Religião e espiritualidade não são a mesma coisa

Blue Virgin Window, Catedral de Chartres, França.


“Religião e espiritualidade não são a mesma coisa.
Todavia são comumente confundidas. Equivale à declaração: “ Ela é um cantora excelente, faz aula de canto há anos”. É certo que existe uma ligação entre fazer aulas de canto e se tornar uma cantora profissional, mas não necessariamente. A verdade é que podemos fazer algo maquinalmente por toda a vida e nunca nos tornar de fato aquilo que tínhamos a intenção de fazer.

Com religião e espiritualidade é também assim. A primeira, a religião, tem a ver com nos conduzir a uma consciência de Deus, com nos dar as ferramentas, as disciplinas para nos prepararmos para a experiência de Deus. A outra, a espiritualidade, tem a ver com transformar a modo como vivemos como resultado daquela consciência, com infundir na vida toda um senso de Presença que transcende o imediato e lhe dá significado”.

“ A religião sem o espírito que ela deve preservar pode se tornar positivamente irreligiosa: marginalizamos os fracos, os feridos, os viciados, os outros religiosos, colocando-os fora dos limites da nossa vida perfeita. Com medo de tocar o que poderia nos contaminar. A religião – quem já não viu isso acontecer? – pode ser algo muito pecaminoso.

Se a religião em si é necessariamente tão santificadora, porque há tantas guerras, tanta matança, tanta opressão ilimitada, e tudo em nome de Deus? Talvez seja porque a própria religião às vezes perde a espiritualidade, o espírito de deus que ela prega. Apenas quando o nosso próprio coração é tão grande quanto o Deus que nos fez é que nos tornamos religiosos e espirituais.

A diferença entre religião e espiritualidade, então, é a diferença entre a ortodoxia neurótica e o misticismo. Uma é a religião para sua própria causa. O outro é a imersão de si próprio em Deus, até nos tornarmos o que dizemos estar buscando. A religião verdadeira não é para a auto-satisfação. Ela existe pelo bem do mundo – no senso hinduísta, para a criação de um tipo de carma pessoal que traz ao mundo a plenitude da vida”.

Autora: Joan Chittister
Livro: Bem-vindo à sabedoria do mundo – o que as grandes religiões nos ensinam para viver melhor.
Editora: Thomas Nelson Brasil

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