Filme A Partida




Por Tereza Kawall

Assistir ao filme A Partida ( Okuribito, Japão), melhor filme estrangeiro de 2009, foi um lindo presente neste final de ano.
Vira e mexe, leio por aí que o presente é, afinal, o maior presente que recebemos todos os dias. Acordar, nos sabermos vivos, respirando, caminhando, olhando em volta...
Que horas são? Alguns logo espreguiçam para acordar primeiro o corpo, outros viram para o lado para mais uma soneca!
É tudo sempre igual, embora nenhum dia seja igual, e isso vale para ontem e valerá também para o amanhã.


O fato é que de uns tempos para cá a morte tem feito visitas mais constantes em minha vida: seria minha idade? Pode ser muitas coisas, mas vejo adolescentes, os trintões, os cinquentões e claro, os mais idosos indo deste plano para um outro misterioso lugar...

Então penso que há uma coisa que está se acelerando, e que me obriga e considerar mais de perto este tema, e sobretudo trazer esta percepção para a consciência do aqui agora, do que é realmente importante.
Quando alguém parte, a conclusão fatal e inequívoca é que ”só levamos a roupa do corpo”, mas as frases são apenas um pequeno pedaço da ópera, que ninguém sabe cantar, mas o fazemos sob o impacto da emoção e da perda, um pequeno ensaio existencial. Para onde foi aquela pessoa? Choramos por nós ou choramos por ela?
E algumas horas ou dias depois ( nas possíveis variações do grau de proximidade com a pessoas falecida), tudo vai sendo esquecido, os tons vivos se tornam mais pastéis, as imagens se dissipam como folhas levadas pelo vento.
Lembro de um amigo que assim escreveu:

“A evidencia da vida é um fato tão patente que a morte , forçosamente, reveste-se de irrealidade”

Mas voltemos ao filme, que é lindo sob vários aspectos, roteiro,música, fotografia.

A morte nos é apresentada sob um ângulo muito especial, de delicadeza e respeito, ali ela é enfeitada ou emoldurada como uma forma de reverenciar tanto aquele que parte quanto aqueles que ficam.Sempre dizemos que não queremos levar a imagem de alguém no caixão, mas ali sucede justamente o contrário!

E no filme vemos uma perfeita e comovente atuação dos personagens, que executam em gestos delicados, firmes e respeitosos, o ritual de purificação do corpo, com as melhores vestimentas, flores e maquiagem. Tudo para que o morto, faça sua passagem com mais beleza e dignidade. A morte é uma presença.

Há o protagonista, o filho que saiu da cidade natal para a capital e depois volta, já casado, para a casa da infância, e o reencontro com objetos, fotos e pessoas do passado.
Vemos o tema delicado da difícil relação deste jovem com o pai, que ao final do filme é mostrada de uma forma magnífica, reunindo a dimensão emocional e espiritual numa inesperada descoberta, que é a chave da superação e libertação do personagem. E a morte/vida que se renova na criança que vai chegar.
Amor e morte nos são apresentados como rituais iniciáticos, que promovem a transformação da alma, para que novos significados possam nascer e florir.

O amor que parecia não existir, sempre esteve ali, silencioso e distante.
Quantas vezes precisamos perder alguém para que o amor por ela possa realmente aparecer?
Porque o milagre da vida e do existir só salta aos olhos quando a morte nos assombra?
Porquê não reverenciamos mais e melhor a possibilidade da nossa própria morte?

Porque a idéia de vivermos 90 ou 100 anos é sedutora?
De onde vem essa dificuldade de aceitar o fato que a cada dia estamos um pouco mais próximos daquilo que nem queremos falar?

Até as flores tem a sua própria sorte,
Algumas enfeitam a vida,
Outras enfeitam a morte

Que os jardins de nossa alma, suas emoções, anseios, pensamentos e receios possam ter todos os tipos de flores, cada uma com um perfume ou forma diferente, uma cor típica, pois todas são igualmente belas e tem algo a nos dizer.




3 comentários:

  • Adelia Ester Maame Zimeo | 8 de janeiro de 2010 20:46

    Tereza Querida, quanta sensibilidade para a análise deste filme...em última instância sobre a "partida"! Li e reli este texto, pois é muito profundo... O silêncio me acompanha após tal leitura, destacando o cerne de toda esta lindíssima reflexão: "Amor e morte nos são apresentados como rituais iniciáticos, que promovem a transformação da alma, para que novos significados possam nascer e florir". Parabéns! Beijo Afetuoso.

  • Denise | 10 de janeiro de 2010 19:00

    Olá, Tereza!

    O filme, muito bem comentado pela crítica e por vc, trás esse viés da questão bem escondida por nós, salve que a morte nos ronde, nos tome de assalto. Perguntar-se - como lindamente expôs aqui dúvidas irmãs às minhas - sobre esse desconhecido momento (a analogia com a ópera foi magnífica!) que não podemos recusar a presença é a sina daqueles que ficam, quando choram aquele que parte.

    No entanto, tantas outras "mortes" nos arrastam para o vale do limbo, atiram em abismos profundas, jogam no leito de morte da dor desumana que sentimos diante da perda de um sonho, de um alguém cujo amor foi embora...o outono varre nossas vidas nessas horas funestas, impiedoso, quase mais do que quando se recobra e recolhe as folhas assim que o frio que gelou a alma, floresce, para depois aquecer novamente. Estações da vida, das perdas sentidas...não importa como ocorridas!

    Perdoe a avalanche, mas como vês, despertou em mim algum "monstro" bem guardado...rs

    Muito bom ler-te!
    Abraço forte!

  • Anônimo | 14 de janeiro de 2010 13:04

    belíssimo mama. love you.