O Ser que somos

Por Jean-Yves Leloup


"Jonas foge da sua palavra interior. Entra num barco que está partindo para Társis e dorme no porão. O problema é que uma tempestade se precipita; enquanto ele dorme, as ondas se levantam.
Este é o primeiro ensinamento do livro de Jonas: o fato de não nos tornarmos nós mesmos pode ter conseqüências não só em nosso interior, mas em torno de nós. Precisamos lembrar que o maior serviço que podemos prestar aos outros é tornarmos nós mesmos. Se não fizermos isso, haverá tempestades e distúrbios à nossa volta.


Quem não escuta a sua voz interior pode causar distúrbios nos que estão ao redor. Então Jonas se defronta com sua responsabilidade: reconhece ser a causa de tanto transtorno e mergulha no oceano. Simbolicamente mergulha no seu inconsciente e cessa de fugir. Entra num processo de conhecer a si mesmo, suas sombras e seus medos. Isso é simbolizado pelos três dias que passa no ventre da baleia – uma descida às profundezas de si mesmo.


O livro de Jonas é muito interessante para nossa abordagem, porque o medo que Jonas sente e as razões de sua fuga fazem parte de nós. Quando recebemos o convite para levantar, para despertar do nosso sono, alguma coisa dentro de nós ainda resiste. E a essa força que resiste é que chamamos normose.

Do que Jonas tem medo?
Já evocamos o medo de fazer sucesso, de realizar o que os nossos pais não conseguiram.Isto é, efetivamente, algo que pode estagnar o nosso vir a ser. Por exemplo,ser feliz na vida afetiva quando nossos pais se divorciaram, ou algo muito difícil como vencer profissional e financeiramente podem se transformar numa fonte de inquietude.
Krishnamurti escreveu um belo livro no qual afirma que a liberdade do conhecido demanda muita coragem e maturidade. O medo de não ser como os outros desencadeia o medo de conhecer a si mesmo. Jonas tem medo de ser diferente porque essa diferença é o que ele realmente é. É isso que se tem de escutar.Quanto mais impessoal o conhecimento, mais seguro ele será; quanto mais pessoal ele se tornar, na escuta do próprio mundo interior, mais nos questionaremos a esse respeito.

É importante lembrar que o transpessoal não é o impessoal. É a passagem, a abertura do pessoal ao que o ultrapassa, sem destruir a pessoa, abrindo-a para outra dimensão. Essa outra dimensão é com a nossa própria forma que precisamos aprendê-la.



Ao medo de ser o que somos damos o nome de medo da autenticidade.Cada um de nós tem uma missão a cumprir, algo a encarnar. Essa é a pergunta de Jonas: O que tenho a fazer na vida que ninguém pode fazer por mim? E é também uma boa pergunta para cada um de nós: “ O que tenho a fazer que ninguém pode fazer por mim?”
Qual é a forma exclusiva, única, através da qual o Logos, a Inteligência Criativa, se encarna em mim? Qual é a minha forma própria de ser inteligente? Qual é a minha forma particular de amar, encarnar, e manifestar o amor no mundo?

Uma inteligência diferencia-se da outra. A maneira de amar de um não é a mesma de outro. O amor é único e a inteligência criativa é una, mas assumem formas diferentes e particulares em cada um de nós. É assim como a água que cai num canteiro. A mesma água faz que as flores se abram em diferentes cores. Uma vermelha, outra branca, outra laranja. É a mesma vida em todas, mas cada uma tem uma cor para manifestá-la e encarná-la. Uma única maneira de manifestar a vida.

do livro: Normose, a patologia a normalidade

Editora Verus.

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