Hermann Hesse - Felicidade



"O ser humano, como Deus o imaginou e a literatura e sabedoria dos povos o entenderam por milhares de anos, foi criado com uma capacidade de alegrar-se com as coisas mesmo que não lhe sejam úteis, com um orgão reservado para apreciar o que é belo.
Espírito e sentidos sempre participaram em igual medida nessa alegria do homem pelo belo, e enquanto pessoas forem capazes de se alegrar, no meio de pressões e perigos, com coisas como as cores da natureza ou um quadro pintado, o chamado da voz da tempestade ou da música feita pelo homem, enaquanto atrás da superfície dos interesses e necessidades o mundo puder ser visto ou sentido como um todo onde existe uma ligação do movimento de um gato com as variações de uma sonata, do comovente olhar de um cão com a tragédia de um escritor, num reino mútiplo de mil relações, correspondências, numa liguagem eternamente fluindo para dar ao ouvinte alegria e sabedoria, divertimento e emoção- enquanto isso existir , o homem poderá sempre voltar a dominar as suas fragilidades e atribuir um sentido à sua existência, pois " sentido" é aquela unidade de múltiplo, ou aquela capacidade do espírito de pressentir unidade e harmonia na confusão do mundo".
" Respirar num presente perfeito, cantar no coro das esferas, dançar na ciranda do mundo, rir com o eterno riso de Deus, é o que nos cabe como parte de felicidade. Muitos só têm isso uma vez, muito poucas vezes. Mas quem o viveu não foi feliz só por um instante, pois levou consigo algo desse brilho e melodia, dessa luz da alegria atemporal, todo o amor que foi trazido a este mundo pelos amantes, todo o consolo e alegria que foi trazido pelos artistas, e às vezes séculos depois continua brilhando como no primeiro dia, vem de lá".
Extraído do livro " Felicidade" editora Record, página 53.
Cronicas escritas por Hermann Hesse, entre 1947-1961.