GATOTERAPIA



Ronronterapia

Gatos têm poderes terapêuticos, aliviam o stress, a ansiedade e evitam até doenças cardíacas

Verônica Mambrini

Perseguidos em diferentes épocas e vítimas históricas de preconceito, os gatos estão ganhando absolvição por meio de um papel inesperado: o de terapeutas.
Em seu recém-lançado livro La Ronron Thérapie, a jornalista francesa Véronique Aïache explica, devidamente ancorada por trabalhos científicos, como o convívio com um bichano pode melhorar a vida das pessoas.

Ela relata, por exemplo, pesquisas como a do veterinário francês Jean-Yves Gauchet, que testou o poder do ronrom o som emanado pelos gatos quando estão em repouso em 250 voluntários, submetidos a uma gravação de 30 minutos do ruído de Rouky, o gato do veterinário.
Ao fim do estudo, os participantes declararam sentir mais bem-estar, serenidade e uma facilidade maior para dormir. O poder tranquilizante dos felinos foi o porto seguro da gerente comercial Cris Sakuraba, 46 anos. Não desmerecendo o medicamento, mas minha gatinha mudou minha vida, diz. Cris sofria de ansiedade, stress, depressão e agorafobia (medo de espaços abertos ou aglomerações), doenças que estavam minando sua qualidade de vida.Agora estou 95% curada dos problemas.

A gatoterapeuta Marisa Paes afirma que é capaz de fazer até quem não gosta dos bichanos se beneficiar da presença deles. Mesmo quem tem medo de gato me procura. Comigo como mediadora, a pessoa vai se desbloqueando, afirma.
Os tratamentos terapêuticos envolvendo animais começaram a ser desenvolvidos no Brasil no começo da década de 50, pela psiquiatra Nise da Silveira. O tratamento foi uma alternativa com resultados palpáveis às terapêuticas agressivas, como lobotomia e eletrochoque.

Com o gato ronronando no colo, por exemplo, a pessoa desacelera, pois ocorre a mudança de frequência das ondas cerebrais do estado de alerta para o relaxamento, diz Hannelore Fuchs, doutora em psicologia e especialista na relação do ser humano com o animal. Faz sentido.
A frequência do ronrom é entre 25 e 50 hertz, a mesma utilizadas na medicina esportiva para acelerar cicatrizações e recuperar lesões.

No ano passado, a gigante de tecnologia Apple lançou em parceria com o veterinário Gauchet um aplicativo para iPhone que usa o ronrom para amenizar os efeitos que a diferença de fuso horário em viagens provoca.


Um estudo de 2008 da Universidade de Minesota, nos Estados Unidos, mostrou que um bichano em casa reduz em até 30% o risco de ataque cardíaco, por ajudar a relaxar e aliviar o stress. Só não pode ser alérgico a pelos.

(Revista Isto é, 5-2-2010)

Escutatória, arte de escutar


Por Rubem Alves


“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia”.



“Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.”


"Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma".

.... Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem”..


“No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.
Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto ".

Rubem Alves





Arte de Escutar

Por Dalai Lama


“ É através da arte de escutar que seu espírito se enche de fé e de devoção e que você se torna capaz de cultivar a alegria interior e o equilíbrio da mente. A arte de escutar lhe permite alcançar sabedoria, superando toda a ignorância.
Então, é vantajoso dedicar-se à ela, mesmo que isto lhe custe a vida.

A arte de escutar é como uma luz que dissipa a escuridão da ignorância. Se você é capaz de manter sua mente constantemente rica através da arte de escutar, não há o que temer.
Este tipo de riqueza jamais lhe será tomado.
Essa é a maior das riquezas”

O caminho da Tranqüilidade
Sua Santidade, o Dalai Lama
Editora Sextante, RJ.

Licão de afeto

Achei nesse blog este vídeo de dois castores(creio) pequenos, irresistíveis, apreciem!

http://www.fraternidadebranca-luzdanovaera.blogspot.com/2010/01/uma-licao-de-afeto.html
Nude, de Marc Chagall


Fraser Boa: Dra. von Franz, a senhora demonstrou que os sonhos revelam a sina da humanidade, regulam a psique humana e são a chave que descerra o mistério de viver o próprio destino. Vimos aqui que eles trabalham com as mais profundas questões da vida e da morte. Mas há o problema que ainda me intriga. Se os sonhos são mensagens cuja função é informar nossa consciência, por que é que eles são tão obscuros?

VFranz: Isso intriga a mim também. Muitas vezes me perguntei, em tom reprovador: “ Por que esse maldito inconsciente fala chinês, fala essa linguagem tão difícil? Por que ele não nos diz claramente do que se trata?”

A resposta que Jung dava é que o inconsciente não o faz porque obviamente não consegue. Ele não fala a língua da mente racional. Os sonhos são a voz da nossa natureza instintiva e animal , ou, em ultima análise, a voz da matéria cósmica em nós.
Trata-se de uma hipótese muito ousada, mas eu me aventuraria a dizer que o inconsciente coletivo e a matéria atômica orgânica com toda probabilidade são aspectos da mesma coisa.
Assim, em ultima instância os sonhos são a voz da matéria cósmica.
Por conseguinte, assim como não conseguimos compreender o comportamento dos átomos ( repare no dialeto chinês que os físicos modernos têm que usar para descrever o comportamento de um elétron), precisamos usar o mesmo tipo de linguagem para descrever as camadas mais profundas do mundo onírico.
Os sonhos nos transportam para mistérios da natureza estranhos à nossa mente racional.


Podemos compará-los à física atômica, na qual as mais complicadas fórmulas não são suficientes para descrever o que ocorre. Não sei porque a natureza construiu a nossa mente racional de um modo tal que somos incapazes de compreender a natureza como um todo.
Nascemos com um cérebro que aparentemente só consegue compreender certos aspectos.


Talvez no futuro, em outro planeta, haverá mutações nas quais a natureza inventará um cérebro capaz de compreender essas coisas”.


Do livro: O caminho dos Sonhos
Marie-Louise von Franz
Editora Cultrix, SP, 1995

Viktor Frankl e a Logoterapia

Foto de Katharina Vesely, 1994.



A MENSAGEM DE VIKTOR FRANKL

por Olavo de Carvalho



No dia 2 de setembro [de 1997] morreu, aos 92 anos, um dos homens realmente grandes deste século. Acabo de escrever isto e já tenho uma dúvida: não sei se o médico judeu austríaco Viktor Frankl pertenceu mesmo a este século. Pois ele só viveu para devolver aos homens o que o século XX lhes havia tomado - e não poderia fazê-lo se não fosse, numa época em que todos se orgulham de ser "homens do seu tempo", alguém muito maior do que o século.

Viktor Emil Frankl, nascido em Viena em 26 de março de 1905, foi grande nas três dimensões em que se pode medir um homem por outro homem: a inteligência, a coragem, o amor ao próximo. Mas foi maior ainda naquela dimensão que só Deus pode medir: na fidelidade ao sentido da existência, à missão do ser humano sobre a Terra.


Homem de ciência, neurologista e psiquiatra, não foi o estudo que lhe revelou esse sentido. Foi a temível experiência do campo de concentração. Milhões passaram por essa experiência, mas Frankl não emergiu dela carregado de rancor e amargura. Saiu do inferno de Theresienstadt levando consigo a mais bela mensagem de esperança que a ciência da alma deu aos homens deste século.

O que possibilitou esse milagre singular foi a confluência oportuna de uma decisão pessoal e dos fatos em torno. A decisão pessoal: Frankl entrou no campo firmemente determinado a conservar a integridade da sua alma, a não deixar que seu espírito fosse abatido pelos carrascos do seu corpo. Os fatos em torno: Frankl observou que, de todos os prisioneiros, os que melhor conservavam o autodomínio e a sanidade eram aqueles que tinham um forte senso de dever, de missão, de obrigação.


A obrigação podia ser para com uma fé religiosa: o prisioneiro crente, com os olhos voltados para o julgamento divino, passava por cima das misérias do momento. Podia ser para com uma causa política, social, cultural: as humilhações e tormentos tornavam-se etapas no caminho da vitória.
Podia ser, sobretudo, para com um ser humano individual, objeto de amor e cuidados: os que tinham parentes fora do campo eram mantidos vivos pela esperança do reencontro. Qualquer que fosse a missão a ser cumprida, ela transfigurava a situação, infundindo um sentido ao nonsense do presente.


Esse senso de dever era a manifestação concreta do amor - o amor pelo qual um homem se liberta da sua prisão externa e interna, indo em direção àquilo que o torna maior que ele mesmo.
O sentido da vida, concluiu Frankl, era o segredo da força de alguns homens, enquanto outros, privados de uma razão para suportar o sofrimento exterior, eram acossados desde dentro por um tirano ainda mais pérfido que Hitler - o sentimento de viver uma futilidade absurda.
Frankl tinha três razões para viver: sua fé, sua vocação e a esperança de reencontrar a esposa. Ali onde tantos perderam tudo, Frankl reconquistou não somente a vida, mas algo maior que a vida. Após a libertação, reencontrou também a esposa e a profissão, como diretor do Hospital Policlínico de Viena.


Assim ele registra, no seu livro Man's Search for Meaning, uma das experiências interiores que o levaram à descoberta do sentido da vida:

"Um pensamento me traspassou: pela primeira vez em minha vida enxerguei a verdade tal como fora cantada por tantos poetas, proclamada como verdade derradeira por tantos pensadores. A verdade de que o amor é o derradeiro e mais alto objetivo a que o homem pode aspirar. Então captei o sentido do maior segredo que a poesia humana e o pensamento humano têm a transmitir: a salvação do homem é através do amor e no amor. Compreendi como um homem a quem nada foi deixado neste mundo pode ainda conhecer a bem-aventurança, ainda que seja apenas por um breve momento, na contemplação da sua bem-amada.
Numa condição de profunda desolação, quando um homem não pode mais se expressar em ação positiva, quando sua única realização pode consistir em suportar seus sofrimentos da maneira correta - de uma maneira honrada -, em tal condição o homem pode, através da contemplação amorosa da imagem que ele traz de sua bem-amada, encontrar a plenitude. Pela primeira vez em minha vida, eu era capaz de compreender as palavras: 'Os anjos estão imersos na perpétua contemplação de uma glória infinita'."


Frankl transformou essa descoberta num conceito científico: o de doenças noogênicas. Noogênico quer dizer "proveniente do espírito". Além das causas somáticas e psíquicas do sofrimento humano, era preciso reconhecer um sofrimento de origem propriamente espiritual, nascido da experiência do absurdo, da perda do sentido da vida:
"O homem, dizia ele, pode suportar tudo, menos a falta de sentido."


Das reflexões de Frankl sobre a experiência do absurdo nasceu um dos mais impressionantes sistemas de terapia criados no século dos psicólogos: a logoterapia, ou terapia do discurso - um conjunto de esquemas lógicos usados para desmontar os subterfúgios com que a mente doentia procura eludir a questão decisiva: a busca do sentido.


Mas o sentido não teria o menor poder curativo se fosse apenas uma esperança inventada. A mente não poderia encontrar dentro de si a solução de seus males, pela simples razão de que o seu mal consiste em estar fechada dentro de si, sem abertura para o que lhe é superior.
Em vez de criar um sentido, a mente tem de submeter-se a ele, uma vez encontrado. O sentido não tem de ser moldado pela mente, mas a mente pelo sentido. O sentido da vida, enfatiza Frankl, é uma realidade ontológica, não uma criação cultural.


Frankl não dá nenhuma prova filosófica desta afirmativa, mas o caminho mesmo da cura logoterapêutica fornece a cada paciente uma evidência inequívoca da objetividade do sentido da sua vida. O sentido da vida simplesmente existe: trata-se apenas de encontrá-lo.
Universal no seu valor, individual no seu conteúdo, o sentido da vida é encontrado mediante uma tenaz investigação na qual o paciente, com a ajuda do terapeuta, busca uma resposta à seguinte pergunta: Que é que eu devo fazer e que não pode ser feito por ninguém, absolutamente ninguém exceto eu mesmo? O dever imanente a cada vida surge então como uma imposição da estrutura mesma da existência humana.


Nenhum homem inventa o sentido da sua vida: cada um é, por assim dizer, cercado e encurralado pelo sentido da própria vida. Este demarca e fixa num ponto determinado do espaço e do tempo o centro da sua realidade pessoal, de cuja visão emerge, límpido e inexorável, mas só visível desde dentro, o dever a cumprir.


Em vez de dissolver a individualidade humana nos seus elementos, mediante análises tediosas que arriscam perder-se em detalhes irrelevantes, a logoterapia busca consolidar e fixar o paciente, de imediato, no ponto central do seu ser, que é, e não por coincidência, também o ponto mais alto. Eis aí por que é inútil buscar provas teóricas do sentido da vida: ele não é uma máxima uniforme, válida para todos - é a obrigação imanente que cada um tem de transcender-se.
Discutir o sentido da vida sem realizá-lo seria negá-lo; e, uma vez que começamos a realizá-lo, já não é preciso discuti-lo, porque ele se impõe com uma evidência que até a mente mais cínica se envergonharia de negar.


A logoterapia tem uma imponente folha de sucessos clínicos. Porém mais significativa do que suas aplicações médicas talvez seja a função que ela desempenhou e desempenha - a missão que ela cumpre - no panorama da cultura moderna. Num século que tudo fez para deprimir o valor da consciência humana, para reduzi-la a um epifenômeno de causas sociais, biológicas, lingüisticas, etc., Frankl nadou na contracorrente e ninguém conseguiu detê-lo. Ninguém: nem os guardas do campo nem as hostes inumeráveis de seus antípodas intelectuais - os inimigos da consciência.


Frankl apostou no sentido da vida e na força cognoscitiva da mente individual. Apostou nos dois azarões do páreo filosófico do século XX, desprezados por psicanalistas, marxistas, pragmatistas, semióticos, estruturalistas, desconstrucionistas - por todo o pomposo cortejo de cegos que guiam outros cegos para o abismo. Apostou e venceu.


A teoria da logoterapia resistiu bravamente a todas as objeções, sua prática se impôs em inúmeros países como o único tratamento admissível para os casos numerosos em que a alma humana não é oprimida por fantasias infantis mas pela realidade da vida.
Por isto mesmo a crítica cultural de Frankl, parte integrante de uma obra onde o médico e o pensador não se separam um momento sequer, tem um alcance mais profundo do que todas as suas concorrentes.
Desde seu posto de observação privilegiado, ele pôde enxergar o que nenhum intelectual deste século quis ver: a aliança secreta entre a cultura materialista, progressista, democrática, cientificista, e a barbárie nazista. Aliança, sim: seria apenas uma coincidência que o século mais empenhado em negar nas teorias a autonomia e o valor da consciência também fosse o mais empenhado em criar mecanismos para dirigi-la, oprimi-la e aniquilá-la na prática?



Dirigindo-se a um público universitário norte-americano, Viktor Frankl pronunciou estas palavras onde a lucidez se alia a uma coragem intelectual fora do comum:


"Não foram apenas alguns ministérios de Berlim que inventaram as câmaras de gás de Maidanek, Auschwitz, Treblinka: elas foram preparadas nos escritórios e salas de aula de cientistas e filósofos niilistas, entre os quais se contavam e contam alguns pensadores anglo-saxônicos laureados com o Prêmio Nobel. É que, se a vida humana não passa do insignificante produto acidental de umas moléculas de proteína, pouco importa que um psicopata seja eliminado como inútil e que ao psicopata se acrescentem mais uns quantos povos inferiores: tudo isto não é senão raciocínio lógico e conseqüente."

(Sêde de Sentido, trad. Henrique Elfes, São Paulo, Quadrante, 1989, p. 45.)



Com declarações desse tipo, ele pegava pela goela os orgulhosos intelectuais denunciadores da barbárie e lhes devolvia seu discurso de acusação, desmascarando a futilidade suicida de teorias que não assumem a responsabilidade de suas conseqüências históricas.


Pois o mal do mundo não vem só de baixo, das causas econômicas, políticas e militares que a aliança acadêmica do pedantismo com o simplismo consagrou como explicações de tudo. Vem de cima, vem do espírito humano que aceita ou rejeita o sentido da vida e assim determina, às vezes com trágica inconseqüência, o destino das gerações futuras.


Frankl era judeu, como foram judeus alguns dos criadores daquelas doutrinas materialistas e desumanizantes que prepararam, involuntariamente, o caminho para Auschwitz e Treblinka. Se ele pôde ver o que eles não viram, foi porque permaneceu fiel à liberdade interior que é a velha mensagem do Sentido em busca do homem:

"SE ME ACEITAS, Israel, Eu sou o Teu Deus."


08/10/97
(Publicado na revista Bravo! de novembro de 1997, e reproduzido em "O Imbecil Coletivo II")

Benéfica Solidão 2

Pintura feita por Carl G Jung, de seu " Red Book"( *)

“ Quando criança, sentia-me solitário e o sou ainda hoje, pois sei e devo dizer aos outros coisas que aparentemente não conhecem ou não querem conhecer. A solidão não significa a ausência de pessoas à nossa volta, mas sim o fato de não podermos comunicar-lhes as coisas que julgamos importantes, ou mostrar-lhes o valor de pensamentos que lhes parecem improváveis.
Minha solidão começa com a experiência vivida em sonhos precoces e atinge seu ápice na época em me confrontei com o inconsciente.
Quando alguém sabe mais que os outros, torna-se solitário. Mas a solidão não significa necessariamente oposição à comunidade; ninguém sente mais profundamente a comunidade que o solitário; e esta só floresce quando cada um se lembra de sua própria natureza, sem identificar-se com os outros”.

Carl Gustav Jung, do livro autobiográfico: Memórias , sonhos e reflexões
(*) Após o rompimento com Freud ( 1913), Jung entrou num período de desorientação e incertezas, e entrou em contato com imagens internas, fortes emoções e experiências psíquicas, que foram por ele relatadas e também ricamente ilustradas no seu Livro Vermelho.
Em suas palavras:
" Os anos em que eu estava perseguindo minhas imagens internas foram os mais importantes da minha vida - neles, tudo o que era essencial foi decidido. Tudo começou ali; os detalhes posteriores foram só suplementos e clarificações do material que irrompeu para fora do inconsciente, e que no início estavam me afundando".

Benéfica solidão


Mosteiros de Meteora na Grécia.












Por Martha Medeiros


Geralmente a solidão é larga, esgarçada, como uma camiseta que poderia vestir outros corpos além do nosso.


E costuma ser com outros corpos que se tenta combatê-la, mas combatê-la por quê?

Se nossa solidão pudesse ser visualizada, ela seria um vasto campo abandonado, um estádio de futebol numa segunda-feira de manhã. Dói, mas tem poesia. Por isso ela não precisa ser aniquilada, ela só precisa de um sentido.

Eu não saberia dizer que outra coisa mais benéfica para isso do que livros. Uma biblioteca com mil volumes é um exército que não combate a solidão, mas a ela se alia.

A solidão costuma ser tratada como algo deslocado da realidade, como um tumor que invade um órgão vital. Ah, se todos os tumores pudessem ser curados com amigos. Uma pessoa que não fez amigos não teve pela sua vida nenhum respeito.

Nossa solidão é nossa casa e necessita abrir horários de visita, hospedar, convidar para o almoço, cozinhar com afeto, revelar-se uma solidão anfitriã, que gosta de ouvir as histórias das solidões dos outros, já que todos possuem seus descampados.

Permita que sua solidão seja bem aproveitada, que ela não seja inútil. Em vez de tentar expulsá-la, habite-a com espiritualidade, estética, memória, inspiração, percepções. Não será menos solidão, apenas uma solidão mais povoada. "

Que Frio!!


Sobre o sonhar

Foto de Leonardo Flach









.."Os primitivos, em geral, são menos orientados no sentido tecnológico e racional, tendo portanto uma visão mais natural da vida, da morte e da vida interior. Eles têm um relacionamento melhor com sua vida instintiva.
Nós nos tornamos assimetricamente intelectuais e portanto não nos relacionamos com nossos sonhos, ou então pensamos ao despertar que eles são bobos e absurdos. È a noss primeira impressão. O homem “ primitivo” que pensa mais simbolicamente e possui, via tradições tribais, um maior conhecimento mitológico e simbólico, tem uma relação melhor com seus sono, o que significa uma relação melhor com a sua vida interior, sua vida instintiva.

- Seria esse um aspecto do trabalho da analista na sociedade moderna, quer dizer, religar o indivíduo à sua própria vida interior instintiva?Sim. É por isso que na terapia junguiana oferecemos ao paciente a oportunidade estabelecer uma relação única que não é uma técnica terapêutica, mas um encontro pessoal. Por isso Jung dizia que ao encontrar o paciente devia-se esquecer todas as teorias psicológicas. O importante é encontrá-lo com o coração e a mente, como um ser humano único. Então, cada encontro é uma aventura e o sonho é esse encontro direto.

Dentre os milhares de sonhos que já interpretei, nunca vi dois iguais. O sonho é sempre único, e sempre vem no momento certo. É uma mensagem dos poderes do instinto, os poderes do inconsciente coletivo, uma mensagem que chega num momento preciso durante uma certa noite, dirigida especificamente para o sonhador.
Os alquimistas diriam que é uma mensagem do único para o único. Quer dizer, do centro divino da psique para o indivíduo único que vive uma situação única. É por isso que não se pode prever sonhos, Você não pode ir dormir e dizer: “ Talvez eu sonhe com isso ou aquilo”. Você sempre sonhará com outra coisa.

Na raiz do sonho há um mistério criativo que não temos como explicar racionalmente. É a mesma criatividade que criou aquilo que o homem jamais poderia ter inventado: as milhares de espécies de animais, flores e plantas que há na Terra.
Os sonhos são como flores e plantas.
São algo único, diante do que só podemos nos maravilhar”.

Do livro: O caminho dos sonhos
De Marie-Louise vonFranz, em conversa com Fraser Boa.
Editora Cultrix, 1988, SP.