Sobre o Sonhar 2

Nude, de Marc Chagall


Fraser Boa: Dra. von Franz, a senhora demonstrou que os sonhos revelam a sina da humanidade, regulam a psique humana e são a chave que descerra o mistério de viver o próprio destino. Vimos aqui que eles trabalham com as mais profundas questões da vida e da morte. Mas há o problema que ainda me intriga. Se os sonhos são mensagens cuja função é informar nossa consciência, por que é que eles são tão obscuros?

VFranz: Isso intriga a mim também. Muitas vezes me perguntei, em tom reprovador: “ Por que esse maldito inconsciente fala chinês, fala essa linguagem tão difícil? Por que ele não nos diz claramente do que se trata?”

A resposta que Jung dava é que o inconsciente não o faz porque obviamente não consegue. Ele não fala a língua da mente racional. Os sonhos são a voz da nossa natureza instintiva e animal , ou, em ultima análise, a voz da matéria cósmica em nós.
Trata-se de uma hipótese muito ousada, mas eu me aventuraria a dizer que o inconsciente coletivo e a matéria atômica orgânica com toda probabilidade são aspectos da mesma coisa.
Assim, em ultima instância os sonhos são a voz da matéria cósmica.
Por conseguinte, assim como não conseguimos compreender o comportamento dos átomos ( repare no dialeto chinês que os físicos modernos têm que usar para descrever o comportamento de um elétron), precisamos usar o mesmo tipo de linguagem para descrever as camadas mais profundas do mundo onírico.
Os sonhos nos transportam para mistérios da natureza estranhos à nossa mente racional.


Podemos compará-los à física atômica, na qual as mais complicadas fórmulas não são suficientes para descrever o que ocorre. Não sei porque a natureza construiu a nossa mente racional de um modo tal que somos incapazes de compreender a natureza como um todo.
Nascemos com um cérebro que aparentemente só consegue compreender certos aspectos.


Talvez no futuro, em outro planeta, haverá mutações nas quais a natureza inventará um cérebro capaz de compreender essas coisas”.


Do livro: O caminho dos Sonhos
Marie-Louise von Franz
Editora Cultrix, SP, 1995

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