Psicoterapia - Irving Yalom


Neste livro, Irving Yalom(foto) traz narrativas surpreendentemente verdadeiras, o escritor disseca a delicada relação entre médico e paciente. Longe de se mostrar um observador distante, Yalom se coloca no olho do furacão, confidenciando aos leitores suas fraquezas, seus preconceitos, suas antipatias e até mesmo erros. Ao contrário do que se imagina, os bons terapeutas também se entediam, se envolvem, se identificam, são involuntariamente seduzidos e repelidos, amam e odeiam os seus pacientes.


“Descobri que são quatro dados são particularmente relevantes para a psicoterapia: a inevitabilidade da morte para cada um de nós e para aqueles que amamos, a liberdade de viver como desejamos, nossa condição fundamental de solidão e, finalmente, a ausência de qualquer significado óbvio para a vida. Embora esses dados possam parecer terríveis, eles contém as sementes da sabedoria e da redenção. Espero demonstrar, nestes dez contos sobre psicoterapia, que é possível enfrentar as verdades da existência e aproveitar o seu
poder para a mudança e o crescimento pessoal”.

“ À medida que envelhecemos, aprendemos a tirar a morte da mente; desviamos a atenção do tema; nós a transformamos em algo positivo ( prosseguir, voltar para casa, reencontrar Deus, paz finalmente); a negamos com mitos confortadores; lutamos pela imortalidade por meio de obras imortais, lançando nossa semente no futuro por meio de nossos filhos ou abraçando um sistema religioso que ofereça perpetuação espiritual”.

“ Na verdade, a capacidade de tolerar a incerteza é um pré-requisito para a profissão.... A poderosa tentação de obter uma certeza abraçando uma escola ideológica e um sistema terapêutico hermético é traiçoeira: essa crença pode bloquear o encontro incerto e espontâneo necessário para uma terapia efetiva.

Esse encontro, o verdadeiro âmago da psicoterapia, é um encontro afetuoso, profundamente humano entre duas pessoas, uma delas ( geralmente, mas nem sempre, o paciente) mais perturbada do que a outra. Os terapeutas possuem um duplo papel: devem tanto observar quanto participar da vida de seus pacientes. Como observadores, devem ser suficientemente objetivos para oferecer a orientação rudimentar necessária ao paciente. Como participantes, entram na vida do paciente, são afetados por ela, e algumas vezes, modificados pelo encontro”.


“Devo aceitar que conhecer é melhor do que não conhecer, aventurar-se é melhor do que não se aventurar; e que magia e a ilusão, por mais magníficas e fascinantes que sejam, no final enfraquecem o espírito humano.
Eu encaro com profunda seriedade as poderosas palavras de Thomas Hardy: “Se existe um caminho para o Melhor, ele exige uma visão completa do Pior”.

“Uma vez que os terapeutas, não menos que os pacientes, precisam se confrontar com esses dados da existência, a postura profissional de objetividade desinteressada, tão necessária ao método científico, é inadequada.
Nós, psicoterapeutas, não podemos simplesmente tagarelar com simpatia e exortar os pacientes a se debateram corajosamente com os seus problemas. Nós não podemos dizer a eles você e seus problemas.
Ao contrário, devemos falar de nós e de nossos problemas, pois a nossa vida, a nossa existência, estará sempre presa à morte, do amor à perda, da liberdade ao temor e do crescimento `a separação.
Nós, todos nós, estamos juntos nisso”.

“ Mas existe o momento certo e o julgamento adequado. Jamais tire qualquer coisa se você não tiver nada melhor para oferecer em troca. Tome cuidado ao desnudar um paciente que não pode suportar o frio da realidade. E não se canse combatendo o encantamento religioso: você não é páreo para ele. A sede pela religião é forte demais, suas raízes profundas demais, seu reforço cultural poderoso demais.

No entanto, eu não deixo de ter fé, minha Ave-Maria é a invocação socrática: “A vida não examinada não vale a pena ser vivida”.


Do livro “ O carrasco do amor – e outras histórias sobre psicoterapia”
Irvin D. Yalom
Ediouro, Rio de Janeiro.

4 comentários:

  • Adelia Ester Maame Zimeo | 24 de outubro de 2009 23:13

    "Nós, todos nós, estamos juntos nisso". Sinto plenamente assim. Um processo alquímico onde ambos terapeuta e cliente são transformados. Creio que só há transformação necessária quando a Alma é tocada. E isto só ocorre, se a alma do terapeuta está presente e atuante no processo terapêutico. Caso contrário, o processo transcorre de maneira parcial e não atinge o Todo. Tereza, gosto muito dos livros de Irving Yalom. Ótima escolha! Beijo Afetuoso.

  • Adelia Ester Maame Zimeo | 24 de outubro de 2009 23:15

    Tereza Querida, venha retirar seu selinho. Beijos.

  • Anônimo | 26 de outubro de 2009 00:51

    "Nós, todos nós estamos juntos nisso". diferente disso realmente não é verdadeiro, essas palavras e a coragem de se mostrar do autor traduz com toda certeza quem faz dessa profissão um sacerdócio, estamos numa mesma jornada, e "compartilhar" crescemos juntos, é totalmente perceptível, quando agimos nos colocando nas ou com as mesmas situações, a expressão de alívio e confiança cresce diante dos olhos e pessoa se sente em casa e nos torna diante dos pré-conceitos como seres auxiliadores, estamos todos no mesmo barco. parece que percebem que temos uma "bóia" de reserva para atirar quando se sentem a deriva, e se entregam a si mesmos com mais amor e carinho próprio.
    Amei o texto. Beijos Tê. Mara Gengo

  • Luis Carlos Fernandes | 9 de janeiro de 2010 09:00

    Já li todos os livros do Yalon, e cada vez me encanto mais pela sua coragem de se colocar junto com o paciente ( e não acima como a maioria ), o que me trouxe profundo encantamento pela abordagem humanista.
    Sua coragem em desvelar seus anseios, medos , erros e incertezas frente a dificil missão da psicoterapia, sem dúvida nenhuma, é o que mais me faz admirá-lo.
    O grande desafio para o terapeuta, é entender que o que o diferencia do paciente, na maioria das vezes, é apenas a situação momentânea em que se encontram, pois no mais, são carente das mesmas necessidades humanas: amor, afeto, compreensão, valorização, reconhecimento, respeito, sonhos, liberdade, escolhas, etc.
    As vicissitudes da vida podem nos paralisar a qualquer momento, e então necessitamos de alguém que possa nos reerguer e nos mostrar o quanto somos capazes, devolvendo-nos a confiança perdida, pois a vida já nos convenceu do contrário.
    Quanto mais leio seus textos, mais me apaixono pela Psicologia e pelos profissionais que, com esmerada dedicação, não medem esforços para devolver ao seu paciente um mínimo de dignidade.
    Indubitavelmente, acredito que o "estar junto" com o paciente é que pode ser a grande diferença na tão almejada mudança, objetivo maior da psicoterapia.
    Oxalá todos os profissionais de saúde pudessem desenvolver uma atitude mais humanista, fazendo de sua profissão um verdadeiro sacerdócio, cujo objetivo primeiro fosse sempre o bem estar do paciente.
    Pena que muitos se esqueçam que o paciente é a razão do nosso existir, e, portanto, sem ele nada somos e nada significamos.
    Gostaria de me corresponder com psicoterapeutas adeptos da abordagem humanista, para que possa adquirir mais conhecimentos a respeito e assim me dedicar com mais afinco nos meus estudos.
    Luis Carlos Fernandes - estudante de psicologia
    fernandes.luiscarlos@yahoo.com.br
    Jaboticabal - SP.regeran