Amiga

Mary e eu, um dia feliz.

Tudo já foi dito a respeito
Da maravilha de ter bons amigos
O mesmo acontece com o amor,
Nunca nos cansamos de enaltecê-lo
Mesmo porque se é verdade
Que Eros tem muitas faces,
O amor que vai para o amigo
Ou que vem dele pra gente
Não é menos especial.

Tem uma espécie de ritmo,
A cumplicidade dos segredos
Uma deliciosa, ( e necessária) falta de intransigência
E claro, alguma paciência.
Porque para aprender, precisamos repetir, repetir...
Quantas vezes falamos a mesma coisa,
E ele ( o amigo/a) “simplesmente” ouve?
Sem falar no colo, onde entregamos
Nossa cabeça, nossas as aflições,
Desejos e sonhos desfeitos.

Assim é minha amizade
Assim é minha amiga
Tem um pouco de tudo
Mas cada tudo é muito!
Afeto, saudades, conselhos, silêncio, trocas, aceitação...
Assim, creio que esta amizade
É verdadeiramente “ holística”!
Tereza Kawall




Qualidade de vida = Qualidade do pensamento

foto: Araquém Alcantara

Por Tereza Kawall

Dê “ passagem" aos pensamentos,
Recue um pouco, observe-os, sinta-os,
Veja que eles vão e voltam, rodopiam
Cansam, repetem cantilenas monótonas
Parecem ficar pendurados na gente,
Alguns são mais encantados e articulados
Afinados com a realidade objetiva,
Querem chegar a algum lugar,
Outros nos fazem reféns
De suposições infrutíferas, caóticas
Inibem a criatividade da ação
E das novas perguntas,
E da reflexão que promove mudança.

Dê passagem aos pensamentos, não se apegue a eles,
Não se identifique muito com suas vozes
Que são estridentes e dissimuladas
Eles não são a verdade, tampouco a realidade,
São a nossa interpretação dela
Que varia de acordo com nossa paisagem interior
Quem sabe até do nosso bom ou mau humor.
Dê passagem aos pensamentos, percepções, aflições
Deixe-os ir, abra a gaiola, crie espaços
Para imaginar e deslizar mais no aqui-agora.

Nossos pensamentos negativos
Nos perseguem, inexoravelmente
Como a roda barulhenta da carroça
Que igualmente persegue os passos dos bois,
Que preferem andar sempre
Pelos mesmos caminhos, e quando empacam.....
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“Talvez o único local onde possamos realmente nos sentir livres seja em nossa mente. No entanto, o pensamento é sensível ao crescimento de rotinas restritivas.
Muitas vezes, nossas ansiedades são tão habituais que, ao pensarmos em possíveis soluções para elas, caímos nas mesmas respostas.
Ao tentar várias vezes chegar ao centro do labirinto, nada conseguimos aprender sobre as voltas erradas que demos.
Libertar o pensamento do hábito é um dos mais difíceis desafios que enfrentamos na busca por satisfação. Qualquer tentativa vai imediatamente de encontro a um obstáculo, pelo fato de que o pensamento ser tanto objeto quanto meio da nossa análise.

Facilmente ficamos emaranhados no paradoxo, com uma sensação frustrada de nó comprimindo a mente.
Se isso ocorrer, pare de pensar e dedique-se a alguma coisa mais física e rotineira. A meta é abrir caminho por entre as camadas da complicação, e não adicionar mais.
Para ajudar o pôr ordem num cenário mental caótico, o ideal é identificar quatro níveis de pensamento.

Níveis de pensamento

O primeiro ( mais baixo) nível é o pensamento negativo. Ele é crítico, bravo, medroso, egoísta e preguiçoso. Só causa tristeza e desconforto.
O segundo nível é o pensamento inútil, no qual a tendência é ficar chocando o passado.
Preocupamo-nos sobre o que aconteceu ou o que poderia ter acontecido e gastamos tempo nos sentindo ansiosos a respeito de coisas que não podemos ter controlar.
Em seguida, temos o pensamento necessário, como “ preciso comprar comida” e “ preciso apanhar meus filhos na escola”.
No entanto, o nível mais elevado é o pensamento positivo. Ele cria paz, amor e criatividade; encoraja a harmonia e a felicidade.
Conhecendo esses níveis, podemos liberar nossos pensamentos, elevando-os ao nível mais alto, libertando assim, das algemas do hábito”.

Mike George
Aprendendo a Relaxar
Editora Gente, SP

“ Os pensamentos podem ser nossos melhores aliados ou piores inimigos.Quando fazem com que sintamos que o mundo inteiro está contra nós, cada percepção, cada encontro, e a própria existência do mundo tornam-se fontes de tormento. São os nossos próprios pensamentos que se erguem como inimigos. Eles percorrem a nossa mente como o estouro de uma boiada; cada um cria seu pequeno drama, causando uma confusão que aumenta cada vez mais. Nada vai bem do lado de fora, nada vai bem no interior”.

Do livro: Felicidade
Matthieu Ricard
Editora Palas Athena



“ O simples fato de nos perguntarmos se existem outras possibilidades, faz com que a visão da nossa situação se amplie; podemos parar, ver e refletir, antes de nos comprometermos, de forma mais inteira, com as nossas maneiras habituais de conhecer. Se reconhecermos que, apesar dos fatos que provocam frustração ou dor, é dentro da nossa própria mente e do nosso coração que os sofrimento ocorre, podemos começar a avaliar os nossos recursos internos e aprender a confiar neles de uma nova forma”.


Do livro:Conhecimento da Liberdade
Tarthang Tulku
Editora Palas Athena

Tudo respira em uníssono








RICHARD TARNAS

Nascido em Genebra (21 de fevereiro de 1950), Richard Tarnas é graduado da Universidade de Harvard e do Harvard do Instituto Saybrook. Trabalhou durante dez anos como diretor de Programas do Instituto Esalen. Ele é o fundador do programa de pós gradução de filosodofia, Cosmologia e Consciência do Califórnia Institute of Integral Studies e membro do corpo docente adjunto da Pacífica Graduate Institute.É casado, tem dois filhos, de 20 e 33 anos.

Seu livro: “A Epopéia da Mente Ocidental" (publicado no Brasil pela Bertrand Brasil ) , Richard Tarnas relata a evolução do pensamento ocidental desde a Grécia antiga até a Renascença, e a revolução cientifica até o alvorecer do século XXI, mostrando as idéias centrais da filosofia, religião e ciência que forjaram nossa perspectiva cultural única.
Hoje, diz ele, nos encontramos desconsolados, vagando entre dois mundos – um que morre e outro que está lutando para nascer.
Por um lado, as certezas espirituais e intelectuais já não são suficientes. Por outro lado, as promessas de uma visão mais integral, uma cosmologia do amanhã- baseado em um relacionamento mais profundo com a natureza e com o cosmos maior exigem de nós um salto de fé, que poucos querem assumir.

A editora espanhola Atalanta , publicou Cosmos e Psique, extenso livro que documenta a cartesiana cisão do cosmos, muito utilizada para isolar a Astrologia. Mas nos dias de hoje alguns voltam a intuir que não há uma psique dentro e um cosmos fora, há uma dinâmica integrada que a Astrologia pode traçar em seus mapas.

Para mim, por hora, basta-me ver a astrologia como prova da fértil imaginação de nossa psique, insaciável leitora do cosmos...”

“Mas também é certo que nossa imaginação é a eclosão do muito imaginativo do cosmos..”.

"Tenho um sentido profundo do divino, que descubro desdobrando-se na psique, no cosmos”.

Entrevista feita por Vitor M. Amela

Os astros influem em minha vida?
Você e eles estão conectados.
E determinam o que faço?
Não é isso. Verá: que horas são?
Doze e meia...
E como soube disto?
Olhando aquele relógio.
E os ponteiros daquele relógio causam as doze e meia?

Não
Pois assim acontece com os astros: não causam nada, os ponteiros de relógio nos quais podemos ler as horas são os arquétipos do cosmos.
Mas uma coisa é o cosmos, e outra, eu.
Ah, aqui você expressa a paixão da mente ocidental que quis despender-se do cosmos até sentir-se autônoma e considerar o cosmos como um mecanismo externo e inanimado. Algo que é absolutamente irreal!
Por que?
Porque somos cosmos em forma humana! Nós somos o modo através do qual o cosmos se faz consciente de si mesmo. Eu gosto de como o formulou o filósofo Plotino (III d.C.):
“Tudo respira em uníssono”.

Mas Saturno é uma pedra bruta inanimada, enquanto que eu sou minha psique.
O que você chama “minha psique” não é mais do que a respiração do cosmos. Cosmos e psique são duas formulações de uma mesma e única realidade. E as conjunções dos astros viabilizam a dinâmica cósmica, quer dizer, a dinâmica arquetípica da psique. Isto é o que estuda a astrologia arquetípica.

Ela é muito diferente de outras astrologias?
Seu enfoque esta de acordo com os atuais enfoques da psicologia transpessoal, da física quântica, da teoria do caos e dos fractales, a ecologia e Gaia, a filosofia holística...
Há lugar para a liberdade pessoal?
É precisamente a visão participativa do homem no cosmos: cada um de nós é o cosmos atuando. Há uma dinâmica cósmica, uma melodia que cada um interpreta com um estilo. Veja o Hitler e o Chaplin.
O que acontece com Hitler e Chaplin?
Nasceram quase ao mesmo tempo e compartilharam aspectos de suas cartas natais, mas podemos ver como foram tão distintas as maneiras como os desenvolveram!
Em que eles se pareciam?
Ambos tinham dificuldades com a autoridade, tendências tirânicas, potenciais para as artes, atração por jovens emocionalmente imaturos, e grande capacidade de comunicação.
Fale-me de uma dinâmica cósmica: como funciona, com que mecânica?
É um mistério! A ciência não alcança isto.
Para que serve a astrologia arquetípica?
Para intuir a dinâmica profunda das coisas, como o bom surfista intui a dinâmica das ondas: compreender o passado e o presente ajuda a surfar melhor na onda do futuro.
Desde quando há astrólogos?
Sempre, são observações antiqüíssimas. Antes de ser açoitado por sustentar que a Terra orbitava ao redor do Sol, Galileu tinha sido açoitado por ser astrólogo!
Eu não sabia disso...
A Igreja se assustou com as precisas predições de Galileu: onde ficava a vontade divina se tudo estava nos astros?
Houve outras mentes eminentes interessadas na astrologia?
Platão, Aristóteles, Dante, Goethe, Yeats, Jung, Kepler.! A curiosidade de Newton pela astrologia o conduziu à matemática. Nos momentos mais criativos do Ocidente a astrologia sempre aflora.
Como você chegou à astrologia?
Durante umas indagações psicológicas junto com o Stanislav Grof nos assombrou a constatação de como cartas astrais indicavam episódios de transformação psíquica. Então decidi estudá-la, sem considerar o incômodo que isto causa, como fizeram os que vituperaram contra Copérnico...
Que evidências o fascinaram mais?
Tantas... Impressiona-me a correlação entre as configurações planetárias e a era axial.
O que é a era axial?
Os séculos VI e V a.C. são assim denominados em função da formidável eclosão vivida pela humanidade: Sócrates, Buda, Confúcio, Pitágoras, Lao Tse, Zoroastro, jainismo, os profetas hebreus... Não há um período histórico igual!
E o que nos dizem os astros a respeito daquilo?
Urano, Netuno e Plutão estavam alinhados de modo quase perfeito. Observei que os alinhamentos entre dois destes três planetas correspondem sempre a revoluções de consciência. Os três de uma vez...
E como andam agora estes planetas?
Plutão e Urano se alinham, o que assinala inovações criativas e culturais.
Possivelmente como esta que postula você?
As mudanças de paradigma não são de um dia para outro, vão impregnando as consciências… Copérnico fazia esta mesma reflexão a respeito de seu revolucionário giro.
O ano de 2012 será apocalíptico, dizem...
Pode acontecer algo que venha colorir o processo de transformações no qual já nos encontramos, como antes escolhermos o ano de 1789 para simbolizar aquele extenso processo revolucionário.
Que devo esperar dos horóscopos da imprensa?
Só entretenimento. Eles focalizam o Sol no momento do nascimento: isto equivale a querer abranger o estado integral de nosso organismo observando apenas o coração.
Tem sentido dizer: “Sou Libra”?
É como se você disesse “sou jornalista”: isto não expressa à complexidade da sua pessoa.
Somos leitores do cosmos: a astrologia é uma leitura, e ler é criar. Sim?
Ficou bonito, mas não entenda o cosmos como uma projeção mental: o desenvolvimento da consciência é o desenvolvimento do processo de auto-revelação do cosmos.


A CONTRA VANGUARDA, 19 de fevereiro de 2008.


“Há uma íntima conexão entre as coisas dos homens e os planetas.”

“A física quântica mostrou que o edifício da razão tinha gretas”

Os planetas estavam alinhados da mesma maneira no dia em que Jimi Hendrix arrasou ante as multidões com sua forma heterodoxa de tocar o violão e o dia em que Viena se rendeu aos pés de Beethoven pela profundidade de seus concertos de piano. Explica-o Richard Tarnas, professor de filosofia e psicologia na Califórnia, formado em Harvard e doutorado pelo Instituto Saybrook. Certamente, um tipo pouco habitual no mundo acadêmico.

Em “Cosmos e Psique” o que Tarnas defende é que tudo está relacionado e que há uma íntima conexão entre o microscópico e o macroscópico, entre as coisas das criaturas humanas e a marcha dos planetas, e insiste em assinalar a extrema complexidade do mundo e a pluralidade das perspectivas através das quais pode ser analisado.
Tarnas considera que nos tempos atuais reina uma profunda insatisfação e os homens não encontram uma maneira coerente para explicar as grandes questões.

“O reinado da razão foi avassalador, e foram tantos os lucros tecnológicos que propiciou que parecia que se impunha um progresso irreversível”, explica.

“Logo vieram os excessos e hoje parece claro que isto foi muito longe. Aí estão as crises ecológicas e a ameaça cada vez mais real de que a Terra tem os dias contados”.
Nos anos setenta, na Califórnia: a contracultura questionou os valores sagrados e os jovens se abriram a novas experiências.

Tarnas viveu aqueles dias e confessa que só pôde embarcar neste projeto por ensinar em uma área na qual existem menos prejuízos acadêmicos.

“A própria filosofia, a literatura e a física quântica já revelaram que o edifício da razão tinha fendas. Depois de Freud, Jung descobriu a riqueza dos arquétipos para explicar alguns conflitos psicológicos. Aí havia um caminho a percorrer”. E nesse caminho ele descobriu a astrologia.

“O primeiro surpreso fui eu”, diz Tarnas, “quando comecei a comprovar que existiam muitos paralelismos entre as cartas natais das grandes figuras e que havia também uma relação entre a posição dos planetas e o momento no qual, por exemplo, Galileu, Darwin e Einstein realizaram seus descobrimentos mais revolucionários”.

Em “Cosmos e Psique”, Tarnas propõe um percurso atípico pela história, pelas obras dos grandes professores, pelas crises e as guerras e pelos momentos de esplendor. A chave mestra que o guia é a astrologia e constata que “há uma íntima conexão entre as coisas dos homens e os planetas”. Não fala nunca de uma relação causal, não pretende estabelecer que um mundo determina o que acontece no outro.
“Só proponho uma maneira distinta de ver as coisas que nos permita nos reconciliar com a natureza”.


E se o cosmos, tivesse sentido? E se a idéia de que a existência humana transcorre sobre um fundo cósmico frio e inerte fosse uma miragem moderna? E se o universo impessoal de Kafka e Beckett, Dawkins e Dennet fossem uma projeção do século XX?

Perguntas como estas aguçaram a imaginação e a investigação do Richard Tarnas dos anos setenta, e após trinta anos de trabalho deram como fruto Cosmos e Psique, um audaz e detalhado ensaio no qual convivem psicologia, astronomia e história cultural.


“Ter múltiplas facetas a nível pessoal e profissional é parte da vida pós- literatura.”

Segundo Tarnas, a falta de sentido da visão contemporânea do mundo “criou um vazio no qual o mercado, o consumo e a hiperatividade colonizam e empobrecem a imaginação humana”.
Esta primeira parte de “Cosmos e Psique” vale por si só, como uma pequena jóia da filosofia da cultura. A partir de sua própria fascinação pela história e pelo cosmos (sempre há sentido, como Kant, verdadeiro assombro ante “a beleza do céu estrelado”), Tarnas começou a comparar possíveis ressonâncias entre o microcosmo humano e o universo, em uma espécie de astropsicologia que, longe de ser ingênua e pré-moderna, integra intuições chave da psicologia, da ciência e da filosofia contemporâneas.

O grosso de “Cosmos e Psique” traça inúmeros percursos pela história cultural da Europa e América do Norte, com uma ênfase especial na história da ciência (de Copérnico e Galileu a Planck e Einstein), a filosofia (de Descartes e Rousseau a Schopenhauer e Nietzsche) e a literatura (de Shakespeare e Blake a Melville e Salinger).

Tarnas detecta épocas e momentos com um Zeitgeist semelhante (assim a Revolução Francesa e os anos sessenta do século XX), analisa-os à luz da psicologia arquetípica de James Hillman e (aqui está a surpresa) argumenta como determinados tipos de clima cultural, psicológico e político (segundo dados históricos que ninguém questiona) tendem a manifestar-se em sintonia com determinadas configurações astronômicas (segundo dados da Nasa).

Apesar de Tarnas nunca mencionar os signos do zodíaco, seu trabalho vai de encontro com a tradição astrológica em dimensão intelectualmente sofisticada e culturalmente pós-moderna. Não se sabe como as decisões chave de numerosos personagens públicos (e de algumas das melhores agencias literárias) apóiam-se em dita prática inominável, por mais que seja incompatível com a visão moderna do mundo e freqüentemente ganhou impulso em sua imagem de ingenuidade e falta de rigor, como assinala o próprio Tarnas, que longe de qualquer posição determinista defende um cosmos aberto, criativo e participativo.
“O modo pelo qual cada geração enfrenta uma determinada provocação cultural ou sócio-política transforma o modo como as energias arquetípicas semelhantes se apresentarão à geração seguinte.”

Talvez as profundezas da Psique e as profundezas do cosmos estejam menos distantes do que pensamos.
Saiba mais:

Beijos para você!


foto Ron Draine

































Cuidar do outro

Cuidar do outro

“Uma outra motivação que se pode colocar na moldura das motivações interessadas: “ Se os seres vivos conhecessem os frutos da recompensa final da generosidade e das doações como eu os conheço, certamente eles não gostariam de cessar de doar aos outros, de partilhar com os outros até mesmo o último bocado de alimento”.

Buda toma o exemplo do alimento, mas podem-se acrescentar outras realidades: tudo o que eu possuo, se não o partilho, não posso saboreá-lo na sua essência. Posso ser feliz totalmente só. Mas menos bem; posso olhar uma paisagem completamente só, é evidente, mas eu a degustarei melhor, se estiver acompanhado da presença e do olhar do outro; posso viver sem você, mas talvez um pouco menos bem...

Alguém pode viver a sua própria libertação, trabalhando sobre si mesmo, mas viverá menos intensamente quando se fecha aos outros. O próprio Buda faz observar que esta abertura aos outros é uma das condições de nossa felicidade, de nosso progresso nessa vida e nas seguintes. Ele não faz apelo diretamente a esta qualidade interior de gratuidade, mas enumera um certo número de considerações para dizer até que ponto fazer o bem aos outros resulta em fazer o bem a si mesmo.

Amar seu próximo como a si mesmo é tratá-lo com se trata a si mesmo.Tratar o outro com a mesma atenção que temos para com nosso corpo não pode senão ser de proveito ao nosso próprio corpo - cuidar do outro é cuidar de um membro de si mesmo, é uma visão não egocêntrica, não fechada no “eu”.


Jean Yves Leloup
A Montanha no Oceano
Editora Voz
es

Santosha



Três Atos positivos do espírito ( 1)

A satisfação

Trata-se presentemente de desenvolver as qualidades contrárias à negatividade. O que vai corresponder `a possessividade é a satisfação, saber estar contente com aquilo que a gente tem.
“ Deseja aquilo que tu tens e terás tudo o que desejas”.

Desejar, gostar daquilo que a gente tem, se diz santosha em sânscrito: o contentamento.Há pessoas que nunca estão contentes com aquilo que elas têm, que sempre encontram o que é melhor em outro lugar; outras estão contentes com um copo de água, com um raio de sol, com um sorriso.

Ao lado da necessidade de possuir sempre mais, de não estar nunca contente com o que a gente tem, há esta satisfação que não é auto-satisfação, mas reconhecimento em relação àquilo que nos é dado. É alguma coisa que devemos desenvolver em nós: saber acolher com gratidão aquilo que nos é dado. É então, que nos tornamos nós mesmos capazes de doar”.
Jean Yves Leloup
Do livro: A Montanha no Oceano- meditação e compaixão no budismo e no cristianismo.
Editora Vozes.

Apagou o quê?











A luz necessária

Por Tereza Kawalll
O medo do escuro caminha ao lado história da humanidade, está na memória da nossa genética ancestral, ou no Inconsciente coletivo, para quem assim preferir.

Somos cada vez mais dependentes de uma tecnologia que de um lado nos serve, e por outro nos escraviza. Somos consumidores ou seres consumidos pela voracidade e por um sistema social que prioriza acima de tudo a eficiência e a produtividade
Em seu afã cientificista ou iluminista, o homem moderno acreditou ter dominado a natureza através e do conhecimento e da tecnologia, tornando-a mais previsível e “domesticada”.

Quanta ilusão! A natureza tem, claro, muito ciúmes de seus mistérios, e que vem sido desvendados pela ciência de forma espetacular por um lado, mas o preço a ser pago pelos excessos , em nome de um suposto “ desenvolvimento” e riqueza de poucos, já foi longe demais.

A saturação e o esgotamento na Mãe Natureza é algo absolutamente visível e palpável, mas a miopia e a inércia, mesclados com a ganância igualmente indomável dos poderosos não priorizam a urgência e gravidade do problema.

A mesma natureza , em forma de furacões, maremotos, raios e tempestades que tanto aterrorizava o homem das cavernas, é a mesmíssima que hoje nos deixa impotentes e horrorizados com a força e sua violência, seja em ciclones, incêndios, tsunamis, inundações e por aí vai.
Antes eram fenômenos naturais, e atualmente ainda o são, mas levam consigo muito da estupidez e do imediatismo que tanto caracterizam a cultura ocidental moderna.
Progresso a qualquer custo, e lá se vão nossas árvores, gramados, pássaros,
rios, noites estreladas....


Na mitologia grega, encontramos o mito de Prometeu, o herói semidivino que roubou o fogo sagrado de Zeus para entregá-lo aos homens.


“O fogo é o símbolo do espírito humano e das suas criações posteriores. Esse elemento foi fundamental para a evolução das civilizações. Permitiu ao homem cozinhar seus alimentos, forjar matérias primas em artefatos da cultura, fazer armas, se proteger do frio - a fogueira sempre esteve ligada aos processos de socialização. Por analogia, temos a imagem do fogo como a luz, símbolo do progresso e da evolução da consciência. Sem o fogo, o homem estaria condenado a viver nas grutas ou cavernas, e portanto, na escuridão.

Prometeu representa o impulso pela vida civilizada, o anseio humano de avançar através da tecnologia; rebelde com causa esse herói semi-divino é o princípio humanizador evolutivo, a inteligência humana, que ao desvendar os segredos da natureza, supostamente terá controle sobre ela.
Prometeu abriu o caminho para que os homens pudessem alcançar o progresso e tudo o que chamamos de civilização; o fogo roubado dos deuses nunca foi devolvido, significando simbolicamente que o conhecimento uma vez adquirido nunca mais se perde”.


Apagão mental?

A luz que nos parece subtraída não é de outra natureza, e não mereceria uma outra reflexão?
Nosso frágil “ homo tecnologicus” não está se privando da luz da própria consciência?
A exacerbação do conflito progresso versus natureza encontrará uma reposta?

É possível que Prometeu, um ser radical e provocativo, num momento de impaciência tenha devolvido momentaneamente o fogo sagrado à Zeus com o intuito de nos fazer acordar e repensar o que estamos fazendo em nome deste vazio frenesi tecnológico, virtual, relacional e existencial.

O homem tem uma mente extraordinariamente criativa e potente, e as suas conquistas feitas permitiram feitos maravilhosos em todas as áreas, seja social, econômica, cultura, espiritual, etc.

Precisamos urgentemente desta criatividade para tornar a vida que (ainda) temos mais qualitativa e menos quantitativa, mais real e menos virtual, mais afetiva e menos racional, mais prazerosa e menos ambiciosa.

Link: http://www.constelar.com.br/133_julho09/zeusprometeu.php

Zodíaco na fachada externa da Catedral










Vitral de Libra

Vitral de Áries

"Chartres é chamada de “ A Catedral dos Vitrais”. Nada mais justo. São vitrais admiráveis, que tornam irreal a atmosfera no interior da basílica e fazem dela, nas palavras do poeta francês
Edmond Joly, “ o navio encantado de uma música silenciosa, celebrando com suas cores e sua luz o segredo da eterna travessia”.

Há vitrais do século 12, exibindo azuis que parecem roubados ao céu: Nossa Senhora do Belo Vitral, o Vitral da Paixão, o Vitral da Infância e vida de Nosso Senhor; o vitral da Árvore de Jessé.
Há vitrais do século 13, múltiplos quadros que contam historias da Bíblia ou da vida dos santos e as imensas rosáceas sobre os pórticos. Foram oferecidos por reis ou por grandes senhores feudais, ordens eclesiásticas ou corporações de profissionais. Foram todos fabricados no interior da própria catedral, e instalados à medida que o edifício se completava. Aos olhos dos seus construtores, toda aquela incomparável riqueza de formas, cores e luzes apresentava a imagem e sustentava a esperança mítica da Jerusalém Celeste.

Há inclusive um magnífico vitral astrológico, representando os doze signos do Zodíaco. Quando eu o observava, aproximou-se um grupo de turistas ingleses acompanhado por um guia que informou: “ Este é o vitral Astrológico, considerado um dos mais bonitos! E complementou, certamente ignorante do fato que a astrologia era objeto do maior interesse dos construtores das catedrais medievais: “ Mas vocês não acreditam nessa bobagem da astrologia, não é verdade”? Ao que um dos ingleses retrucou: “ Nós até podemos não acreditar. Mas os construtores da catedral certamente acreditavam. Se não, por que dariam um lugar de honra para o vitral astrológico”?

Texto de Luís Pellegrini
Livro : Os pés alados de Mercúrio
Editora Axis Mundi.
Link :http://www.sacred-destinations.com

Labirinto de Chartres

Labirinto, símbolo da busca do Si-mesmo.


Vitral Rosa, Catedral de Chartres, França.

Luis Pellegrini

"Como se não bastasse, a Catedral de Chartres trouxe ainda, até nossos dias, uma herança medieval tão preciosa quanto rara: um labirinto circular que ocupa toda a largura da sua nave central. Das muitas catedrais francesas que possuíam a labirintos similares, Chartres é a única que o conservou. Além disso, esse labirinto é considerado o maior de todos os que foram realizados: faltam apenas onze centímetros e meio para que seu diâmetro atinja treze metros.

O labirinto de Chartres é até hoje perfeitamente visível com suas pedras escuras encastradas no pavimento de pedras claras. Mas, infelizmente, mesmo esse labirinto não está completo. No seu centro havia, segundo testemunhos históricos, uma grande placa de cobre com a imagem, em relevo, do combate mitológico entre o herói Teseu e o Minotauro. Esta placa foi provavelmente removida em 1792, época da Revolução Francesa, e usada para a fabricação de canhões.
Mesmo os estudiosos católicos concordam hoje que o labirinto de Chartres, bem como os que existiam em outra catedrais francesas, é uma herança do labirinto antigo, um símbolo muito importante do pensamento filosófico e religioso do paganismo.

O labirinto é também símbolo importante no contexto da moderna psicologia, particularmente a psicologia analítica que se interessa pelos símbolos arquetípicos. Está ligado ao mito da luta do princípio heróico e solar ( Teseu) contra o princípio animal e noturno( Minotauro) A busca através do labirinto torna-se a busca do próprio Ser, e a imagem do labirinto aproxima-se à das mandalas da Índia e do Tibete.
É uma representação do indivíduo, do seu centro espiritual e da emanação cada vez mais intensa desse centro em direção às zonas exteriores.

Símbolo de tipo universal, usado pelo homem desde os tempos das cavernas, o labirinto representa também um sistema de defesa, anunciando a presença de alguma coisa preciosa ou sagrada que deve ser protegida.
Pode ter também uma função militar, para a defesa do território, de uma cidade, de uma tumba, de um tesouro; ele permite o acesso apenas aos que conhecem os planos de sua construção, aos iniciados.
Tem uma função religiosa contra os ataques do Mal; o Mal não é apenas o demônio, mas também o intruso, aquele que quer violar os segredos, corromper o sagrado, destruir a delicada intimidade das relações com o divino.

Mas o labirinto conduz também ao interior do si-mesmo, na direção de um santuário interior escondido, no qual encontra-se o aspecto mais misterioso da pessoa humana.
O labirinto é, finalmente, a imagem do homem e do seu destino; aquele que sabe ler, interpretar e desenhar o labirinto do seu espírito, esse é um eleito dos deuses.
Conhece o segredo dos mundos e a estrada que o levará de volta ao seio de essência primordial e indiferenciada: o núcleo central de todo labirinto.

Os sábios católicos da Idade Média sabiam de tudo isso. Conheciam a o significado profundo desses símbolos arcaicos, como a Madona Negra, o poço subterrâneo, o labirinto. E por isso introduziram e conservaram suas representações na própria estrutura interior de um dos maiores lugares sagrados da Cristandade: a Catedral de Chartres".

Do livro: Os pés alados de Mercúrio
Luis Pellegrini
Editora Axis Mundi, SP.