Joseph Campbell (1904-1987)
Extraordinário professor de mitologia comparada, escritor e orador, autor de diversos livros dedicou sua vida à pesquisa da odisséia humana nos mitos de inúmeros povos, de diferentes épocas, e com sua forte intuição, encontrou semelhanças significativas e pontos em comum entre eles. Campbell considerava a mitologia “o canto do universo; a música da imaginação inspirada nas energias do corpo”.

Follow your bliss

Esta é uma expressão marcante no trabalho de Campbell. A palavra bliss é freqüentemente traduzida como felicidade. No conceito campbelliano, porém, representa a busca pelo caminho pessoal, ainda que possamos passar por dores, alegrias, sofrimentos ou êxtase. Bliss é algo que não podemos deixar de fazer, é um chamado.

Dizia ele:
“O caminho para descobrir alguma coisa a respeito de sua própria felicidade é concentrar a atenção nesses momentos em que você se sente mais feliz, em que você está realmente feliz....Isso exige um pouco de auto-análise. O que é que o torna feliz? Não arrede o pé daí, não importa o que as pessoas digam. Isso é o que eu chamo de “perseguir a sua bem-aventurança”.

“Minha formula geral para meus estudantes é: persiga a sua bem- aventurança. Ache onde ela está e não tenha medo de segui-la, as portas se abrirão onde você não imaginaria que elas estivessem”.

Este é o chamado presente na jornada herói, presente em tantas culturas, a busca por aquilo que realmente importa, a rota da individualidade, onde será forjada a consciência do si-mesmo, do Self.

“A jornada do herói representa a coragem de procurar as profundezas; a imagem do renascimento criativo; o eterno ciclo de mudanças dentro de nós; a misteriosa descoberta de que o buscador é o próprio mistério que ele busca conhecer. A jornada do herói é um símbolo que, no sentido original do termo, liga duas idéias distantes , a busca espiritual dos antigos com a moderna procura de identidade, “sempre a mesma história que encontramos, sob formas mutáveis e, no entanto, maravilhosamente constante”.
Phil Cousineau, introdução ao livro A Jornada do Herói, de Joseph Campbell, editora Ágora, 2003).


Síntese da Felicidade

Carlos Drummond de Andrade

Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-sol na roça
Uma festa Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu

Os quatro fantasmas


Por Martha Medeiros

"Totalmente leiga em psicanálise, é o que sou. Mas interessada como se dela dependesse minha sobrevivência.
Noutro dia, envolvida por um texto instigante, me deparei com as quatro principais questões que assombram nossas vidas e que determinam nossa sanidade mental:

1. Sabemos que vamos morrer.
2. Somos livres para viver como desejamos.
3. Nossa solidão é intrínseca.
4. A vida não tem sentido.

Realmente não são questões fáceis. A consciência de que vamos morrer talvez seja a mais desestabilizadora, mas costumamos pensar nisso apenas quando há uma ameaça concreta: o diagnóstico de uma doença ou o avanço da idade. Somos livres para escolher o que fazer de nossas vidas, e isso é amedrontador, pois coloca a responsabilidade em nossas mãos. A solidão assusta, mas sabemos que há como conviver com ela: basta que a gente dê conteúdo a nossa existência, que tenhamos uma vontade incessante de aprender, de saber, de se autoconhecer. Quanto à gratuidade da vida, alguns resolvem com religião, outros com bom humor e humildade.
O que estamos fazendo aqui?
Estamos todos de passagem.
Portanto, não aborreça os outros e nem a si próprio, trate de fazer o bem e de se divertir, que já é um grande projeto pessoal.
Tudo é incerto, a começar pelo dia e a hora da nossa morte. Incerto é nosso destino, pois, por mais que façamos escolhas, elas só se mostrarão acertadas ou desastrosas lá adiante, na hora do balanço final. Incertos são nossos amores, e por isso é tão importante sentir-se bem mesmo estando só. Enfim, incerta é a vida e tudo o que ela comporta.Somos aprendizes, somos novatos, mas beneficiários de uma dádiva: nascemos. Tivemos a chance de existir De se relacionar. De fazer tentativas.
Muitos tem uma dificuldade tremenda em aceitar esta transitoriedade. Por isso a psicoterapia é tão benéfica. Ela estende a mão e ajuda a domar nosso medo. Só convivendo amigavelmente com estes quatro fantasmas - finitude, liberdade, solidão e falta de sentido - é que conseguiremos atravessar os dias de forma mais alegre e desassombrada."