Paisagens da Alma
















A alma é uma paisagem.
Ou melhor, paisagens. Paisagens são feitas com campos, florestas, montanhas, rios, mares, nuvens – “coisas” que ficam fora de nós, que os sentidos percebem e nós lhes damos nomes.As paisagens da alma, entretanto, não são feitas de “ coisas”. São feitas de sentimentos. E os sentimentos, nós não temos como dize-los, os sentidos não conseguem fotografá-los.

Então um artista que mora dentro da gente, o tal de inconsciente, lança mão de um artífício: ele veste s sentimentos da paisagem com as coisas da paisagem de fora. Um medo muito grande aparece como um precipício; o tédio se parece com uma chuva persistente em meio a brumas.... Vingança? Um tigre.... A perda de um amor? Um velório.... E a experiência de liberdade? Você nunca voou nos sonhos?

Dessa forma o “artista” torna visíveis as paisagens da alma por meio de metáforas.
O “ artista”, além de ser pintor, é também um poeta.
Os sonhos são efêmeras visões das paisagens da alma, as paisagens que fazem nossa pele do lado de dentro, o lado do coração.
Quando a gente vê uma paisagem de fora e se emociona, a emoção não vem da paisagem de fora. Vem da paisagem de dentro.
Geralmente se pensa que a função dos psicanalistas é curar doenças da alma. Não concordo. Não sei se eles podem curar qualquer coisa. O que acho é que eles são os guias que nos levam a visitar paisagens da alma que nós mesmos desconhecemos. Bosques escuros, mares profundos, montanhas cobertas de neve, campos floridos, cemitérios...

Essa aventura não cura nada. Ela nos conduz por experiencia de tristeza e beleza. E isso nos torna mais sábios. A sabedoria é uma forma de cura. Mas preciso confessar que as trilhas mais fascinantes da minha alma, não foi a minha psicanalista que me revelou.
Foram os livros. Desses, o mais extraordinário é História sem fim, de Michael Ende. Tentaram transforma-lo em filme. Mas muita coisa se perdeu no caminho do livro para o cinema.
O outro é Viagem a Ixtlan, as lições de feitiçaria do bruxo D. Juan. É infinitamente superior aos livros que se veem nas livrarias e que contam estórias de mundos mágicos.Pena que não tenha sido reeditado.

Rubem Alves
Livro: Desfiz 75 anos
Editora Papirus, SP, 2009.

2 comentários:

  • Denise | 4 de janeiro de 2010 00:25

    Olá, Tereza.
    A indicação de teu blog veio de uma amiga em comum, Adelia, e mal cheguei já encontrei Rubem Alves...bom presságio, gosto demais dele!

    Virei mais vezes, estou te acompanhando.
    Desejo um ano ótimo, que seja amigo das mudanças e realizador!
    Abraços!

  • Adelia Ester | 5 de janeiro de 2010 00:59

    Tereza Querida, que mergulho poético brilhante Rubem Alves fez nas "paisagens da alma"! Este eu ainda não conhecia. Sensacional!Beijo.