretação literária japonesa, o lótus invoca ainda a idéia de correção de caráter. Muitos nascem em condições adversas, desenvolvem-se com extrema dificuldade, mas chegam puros de alma no meio da sociedade e de suas vilanias”.


Gustavo Correa:
“ Exatamente. O lodo representa a terra, e, seguida vem a água, depois o ar e por fim o sol, o fogo. Nessa trajetória, evoluir quer dizer se tornar si mesmo, se tornar quem você verdadeiramente é. Mas quem somos nós? Tudo aquilo que pensamos que somos, ainda não é o que somos. É preciso buscar quem pensa isso, quem se julga assim. É como as bonecas russas, matrioskas, que vamos abrindo, há uma dentro da outra, que por sua vez, está dentro da outra, e assim por diante. Até que nessa busca incansável, vamos retrocedendo até de repente descobrirmos quem não nasce e não morre. Quem em nós, não nasce nem morre é quem verdadeiramente somos. Não estou falando de um conceito ou de uma idéia. Estou falando de uma experiência, de conseguirmos transcender tudo em nós que tem forma e nome.
Quando chegarmos a esse ser sem face, sem nome, que não tem idade, que não é homem nem mulher, que, como dizia um velho mestre chinês, “ Era antes de nascerem os nossos pais”, aí então saberemos quem verdadeiramente somos. E quando descobrimos isso em nós, o reconhecemos em todos os seres humanos, assim como em todas as coisas, nas pedras, nas plantas, nas estrelas e no céu.
Esse ser que não nasceu quando nascemos e não morrerá quando disserem que nós morremos é um viandante naquela estrada da qual falava Fernando Pessoa, na qual, ao cruzar a curva adiante, quem vier atrás, se atento, ainda poderá ouvir os passos do caminhante que seguiu adiante.
Evoluir, para o budismo, é tornar-se si mesmo, tornarmo-nos quem ainda não sabemos que somos. Porque se soubéssemos aí sorriríamos diante de tudo, diante de todos e agradeceríamos a tudo e a todos. Saberíamos que tudo o que nos toca é só o que nos corresponde, e, porque nos corresponde, é sempre dádiva”.

Livro: Astrologia e Budismo- conversa entre dois saberes milenares
M. Eugênia de Castro e Gustavo Alberto Correa Pinto
Editora Saberes
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