ACREDITO EM DEUS?

Rubem Alves


Ah, tanta gente quer saber se acredito em Deus! Mas eu não entendo tal pergunta porque não sei o que elas querem dizer com essa palavra “ acreditar”.
As palavras são enganosas.... Palavras são bolsos vazios. À medida que a gente vai vivendo, vai pondo coisas dentro do bolso. O bolso que tem o nome “ Deus” fica cheio de quinquilharias que catamos pela vida”.

“ Acreditar” no sentido comum que as religiões dão a essa palavra, refere-se a entidades que ninguém jamais viu, tais como anjos, pecados, santos, milagres, castigos divinos, inferno, céu, purgatório... No meu bolso sagrado “ acreditar é palavra que não entra. Ele está cheio é com palavras que têm a ver com amor, mesmo que o objeto do meu amor não exista.
Lembro-me das palavras de Valéry: “ Que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem? Muitas coisas que não existem têm poder....

Eu amo a beleza da natureza, da música, de um poema. Amo a beleza das palavras de amor que os apaixonados trocam. Uma criança adormecida é, para mim, uma revelação, uma ocasião de espanto.
Acho que Bachelard adoraria nos mesmos altares que eu: “ A inquietação que temos pela criança”, ele escreveu, “ sustenta uma coragem invencível”.
Uma criança é um pequeno deus.

Para mim, a beleza é sagrada porque, ao experimentá-la, eu me sinto possuído pelo Grande Mistério que nos cerca. Sinto-me como uma aranha que constrói a sua teia sobre o abismo.
O abismo está à volta de nós, o abismo está dentro de nós.

De Deus só temos a suspeita. A beleza é a sombra de Deus no mundo.

...Estou de acordo com Alberto Caieiro: “ Pensar em Deus é desobedecer a Deus, porque Deus quis que não o conhecêssemos...”
Se ele quisesse que eu acreditasse nele, sem dúvida que viria falar comigo e entraria pela porta dizendo-me: “ Aqui estou”.

E de acordo também com Walt Whitman... “ Escuto e vejo Deus em todos os objetos, embora Deus mesmo eu não entenda nem um pouquinho.” “Já percebi que estar com aqueles de quem gosto é o quanto basta...”
Buber concordaria. Estar junto é divino. Deus mora nos intervalos entre as pessoas que se amam.

Amo a sombra de Deus. Mas ele mesmo eu nunca vi. Sou um ser humano limitado. Só sou capaz de amar as coisas que vejo, ouço, abraço, beijo...

Tenho, isso sim, um bolso com o nome de “ O Grande Mistério”.
Mas não sei o que está dentro dele. Por vezes suspeito que é o meu coração....

Rubem Alves
Livro: Desfiz 75 anos
Editora Papirus.
Deixe um comentário!