Resiliência

Flores do cerrado brasileiro: resiliência pura!


Não podemos evitar as ondas do oceano, mas podemos aprender a surfá-las!


Por Tereza Kawall

Sob a tirania implacável do relógio, nosso dia a dia contemporâneo exige muita energia, competências, inúmeras e crescentes habilidades. Sobreviver é uma tarefa difícil e complexa, especialmente nos grandes centros urbanos onde vivemos de um lado para outro, sobressaltados e estressados. Muitos de nós talvez ainda se lembrem da imagem daqueles malabaristas de circo, que ofegantes, faziam girar vários pratos simultaneamente, correndo de lá pra cá, girando-os mais uma vez para eles não caíssem no chão.

O capitalismo, é um modelo econômico que empurra o cidadão sem nenhuma cerimônia para o consumo desnecessário, quer ele queira , perceba ou não. Há uma felicidade artificial e inadiável que é oferecida pela mídia, um verdadeiro “ canto das sereias”, cuja melodia tem em seu refrão várias vezes a palavra “ comprar”.


A competição, o transito caótico, as más notícias e todos os tipos de decepções permeiam nosso cotidiano. Como conseqüência, ficamos fragilizados e repetitivos, desesperançosos e perdemos muita energia vital .


Haja resiliência!

Seria essa a expressão mais adequada aos dias de hoje. A paciência por si mesma já não basta, além dela precisamos ser determinados, confiantes, ousados e ao mesmo tempo flexíveis, conscientes para manter os problemas em perspectiva; alguns têm solução e outros não, e deixar que o tempo se encarregue de mostrar os caminhos e, sobretudo aprender a olhar de forma diferente para eles, achar novas maneiras e estratégias de contornar as adversidades.


O indivíduo pode ser mais ou menos resiliente, se levarmos em conta fatores intrínsecos de personalidade, valores, educação ou heranças parentais. Nossa cultura ocidental sempre deu um enorme valor à figura do herói como um ser que deverá superar situações de extrema dificuldade para proteger a própria vida, salvar algo ou alguém. Na mitologia temos o arquétipo do herói que passa por inúmeras provações, desafios físicos e morais, e que ao final de sua saga voltará transformado trazendo uma mensagem de verdade e esperança.

O sofrimento, as perdas e frustrações são inevitáveis durante a vida, e não há ninguém que possa dizer que não passou por eventos difíceis e traumáticos durante seu desenvolvimento.


No entanto, a atitude resiliente não é sinônimo de força ou coragem no sentido mais egóico ou heróico do termo. Ela pressupõe também uma sabedoria e criatividade, um discernimento que aparece como conseqüência de experiências anteriores, algo que também é um ganho, à medida que as adversidades vão criando uma espécie de “ musculatura interior”.

Numa pessoa resiliente devem estar presentes uma capacidade de adaptação e flexibilidade perante o seu destino, e de fazer as mudanças necessárias quando elas são inevitáveis.
Nossa idéia é que a resiliência pode e deve ser exercitada, não é algo simplesmente herdado ou uma traço de personalidade. Como seria isso?

Treinando a resiliência

Aceitação
Em primeiro lugar, não negar o problema quando ele bate à sua porta; a negação só faz aumentar o seu tamanho, assim como acentuar a resistência para as mudanças.
As soluções podem começar a aparecer a partir dessa compreensão; como posso mudar aquilo que não vejo?

Controle
Uma vez que a vida é inexoravelmente mutável e transitória, as reações de controle apego são ineficazes. Muito ao contrário do que se pensa exercer muito controle sobre tudo e todos não é uma solução; há um curso próprio da vida e dos eventos que independente da minha vontade e da minha opinião.
O criticismo exagerado e altas expectativas de resultados são a porta aberta para desilusões. Assumir fraquezas ou incompetências para si mesmo é antes de mais nada, um ato de coragem.

Aprendizado
Adotar uma perspectiva de entendimento e aprendizado, quando algo traz muita contrariedade ou angústia; há formas distintas também para o sofrer, posso sofrer com inteligência ou com burrice!
Na primeira há mais crescimento dignidade, na segunda há uma vitimização e uma busca incessante de culpados que acabam por paralisar a vida.
Os trabalhos psicoterapêuticos eficientes podem mostrar que não precisamos nos identificar com o sofrimentos ou padrões negativos, mas sim, examiná-los e aprender com eles.

Pré-ocupação

John Lennon disse:
“Vida é uma coisa que acontece, enquanto você fica preocupado, fazendo planos” .

Não se preocupar demais com o futuro. Sofrer por antecipação é um dos males do homem contemporâneo, a ansiedade é corrosiva para a saúde, afeta o sistema imunológico, e sua base é o medo e a falta de confiança. Não há fórmulas mágicas para superar crises e dificuldades sejam elas quais forem, mas individuo resiliente tem um diferencial na forma de atravessar esses momentos. Concentração, foco e tolerância podem moldar uma forma diferente de olhar um problema pois nossa mente é maleável, e a felicidade é também uma forma de interpretar a realidade.

Disse um mestre: Não podemos evitar as ondas do oceano, mas podemos aprender a surfá-las”

O surfista sabe muitas coisas, tem jogo de cintura, agilidade, presença de espírito, amor pelo esporte, conhece o mar, conhece os ventos favoráveis e sabe a hora de pular fora da onda, pois logo atrás já vem vindo outra!


Conclusão
Na filosofia budista muito se fala da natureza transitória da vida, que é uma sucessão de ciclos, tudo está em constante mudança, nada é definitivo; essa percepção é fundamental para vivermos uma vida de mais qualidade. Para um bebê o desafio é andar e falar, para um jovem é decidir-se pelo estudo e profissão; se a cada nova etapa pudermos fazer sempre o melhor, já fizemos muito.

Quando falamos de fortalecer o espírito falamos de conhecimento e prática, senão corremos o risco de cair em retóricas evasivas. Um corpo para ser forte e vigoroso precisa de exercícios, movimentos e boa alimentação.
Nossa mente e nosso espírito também podem ser cultivados com bons pensamentos, boas palavras e boas ações, da mesma forma que um solo fértil e arado com boas sementes trará, na hora certa, as flores e os frutos esperados.

A prática da meditação de forma disciplinada, assim como a yoga e técnicas de respiração e relaxamento podem ser fundamentais para o desenvolvimento desta visão ou postura mais resiliente perante a vida. Os seus resultados aparecem de acordo com a dedicação, assim como tudo em que desejemos ter maestria.

Essas práticas levam a um maior poder de concentração, nos tirando do conhecido “ piloto automático”, em que atarefados caímos na mesmice, fazemos várias coisas sem nenhuma atenção. A concentração, diferentemente da tensão, nos ajuda a valorizar sentimentos de alegria e prazer, onde moram nossas reservas de clareza, criatividade e sabedoria, e que tão pouco acessamos.
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Está na moda cuidar do corpo, malhar, correr, mas essas atividades quando viram obrigação ou obsessão, são fontes de stress. Que tal uma caminhada mais tranqüila num parque, numa mata, ouvindo os sons que dela vem, percebendo a sua respiração, os tons de verde que estão à sua volta? Sem relógio e sem celular, claro!

Curtir a natureza, conviver, estar perto de animais, brincar com eles produz sensações de prazer e alegria que nos tornam mais calmos e relaxados. Se a impermanência é uma das características da existência, seguramente a valorização do momento presente é uma forma de exercitarmos a resiliência.
E claro, todas as atividades prazerosas como ouvir boa música, dançar, cantar, estar com amigos.

Podemos ser artistas da nossa própria existência, cuidando a cada dia de nosso maior patrimônio, nossa saúde física, emocional e espiritual.
De forma bem simples podemos dizer que a “ máxima” resiliente é: “
Levanta , sacode a poeira e dá volta por cima”!


Publicado na revista Planeta, janeiro 2010
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BibliografiaAprenda a relaxar
Mike George
Editora Gente
Mente alerta
Kabat-Zinn
Editora Objetiva

Stress a seu favor
Susan Andrews
Editora Agora

Em busca do Sentido
Viktor E. Frankl
Editora Vozes

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