Tudo respira em uníssono








RICHARD TARNAS

Nascido em Genebra (21 de fevereiro de 1950), Richard Tarnas é graduado da Universidade de Harvard e do Harvard do Instituto Saybrook. Trabalhou durante dez anos como diretor de Programas do Instituto Esalen. Ele é o fundador do programa de pós gradução de filosodofia, Cosmologia e Consciência do Califórnia Institute of Integral Studies e membro do corpo docente adjunto da Pacífica Graduate Institute.É casado, tem dois filhos, de 20 e 33 anos.

Seu livro: “A Epopéia da Mente Ocidental" (publicado no Brasil pela Bertrand Brasil ) , Richard Tarnas relata a evolução do pensamento ocidental desde a Grécia antiga até a Renascença, e a revolução cientifica até o alvorecer do século XXI, mostrando as idéias centrais da filosofia, religião e ciência que forjaram nossa perspectiva cultural única.
Hoje, diz ele, nos encontramos desconsolados, vagando entre dois mundos – um que morre e outro que está lutando para nascer.
Por um lado, as certezas espirituais e intelectuais já não são suficientes. Por outro lado, as promessas de uma visão mais integral, uma cosmologia do amanhã- baseado em um relacionamento mais profundo com a natureza e com o cosmos maior exigem de nós um salto de fé, que poucos querem assumir.

A editora espanhola Atalanta , publicou Cosmos e Psique, extenso livro que documenta a cartesiana cisão do cosmos, muito utilizada para isolar a Astrologia. Mas nos dias de hoje alguns voltam a intuir que não há uma psique dentro e um cosmos fora, há uma dinâmica integrada que a Astrologia pode traçar em seus mapas.

Para mim, por hora, basta-me ver a astrologia como prova da fértil imaginação de nossa psique, insaciável leitora do cosmos...”

“Mas também é certo que nossa imaginação é a eclosão do muito imaginativo do cosmos..”.

"Tenho um sentido profundo do divino, que descubro desdobrando-se na psique, no cosmos”.

Entrevista feita por Vitor M. Amela

Os astros influem em minha vida?
Você e eles estão conectados.
E determinam o que faço?
Não é isso. Verá: que horas são?
Doze e meia...
E como soube disto?
Olhando aquele relógio.
E os ponteiros daquele relógio causam as doze e meia?

Não
Pois assim acontece com os astros: não causam nada, os ponteiros de relógio nos quais podemos ler as horas são os arquétipos do cosmos.
Mas uma coisa é o cosmos, e outra, eu.
Ah, aqui você expressa a paixão da mente ocidental que quis despender-se do cosmos até sentir-se autônoma e considerar o cosmos como um mecanismo externo e inanimado. Algo que é absolutamente irreal!
Por que?
Porque somos cosmos em forma humana! Nós somos o modo através do qual o cosmos se faz consciente de si mesmo. Eu gosto de como o formulou o filósofo Plotino (III d.C.):
“Tudo respira em uníssono”.

Mas Saturno é uma pedra bruta inanimada, enquanto que eu sou minha psique.
O que você chama “minha psique” não é mais do que a respiração do cosmos. Cosmos e psique são duas formulações de uma mesma e única realidade. E as conjunções dos astros viabilizam a dinâmica cósmica, quer dizer, a dinâmica arquetípica da psique. Isto é o que estuda a astrologia arquetípica.

Ela é muito diferente de outras astrologias?
Seu enfoque esta de acordo com os atuais enfoques da psicologia transpessoal, da física quântica, da teoria do caos e dos fractales, a ecologia e Gaia, a filosofia holística...
Há lugar para a liberdade pessoal?
É precisamente a visão participativa do homem no cosmos: cada um de nós é o cosmos atuando. Há uma dinâmica cósmica, uma melodia que cada um interpreta com um estilo. Veja o Hitler e o Chaplin.
O que acontece com Hitler e Chaplin?
Nasceram quase ao mesmo tempo e compartilharam aspectos de suas cartas natais, mas podemos ver como foram tão distintas as maneiras como os desenvolveram!
Em que eles se pareciam?
Ambos tinham dificuldades com a autoridade, tendências tirânicas, potenciais para as artes, atração por jovens emocionalmente imaturos, e grande capacidade de comunicação.
Fale-me de uma dinâmica cósmica: como funciona, com que mecânica?
É um mistério! A ciência não alcança isto.
Para que serve a astrologia arquetípica?
Para intuir a dinâmica profunda das coisas, como o bom surfista intui a dinâmica das ondas: compreender o passado e o presente ajuda a surfar melhor na onda do futuro.
Desde quando há astrólogos?
Sempre, são observações antiqüíssimas. Antes de ser açoitado por sustentar que a Terra orbitava ao redor do Sol, Galileu tinha sido açoitado por ser astrólogo!
Eu não sabia disso...
A Igreja se assustou com as precisas predições de Galileu: onde ficava a vontade divina se tudo estava nos astros?
Houve outras mentes eminentes interessadas na astrologia?
Platão, Aristóteles, Dante, Goethe, Yeats, Jung, Kepler.! A curiosidade de Newton pela astrologia o conduziu à matemática. Nos momentos mais criativos do Ocidente a astrologia sempre aflora.
Como você chegou à astrologia?
Durante umas indagações psicológicas junto com o Stanislav Grof nos assombrou a constatação de como cartas astrais indicavam episódios de transformação psíquica. Então decidi estudá-la, sem considerar o incômodo que isto causa, como fizeram os que vituperaram contra Copérnico...
Que evidências o fascinaram mais?
Tantas... Impressiona-me a correlação entre as configurações planetárias e a era axial.
O que é a era axial?
Os séculos VI e V a.C. são assim denominados em função da formidável eclosão vivida pela humanidade: Sócrates, Buda, Confúcio, Pitágoras, Lao Tse, Zoroastro, jainismo, os profetas hebreus... Não há um período histórico igual!
E o que nos dizem os astros a respeito daquilo?
Urano, Netuno e Plutão estavam alinhados de modo quase perfeito. Observei que os alinhamentos entre dois destes três planetas correspondem sempre a revoluções de consciência. Os três de uma vez...
E como andam agora estes planetas?
Plutão e Urano se alinham, o que assinala inovações criativas e culturais.
Possivelmente como esta que postula você?
As mudanças de paradigma não são de um dia para outro, vão impregnando as consciências… Copérnico fazia esta mesma reflexão a respeito de seu revolucionário giro.
O ano de 2012 será apocalíptico, dizem...
Pode acontecer algo que venha colorir o processo de transformações no qual já nos encontramos, como antes escolhermos o ano de 1789 para simbolizar aquele extenso processo revolucionário.
Que devo esperar dos horóscopos da imprensa?
Só entretenimento. Eles focalizam o Sol no momento do nascimento: isto equivale a querer abranger o estado integral de nosso organismo observando apenas o coração.
Tem sentido dizer: “Sou Libra”?
É como se você disesse “sou jornalista”: isto não expressa à complexidade da sua pessoa.
Somos leitores do cosmos: a astrologia é uma leitura, e ler é criar. Sim?
Ficou bonito, mas não entenda o cosmos como uma projeção mental: o desenvolvimento da consciência é o desenvolvimento do processo de auto-revelação do cosmos.


A CONTRA VANGUARDA, 19 de fevereiro de 2008.


“Há uma íntima conexão entre as coisas dos homens e os planetas.”

“A física quântica mostrou que o edifício da razão tinha gretas”

Os planetas estavam alinhados da mesma maneira no dia em que Jimi Hendrix arrasou ante as multidões com sua forma heterodoxa de tocar o violão e o dia em que Viena se rendeu aos pés de Beethoven pela profundidade de seus concertos de piano. Explica-o Richard Tarnas, professor de filosofia e psicologia na Califórnia, formado em Harvard e doutorado pelo Instituto Saybrook. Certamente, um tipo pouco habitual no mundo acadêmico.

Em “Cosmos e Psique” o que Tarnas defende é que tudo está relacionado e que há uma íntima conexão entre o microscópico e o macroscópico, entre as coisas das criaturas humanas e a marcha dos planetas, e insiste em assinalar a extrema complexidade do mundo e a pluralidade das perspectivas através das quais pode ser analisado.
Tarnas considera que nos tempos atuais reina uma profunda insatisfação e os homens não encontram uma maneira coerente para explicar as grandes questões.

“O reinado da razão foi avassalador, e foram tantos os lucros tecnológicos que propiciou que parecia que se impunha um progresso irreversível”, explica.

“Logo vieram os excessos e hoje parece claro que isto foi muito longe. Aí estão as crises ecológicas e a ameaça cada vez mais real de que a Terra tem os dias contados”.
Nos anos setenta, na Califórnia: a contracultura questionou os valores sagrados e os jovens se abriram a novas experiências.

Tarnas viveu aqueles dias e confessa que só pôde embarcar neste projeto por ensinar em uma área na qual existem menos prejuízos acadêmicos.

“A própria filosofia, a literatura e a física quântica já revelaram que o edifício da razão tinha fendas. Depois de Freud, Jung descobriu a riqueza dos arquétipos para explicar alguns conflitos psicológicos. Aí havia um caminho a percorrer”. E nesse caminho ele descobriu a astrologia.

“O primeiro surpreso fui eu”, diz Tarnas, “quando comecei a comprovar que existiam muitos paralelismos entre as cartas natais das grandes figuras e que havia também uma relação entre a posição dos planetas e o momento no qual, por exemplo, Galileu, Darwin e Einstein realizaram seus descobrimentos mais revolucionários”.

Em “Cosmos e Psique”, Tarnas propõe um percurso atípico pela história, pelas obras dos grandes professores, pelas crises e as guerras e pelos momentos de esplendor. A chave mestra que o guia é a astrologia e constata que “há uma íntima conexão entre as coisas dos homens e os planetas”. Não fala nunca de uma relação causal, não pretende estabelecer que um mundo determina o que acontece no outro.
“Só proponho uma maneira distinta de ver as coisas que nos permita nos reconciliar com a natureza”.


E se o cosmos, tivesse sentido? E se a idéia de que a existência humana transcorre sobre um fundo cósmico frio e inerte fosse uma miragem moderna? E se o universo impessoal de Kafka e Beckett, Dawkins e Dennet fossem uma projeção do século XX?

Perguntas como estas aguçaram a imaginação e a investigação do Richard Tarnas dos anos setenta, e após trinta anos de trabalho deram como fruto Cosmos e Psique, um audaz e detalhado ensaio no qual convivem psicologia, astronomia e história cultural.


“Ter múltiplas facetas a nível pessoal e profissional é parte da vida pós- literatura.”

Segundo Tarnas, a falta de sentido da visão contemporânea do mundo “criou um vazio no qual o mercado, o consumo e a hiperatividade colonizam e empobrecem a imaginação humana”.
Esta primeira parte de “Cosmos e Psique” vale por si só, como uma pequena jóia da filosofia da cultura. A partir de sua própria fascinação pela história e pelo cosmos (sempre há sentido, como Kant, verdadeiro assombro ante “a beleza do céu estrelado”), Tarnas começou a comparar possíveis ressonâncias entre o microcosmo humano e o universo, em uma espécie de astropsicologia que, longe de ser ingênua e pré-moderna, integra intuições chave da psicologia, da ciência e da filosofia contemporâneas.

O grosso de “Cosmos e Psique” traça inúmeros percursos pela história cultural da Europa e América do Norte, com uma ênfase especial na história da ciência (de Copérnico e Galileu a Planck e Einstein), a filosofia (de Descartes e Rousseau a Schopenhauer e Nietzsche) e a literatura (de Shakespeare e Blake a Melville e Salinger).

Tarnas detecta épocas e momentos com um Zeitgeist semelhante (assim a Revolução Francesa e os anos sessenta do século XX), analisa-os à luz da psicologia arquetípica de James Hillman e (aqui está a surpresa) argumenta como determinados tipos de clima cultural, psicológico e político (segundo dados históricos que ninguém questiona) tendem a manifestar-se em sintonia com determinadas configurações astronômicas (segundo dados da Nasa).

Apesar de Tarnas nunca mencionar os signos do zodíaco, seu trabalho vai de encontro com a tradição astrológica em dimensão intelectualmente sofisticada e culturalmente pós-moderna. Não se sabe como as decisões chave de numerosos personagens públicos (e de algumas das melhores agencias literárias) apóiam-se em dita prática inominável, por mais que seja incompatível com a visão moderna do mundo e freqüentemente ganhou impulso em sua imagem de ingenuidade e falta de rigor, como assinala o próprio Tarnas, que longe de qualquer posição determinista defende um cosmos aberto, criativo e participativo.
“O modo pelo qual cada geração enfrenta uma determinada provocação cultural ou sócio-política transforma o modo como as energias arquetípicas semelhantes se apresentarão à geração seguinte.”

Talvez as profundezas da Psique e as profundezas do cosmos estejam menos distantes do que pensamos.
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