JUSTIÇA É UMA SÓ

Com olhos abertos
ou fechados?






















Eduardo Gianetti

“ A idéia de perfeição é obviamente uma ficção humana. Seu grande mérito – como no caso das utopias em geral- é servir como um contraste que inspire e permita realçar com tintas fortes a expressão do hiato entre o que é e o que pode ser: a distancia que nos separa do nosso potencial. Mais que um sonho,o ideal é uma arma com a qual se desnuda um mundo injusto , corrompido e opressivo”.

“ O caminho do inferno” acusava o militante São Bernardo do século XII, “ está repleto do boas intenções”.
O problema é que o imobilismo e a resignação também chegam lá. Se agir é muitas vezes perigoso, deixar de agir pode ser fatal.
A arte da convivência externa em sociedade está ligada à arte da convivência interna de cada uma a sós consigo. As regras impessoais da ética cívica são um mal necessário. Elas existem não para nos salvar, mas para nos proteger uns dos outros e de nós mesmos.

“ Poderia alguma coisa revelar uma falta de formação mais vergonhosa” indaga Platão na República “ do que possuir tão pouca justiça dentro de nós mesmos que se torna necessário obtê-la dos outros, e desse modo se tornam nossos senhores e juízes?”

Mas muito mais grave e terrível que isso, pode-se argumentar, seria uma situação na qual, embora os cidadãos reconheçam a necessidade de obter justiça de fora, esta lhe é negada ou é pervertida por um judiciário inoperante e/ou corrupto.
O grau zero da ética social cívica , contudo, seria uma situação na qual os cidadãos sentem-se de tal forma certos e convictos de que possuem dentro de si toda a justiça de que necessitam que eles passam a julgar e agir por conta própria, ou seja, sem precisar incorrer na vergonha platônica de ter que recorrer a qualquer tipo de árbitro externo para a solução de seus conflitos e desavenças”.

“ A experiência mostra que a progressiva anemia da ética cívica pode tornar-se tão corrosiva e destruidora da liberdade individual – minando a confiança, que nos sentimos justificados em depositar nos outros na vida prática e afetiva- quanto a sua hipertrofia totalitária.

O grande desafio é encontrar um equilíbrio entre as exigências da ética cívica e as demandas da ética pessoal- uma grama´tica da convivência que de alguma forma encontre o ponto adequado para a inevitável tensão entre os dois imperativos de melhor sociedade: liberdade e justiça”

Eduardo Gianetti
Auto-Engano
Companhia das Letras

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