Michael, forever


Num tempo de brincar e fantasiar
Lá estava ele, envolvido em trabalho, rígida disciplina de ensaios, shows,
Sob a batuta implacável de um pai violento.
Ali, sua estrela já brilhava, assim como sua linda voz e um largo sorriso.

Nos ciclos naturais da vida, tristemente invertidos
Num tempo de maturidade, lá estava ele,
Morando dentro de um enorme parque de diversões,
Sorrindo e brincando com outras crianças,
Seu deleite adiado, e tão duramente questionado.

Possivelmente, Michael estava dando voz à sua alma sonhadora e delicada,
Reivindicando a cura de um tempo não vivido, feridas que não se calam.
Um destino complexo, paradoxal
Que em vários momentos, semelhante a uma roda gigante,
Ora descia, ora subia, surpreendendo a todos.
Brilho e decadência,
Sombra e luz,
Black or White.

Sua música, seu dançar único, alegria e imagens embalaram nossos sonhos, corpos e amores, melodias e letras se fundem a imagens geniais, belas e universais.
A magia de sua presença continuará para sempre.

Afirmava ser Peter Pan, a criança eterna, o “ puer aeternus”,(*)
A recusa da realidade e da finitude, do tempo que não passa
E que guardará , sorte nossa, a magia de sua presença.

Assim, que os céus acolham seu brilho em alguma constelação
Bordando mais uma estrela em seu fundo infinito
Pois mitos habitam em nosso imaginário,
Espelhos e projeções das nossas profundas contradições humanas,
Bem representadas por uma sinfonia agridoce,
Sua rápida e inspiradora jornada por aqui.

Tereza Kawall

Obs*:
Puer aeternus: arquétipo da eterna criança, tende a unificar: o Herói, a Criança Divina, as figuras de Eros, o Filho da Grande Mãe, Mercúrio-Hermes, o Trickster. Nele vemos um leque mercurial dessas “ personalidades”: narcisista, inspirado, efeminado, fálico, inquisitivio, inventivo, pensativo, passivo, fogoso e caprichoso.
Citação de James Hillman, analista junguiano, em : “Senex e Puer”.

8 comentários:

  • minduim | 3 de julho de 2009 10:17

    Conseguiu sintetizar uma não pessoa, uma carreira, um cometa de brilho não efemero.
    Black E White!
    Minduim

  • aldren | 3 de julho de 2009 10:48

    NOSSA!!! UMA VIDA TRADUZIDA EM UM POEMA QUE REALMENTE SINTETIZA A ESSENCIA DE UM SER. PARABENS. SAUDADE.
    ALDREN

  • Maura | 4 de julho de 2009 01:51

    Parabéns pelo artigo lúcido, objetivo e compacto da trajetória de um pop star genial, mas que fez escolhas que não eram de luz... quem sabe uma boa terapia o tivesse tirado daquela visão de vítima do pai e o colocasse na posição para qual ele nasceu: de um artista inigualável!!!bjs

  • Adelia Ester | 4 de julho de 2009 16:56

    Tereza Querida, que primor de texto! Merece ser publicado também em: revistas, períodicos, boletins e/ou outros. Uma análise linda, com a qual concordo integralmente. Sensibiliza a alma. Parabéns!

  • Emilio | 4 de julho de 2009 21:59

    Ele se foi
    E vc colocou ele nas estrelas...

  • Ana Cris | 5 de julho de 2009 01:08

    Tereza, adorei a poesia, linda! bjs... Ana Cristina

  • Anônimo | 6 de julho de 2009 12:16

    Muito bom, Tereza, gostei da citação mítica no termo em latim -- vivendo e aprendendo! E é isso, ele estava fora do círculo da roda contínua das vidinhas medíocres que em geral são vividas nessa Terra pelo ser humano; ele ousou ser excêntrico e não foi compreendido por muitos. Pena. De qualquer modo, é mais um anjo no céu. Grata pelo post! Abraço! Isa

  • Diva | 27 de junho de 2011 18:07

    Fantástico Tereza!

    Muito linda essa sua homenagem. Michael com certeza agora é uma estrela a mais no céu onde os mitos de toda a história humana estão eternizados.
    Beijos,
    Divani