O barulho da floresta que brota


Entrevista com Jean-Yves Leloup

Jean-Yves Leloup é um dos pensadores importantes do mundo contemporâneo. Nascido em 1950, na França, ele é um cidadão do mundo. Filósofo, terapeuta transpessoal, teólogo, ele é padre da igreja ortodoxa na França, e traduziu e interpretou textos bíblicos. Seu pensamento é poético, universalista, multidimensional. Conferencista reconhecido internacionalmente, ele vem regularmente ao Brasil proferir seminários organizados pela Universidade da Paz.

Para Marie de Solemne, uma estudiosa da sua obra, “a considerável força da palavra de Jean-Yves Leloup é que ela é sistematicamente informada, ao mesmo tempo, por uma reflexão filosófica, psicanalítica e espiritual”. Os livros de Jean-Yves estão publicados em vários idiomas e fazem sucesso no Brasil. Entre os seus últimos lançamentos estão “Amar ... Apesar de Tudo” e “A Arte da Atenção”, ambos da Editora Verus. A entrevista a seguir foi concedida na sede da Unipaz, em Brasília.

Pergunta – Você é sacerdote da igreja ortodoxa...

Jean-Yves Leloup - A ortodoxia é a tradição das origens do cristianismo. Inicialmente, o cristianismo era uma comunhão de igrejas. Havia a igreja de Jerusalém, a de Antióquia, a de Éfeso, a de Roma. Foi só no século 12 que a igreja de Roma se separou. As diferentes igrejas ortodoxas preservaram a tradição de comunhão e permaneceram unidas apesar das diferenças.

Pergunta - Você acredita em Astrologia?

Jean-Yves Leloup – O homem é uma parte do universo e depende dos astros. Isso faz parte da sua unidade com o cosmo. Gosto das palavras de Santo Tomás de Aquino, que diz que os homens dependem dos astros, mas são maiores do que eles. Não somos completamente determinados pelos astros. O homem é uma mistura de natureza e de aventura. Creio na Astrologia, mas não no determinismo.

Pergunta – Quando você diz que aceita postulados da Astrologia, essa é uma opinião pessoal ou é um consenso em sua igreja?

Jean-Yves Leloup – Na igreja ortodoxa há diferentes teólogos, com pontos de vista diversos. A linha de pensamento em que estou engajado respeita a Astrologia. A consciência da relação do homem com o universo, a consciência da sua liberdade e a consciência daquilo que o ser humano faz em relação ao universo – essas são questões muito tradicionais.

Pergunta – No seu livro A Arte da Atenção, você define o oceano como “um deserto em movimento”. O deserto parece ser um dos seus temas constantes. Se para você o deserto é uma metáfora, ele simboliza o quê?

Jean-Yves Leloup – Simboliza o silêncio – o silêncio de onde vem a palavra e para onde a palavra volta. O deserto é também uma metáfora da vacuidade – a vacuidade de onde vem o mundo e para onde esse mundo volta. Quando estamos no deserto, nesse espaço de silêncio, nós nos aproximamos dessa vacuidade essencial e não somos distraídos pelas formas. Entramos em contato com o que não tem forma — a origem de todas as formas.

Pergunta – Você acredita em reencarnação?

Jean-Yves Leloup – A reencarnação é uma explicação possível. Ela é importante para dar-nos um sentido de responsabilidade e para colocar-nos em contato com as conseqüências dos nossos atos. A idéia de reencarnação está ligada à idéia de justiça e à lei do Carma. O Evangelho diz que o que você planta, você colhe. Nesse sentido, a idéia da reencarnação pode ser útil. Mas os grandes sábios da Índia dizem que a reencarnação é uma crença popular e uma forma de interpretar o que está além do espaço e do tempo. Crer na reencarnação é acreditar na continuidade do espaço-tempo. Por isso, há uma diferença entre reencarnação e ressurreição. O objetivo humano é sair do ciclo da reencarnação e atingir um estado de ressurreição que está além da necessidade de reencarnar e constitui uma libertação. Quando perguntaram ao indiano Ramana Maharshi para onde ele iria depois da sua morte, ele respondeu: “irei para onde sempre estive”. Ele não fala de reencarnação, nem do encadeamento de causas e efeitos. Ele destaca que há dentro de nós algo que está livre da roda de causas e efeitos, livre do samsara. É esse estado de despertar que devemos descobrir.

Pergunta – O que é Deus? É uma entidade antropomórfica que toma decisões como se fosse um ser humano, com seu hemisfério cerebral esquerdo, que gosta ou não gosta, que se apega ou rejeita algo? Ou Deus é apenas uma Lei Universal?

Jean-Yves Leloup – Cada um tem sua religião conforme o seu nível de consciência. Nossa imagem de Deus é feita de acordo com o que a nossa consciência pode conter. É por isso que existem imagens de Deus muito infantis – Deus como uma grande mãe ou um grande pai, como uma fonte de segurança. Meister Eckhart escreveu que, para alguns, Deus é como uma vaca leiteira, algo que tem que suprir as nossas necessidades. Para outros, Deus é aquilo que coloca em ordem a sociedade humana e o universo, é a lei natural. Para outros, ainda, Deus é apenas uma palavra, e tudo o que podemos pensar de Deus não é Deus, mas apenas a nossa representação dele. Assim, também, o que conhecemos da matéria não é a matéria, mas apenas o que os nossos instrumentos de compreensão nos permitem perceber. Por isso, quando usamos a palavra Deus, é bom saber do que estamos falando. Ao longo da nossa vida pessoal, nossa imagem de Deus pode mudar. Aquilo que a gente aprendeu no catecismo, em outro momento ganha outro significado. O que aprendemos sobre Química no primeiro grau não é o que aprendemos na universidade. Às vezes, no entanto, ficamos fixados nas imagens da escola de primeiro grau. O mais importante, claro, é a nossa experiência. O que quero dizer quando falo de Deus? Que experiências estão por trás dessa palavra? Para mim, essa é uma experiência de serenidade, de silêncio, de amor, e de luz.

Pergunta – Em seus livros, você aborda “a memória do corpo”.

Jean-Yves Leloup – O corpo é a nossa memória mais arcaica. Tudo aquilo que uma criança viveu fica guardado na forma de impressões em seu corpo. Quando tocamos um corpo, tocamos toda essa memória. Assim, você não pode tocar determinadas pessoas em determinadas áreas, porque ali há registros de memórias antigas. Karl Graf Dürkheim dizia que quando fazemos massagem em alguém, não estamos tocando um corpo, estamos tocando uma pessoa. O corpo é animado, pleno de memórias.

Inteligências Múltiplas



Um grande passo para a compreensão do que é e como funciona a inteligência humana foi dado nos anos 80 por um psicólgo norte americano, Howard Gardner na Universidade de Harward.

Ele e um grupo de pesquisadores da cognição humana concluiram que existem sete espectros de inteligências que comandam a nossa mente. Estas competências estão inter-relacionadas, e algumas delas, anteriormente eram vistas como dons ou virtudes.

Segundo a pesquisa todos temos mais de uma inteligência, que existem em diferentes níveis de desenvolvimento. E podemos treiná-las!

De forma bem reduzida são elas:·

Inteligência lógico-matemática: traduzida na capacidade de realizar operações matemáticas, racicínio dedutivo, e de analisar problemas com lógica. Matemáticos, pesquisadores, engenheiros e cientistas têm essa capacidade privilegiada.

Inteligência lingüística: habilidade de aprender línguas e de usar a língua falada e escrita, boa comunicação verbal para expressar-se e atingir objetivos. Advogados, escritores, poetas, jornalistas e locutores tem essa habilidade.

Inteligência espacial: Habilidade de organização de elementos visuais de forma estética. Capacidade de reconhecer e situar-se no espaço. É importante tanto para ilustradores, qunato para navegadores, pilotos, escultores, artistas plásticos.

Inteligência corporal: capacidade em usar o corpo e as mãos para a solução de problemas ou auto-expressão. Dançarinos, atletas, cirurgiões, terpeutas corporais, artesãos, mágicos, mímicos ou mecânicos valem-se dela.

Inteligência interpessoal: é traduzida pela capacidade de perceber as intenções e os desejos dos outros, habilidade no trato social e de se relacionar bem. Inclui-se aqui os professores. É necessária para terapeutas, vendedores, políticos, líderes religiosos, políticos.

Inteligência intrapessoal: seria a capacidade do indivíduo conhecer-se e estar bem consigo mesmo, de usar o auto-conhecimento para administrar e equilibrar a sua própria vida. Auto-estima e disciplina para chegar aos seus objetivos pessoais e profissionais.

Inteligência musical: Associada à idéia de talento. Habilidade para entender a linguagem sonora e se expressar através dela. Disposição inata para apreciação, organização de elementos sonoros, composição, e independe de aprendizado. Músicos , maestros e compositores.

Gardner abriu novos caminhos para a educação, afirmando que a escola e o professor devem respeitar valorizar essas diferentes formas de habilidades e interesses. Essa multiplicidade de inteligências nos conduz a uma visão mais humana e critativa da educação do futuro, pois enfatiza um processo de aprendizagem mais individualizado. Esta concepção certamente nos levaria a formação de cidadãos socialmente e profissionalmente mais integrados, valorizados e portanto felizes!

Para ler:

" Inteligências Múltiplas: a teoria e a prática", de Howard Gardner. Artmed, 2000.
Revista Mente e Cérebro, edição nº 175, agosto de 2007


Esperança na Desesperança

foto: Araquem Alcantara


A desesperança nasce da consciência sobre as carências do Homo
sapiens/demens e das manifestações históricas do ruído e do furor
que, tantas vezes fizeram tábula rasa da razão e do amor. Essa
dialógica dispõe de seis princípios de esperança na desesperança:

·Princípio vital: assim como tudo o que vive se auto-regenera numa
tensão irredutível para o futuro, também todo o humano regenera a
esperança regenerando sua vida. Não é a esperança o que faz viver,
é o viver que cria a esperança que permite viver.

·Princípio do inconcebível: todas as grandes transformações ou
criações foram impensáveis antes de ocorrer.

·Princípio do improvável: todos os acontecimentos felizes da história
foram, a priori, improváveis.

·Princípio da toupeira: que cava suas galerias subterrâneas e
transforma o subsolo antes que a superfície se veja afetada.

·Princípio de salvação: é a consciência do perigo que, segundo
Hölderlin, sabe que "onde cresce o perigo, cresce também o que salva".

·Princípio antropológico: é a constatação de que Homo
sapiens/demens usou até o presente uma pequena porção das
possibilidades de seu espírito/cérebro. Isso supõe compreender
que a humanidade se encontra longe de ter esgotado suas
possibilidades intelectuais, afetivas,culturais, civilizacionais,
sociais e políticas.

Nossa cultura atual corresponde ainda à pré-história do espírito
humano e nossa civilização não ultrapassou a idade de ferro planetária.

Estes princípios não trazem consigo nenhuma segurança, mas não
podemos livrar-nos nem da desesperança nem da esperança. A
odisséia da humanidade permanece desconhecida, mas a missão da
educação planetária não é parte da luta final, e sim da luta inicial pela
defesa e pelo devir de nossas finalidades terrestres; a salvaguarda da
humanidade e o prosseguimento da hominização. (p.111)

Morin Edgard, Ciurana E & Motta R 2003. Educar na era planetária
O pensamento complexo como método de aprendizagem pelo erro e
incerteza humana
.Cortez Editora, São Paulo.

Orientação Vocacional


Saturno, o símbolo astrológico do trabalho, perseverança e da responsabilidade.

Em tempos de mudanças aceleradas e tantas reformulações na área das carreiras, a necessidade de escolha ou planejamento da profissão é, cada vez mais, de vital importância.

Seja para o jovem que está dando os seus primeiros passos em sua formação e qualificação ou para profissional já estabelecido, este é um desafio estimulante, mas que também gera certa angústia.
A Internet assim como as constantes inovações tecnológicas oferecem e exigem mais e mais preparo e empenho nesta área. Em algum momento teremos que trabalhar para “ganhar a vida”. E esta é uma realidade e, sobretudo uma necessidade.

O trabalho, além do sustento, é nossa forma de expressão no mundo, aquilo que nos define, que põe a personalidade em ação no mundo. Todos somos criativos, todos queremos ser “ alguém”.
Afinal, escolhemos a nossa profissão ou é ela que nos escolhe?
Aptidões e interesses podem ser contraditórios, e portanto, não é fácil uma escolha ou decisão que irá exigir tempo, dinheiro e dedicação.
A indefinição profssional, em grande parte, pode estar relacionado à falta de auto-conhecimento, que só chega quando já fizemos muitas experiências, o que teoricamente nos levará a maturidade.
Como escolher uma graduação ou profissão se ainda não me conheço?
Serei um especialista? Um generalista? O que é mais indicado para mim?
Como construir um projeto de vida se tudo está sempre em transição?

A necessidade da escolha se dá necessariamente pela cultura educacional, ao final da conclusão do ensino médio. Mas isto raramente coincide com a maturidade psicológica ou emocional do jovem - muito pelo contrário.
As decisões podem ser pautadas pelo mercado de trabalho, moda, imposição familiar, etc.
Mas e daí?
Esta bússola “ funcional” vai apontar também para a satisfação e realizações mais gratificantes?
Na área profissional as pessoas dizem: “sou músico”, “sou um técnico”, ou “sou decoradora”, o que nos leva à idéia que essa escolha se relaciona mais ao SER que somos, e isso responde pelo termo “ vocação”.
Esta palavra vem do latim vox e core, voz e coração respectivamente, o que vem a ser o dom, uma aptidão especial que possuímos, um chamado. Mas, quem chama? Aquilo que se escolhe pela voz do coração, que faremos com paixão.

A Astrologia é uma ferramenta muito valiosa para indicar os talentos potenciais e aptidões que o indivíduo possui, as áreas em que ele pode se sair bem profissionalmente. O mapa astrológico de nascimento é um mapa da psique em estado latente; seus símbolos representam tendências e potenciais que estão à disposição de um indivíduo, e indicam também as diferentes fases de desenvolvimento.

Podemos fazer uma analogia com a semente de uma árvore, que já contém em si todo o seu futuro potencial de crescimento, e que irá se desenvolver, florescer e frutificar ao longo da vida, também, claro, de acordo com as condições do meio externo.
É importante ressaltar que a avaliação das aptidões vocacionais não obedece a um critério de adivinhações, mas sim de propiciar ou facilitar um reconhecimento dos valores e interesses que cada um de nós possui. As habilidades humanas são amplas e variadas , assim como as nossas reais necessidades de realização.
Citamos algumas delas:

Habilidades:
- Artísticas
-Intelectuais
-Técnicas
- Liderança e iniciativa
- Físicas e atléticas
-Assistenciais

Necessidades:
-Prestígio, reconhecimento
- Segurança, sobrevivência
- Satisfação pessoal
- Poder
- Ideal social
- Ideal intelectual
- Filosofia de vida

E os estudos e os diplomas, nada contam?
A formação acadêmica e as especializações fazem parte do processo todo, claro, assim como o meio familiar, cultural e social. O comprometimento, a postura, os valores de vida e os interesses que se renovam também contribuem para a formação e construção de um profissional.
Conhecer a si mesmo, saber as suas reais motivações, interesses é a mola propulsora para este caminho, que é atender nossa vocação e nosso talento.

China x Tibet: até quando?



XIV Dalai Lama em Dharamsala, India

Ao que parece, os tímidos esforços da comunidade internacional nada trouxeram de resultados positivos para os conflitos do sofrido povo tibetano. A verdadeira " muralha" da China parece ser o seu atual e extraordinário poder econônomico, que ao que parece vem silenciando gritos e sonhos de milhares de tibetanos expatriados no Ocidente. Até quando?

Sabe-se que detenções em massa de monges continuaram na semana passada, e mosteiros foram fechados pelas tropas armadas chinesas. A crise se aprofunda e há notícias de suicídios de monges em diferentes pontos do país, em protesto à opressão chinesa, evidenciando o desespero ao clima de medo e incertezas.

Dois enviados de Sua Santidade, o Dalai Lama, devem chegar à China no dia 3 de maio para tentar um diálogo com as lideranças chinesas. O líder espiritual tibetando exige que as conversas sejam " sérias".